Arte e Cultura

Domingo, 19 de Maio de 2019, 08h:20 | Atualizado: 24/05/2019, 08h:32

ATRÁS DO SONHO

Cuiabana larga tudo para ganhar a vida como rapper no metrô de SP - veja vídeos

Nos vagões de metrô de São Paulo, a cuiabana Flor Costa, 26 anos, entoa rimas quase diariamente, em busca do sonho de viver da própria arte. A cada parada em uma estação, ela anuncia a "pausa para os comerciais", para que os fiscais não a retirem do local. Quando o metrô segue viagem, ela retoma o rap. Ao fim da apresentação, antes de desembarcar na plataforma, a artista passa o boné entre os passageiros, à espera de uma recompensa pelo show de improviso.

Flor afirma que as apresentações nos vagões representam a forma que encontrou para ser livre. Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 2015, ela optou por não exercer a profissão. Em busca de uma vida, que considera mais feliz, sem um serviço formal e para trabalhar com aquilo que gosta, a artista se mudou para São Paulo.

Jaqueline Altomane/Vision Media

rapper  Flor Costa

Cuiabana, rapper Flor Costa decidiu viver de forma livre e leve. Assim, se apresenta nos metrôs de São Paulo, onde recebe a contribuição dos passageiros 

“Desde a faculdade, sabia que jornalismo não era para mim. Fiz o curso mais por questão de querer aprender a escrever e adquirir habilidades com comunicação. Jornalismo é uma profissão com muitas horas extras, que dizem ser sinônimo de amor à profissão. Em muitos casos, é difícil ter vida pessoal. Isso não é pra mim”, conta ao .

Em Cuiabá, ela já estava inserida no Hip Hop – movimento que une o break, grafite e a arte de rima, incluindo o rap – por meio da Batalha da Alencastro, da qual era espectadora assídua. Em setembro de 2016, Flor se mudou para São Paulo, junto com o então marido, que também era rapper, e passou a dedicar a vida exclusivamente ao ritmo que mescla poesia e música.

A princípio, ela trabalhou no rap como produtora e assessora de imprensa de coletivos. Em meados de junho de 2017, deixou os bastidores e tornou-se rapper em vagões de metrôs e trens. Ela se tornou Flor MC.

Eu estava sem trabalho e não queria algo fixo com carteira assinada, porque não é pra mim

Flor Costa

“Eu estava sem trabalho e não queria algo fixo com carteira assinada, porque não é pra mim. Uns amigos falaram: você já sabe como é o esquema no vagão e rima bem, por que não? Na época, eu já frequentava semanalmente uma batalha feminina em São Paulo. Foi então que comecei a me apresentar com meus amigos”, comenta.

A partir de então, Flor deu início à carreira, que hoje incluí músicas gravadas em estúdio, clipe no YouTube e premiações em diversas batalhas de São Paulo e em Estados vizinhos.

A rotina

Filha de professores, Flor revela que os pais ficaram preocupados quando ela contou que não seguiria carreira acadêmica ou no jornalismo após a conclusão da universidade. “A maior preocupação deles era se eu conseguiria me estabilizar ou não. Mas, no fim, deu certo. Conforme fui fazendo música, fui sendo convidada para eventos, fazendo shows e recebendo algum tipo de conhecimento. Então eles viram que não era brincadeira e que eu poderia viver disso”, conta.

Hoje, Flor divide a rotina entre apresentações de terça a sábado nos metrôs, aulas de Hip Hop para as crianças e apresentações musicais em eventos. “A coisa que mais gosto disso tudo é que não é uma rotina tão certa quanto trabalhar em escritório. Além disso, vivo fazendo o que eu amo e sempre me preocupo em ter cuidado para que não se torne algo desgastante”, pontua.

Abaixo, veja uma das apresentações de Flor no metrô de São Paulo:

“No passado, eu tinha a rotina da faculdade. Depois teve a rotina dos treinos de capoeira, que eu fazia. Mas quando vim pra São Paulo, isso acabou. A minha obrigação é dar aula duas vezes na semana. Vou aos vagões quando quero, quando estou bem. Claro, como qualquer emprego, não posso deixar de ir. Mas vou no horário em que dá vontade e também volto quando me dá vontade. Tenho o resto do dia para investir em mim, fazer eventos, fotos ou outros freelancers. Isso foi uma escolha que fiz”, acrescenta.

Vou aos vagões quando quero, quando estou bem. Claro, como qualquer emprego, não posso deixar de ir

Flor Costa

As aulas que a cuiabana dá são em duas unidades da instituição Unas, que auxilia crianças e adolescentes de regiões periféricas de São Paulo. “Dou oficinas de Hip Hop para jovens de seis a 14 anos. Dar essas aulas me traz muita alegria, porque o Hip Hop é uma chance de mudar os horizontes da pessoa, para que ela cresça e veja que não existe apenas aquilo que foi empurrado a ela pela sociedade”, afirma.

Há alguns meses, Flor se separou do marido. Ela passou a morar sozinha e hoje conta com ajuda financeira dos pais. “Antes, eu conseguia me bancar. Mas como estou morando sozinha, nesse período estou contando com um pequeno complemento dos meus pais. É algo em torno de 20% do total que eu consigo por mês”, diz.

A artista comenta que 60% de sua renda mensal vem das apresentações nos metrôs e trens – ela não fala em valores, mas diz que arrecada quantia superior a um salário mínimo. “Sempre estipulamos um valor para arrecadarmos diariamente. Se não alcançamos, continuamos nos apresentando até conseguir”, explica. Os outros recursos da rapper vêm por meio de apresentações em eventos e das aulas no projeto social.

A vida no metrô

A cuiabana canta sobre o cotidiano no metrô. Ela diz que chegou a fazer rimas mais politizadas, relacionadas a assuntos como feminismo e homofobia, porém mudou a abordagem. “Percebi que quando eram temas mais polêmicos, como críticas políticas, muitas pessoas gostavam, mas havia também muitas outras que criticavam. Então, para evitar essas situações desagradáveis, tento falar desses assuntos de um modo mais generalizado atualmente”, explica.

Pontua que hoje tenta fazer shows mais alegres. Fala sobre mesmos temas como feminismo ou combate a preconceitos, mas de forma mais leve, com um filtro maior e com pensamentos mais positivos, para que as pessoas reflitam sobre como são especiais e únicas, mesmo em um lugar com tanta gente. "Também faço algumas brincadeiras com características das pessoas, em situações pontuais. Mas grande parte das minhas rimas são sobre ideias”, acrescenta.

Ela considera que o público costuma ser receptivo às suas apresentações nos vagões. Porém, confessa que já viveu situações em que se sentiu humilhada. “Já passei por situações em que o passageiro desmereceu meu trabalho para me humilhar. Eu saía do vagão arrasada, chorava e deixava de trabalhar. Mas hoje lido mais tranquilamente: desço, tomo uma água e depois volto”, diz.

“Não ligo se a pessoa me ignorar no metrô, ela tem esse direito. Por isso, sempre foco as apresentações naqueles que estão demonstrando gostar. Ultimamente a recepção das pessoas tem sido melhor. Elas marcam a gente nas redes sociais, seguem e pedem contato depois. Isso é muito bom”, conta.

Mesmo com as dificuldades, a cuiabana afirma que se sente feliz por poder se apresentar nos vagões de São Paulo. "Estou vivendo essa vida muito doida. Meio instável, mas muito gratificante, porque a gente não entra naquela monotonia”, afirma.

Para o futuro, ela planeja que seu trabalho ganhe mais reconhecimento em todo o país e que possa levar suas rimas para outras regiões do Brasil. “Eu quero inspirar, de alguma forma, pessoas inseguras. É preciso entender que se você quer algo e se dedicar àquilo, assim como eu, isso realmente pode acontecer. Acho que fiz uma boa escolha para a minha vida”.

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