Arte e Cultura

Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 07h:04 | Atualizado: 20/02/2019, 11h:40

GELADEIROTECA

Filha e neta de garimpeiros, Gláucia herda a "mais linda pepita": o amor pelos livros

Geladeiroteca

Crianças podem pegar os livros para levar para casa, ler e devolver, deixando para outras

Já há algum tempo geladeiras antigas, depois de se aposentarem, veem ganhando nova função. São guarda-volumes e, para os mais lúdicos, servem como protetoras de livros.

Foi mais ou menos assim que começou uma história muito bacana em Dom Aquino, no interior de Mato Grosso. Gláucia Macedo, 46 anos, desde menina foi estimulada pelo pai a ler e depois contar a ele as histórias que lia.

Em entrevista ao portal , Gláucia conta que, quando era adolescente, tinha os olhos treinados para ler no carro, enquanto a maioria sentia enjôo na estrada. Nem via o tempo passar, imersa na literatura. “Em uma viagem que eu e minha família fizemos para Bahia foi assim. Me lembro também de outras vezes, que mesmo sem energia elétrica eu me encostava perto de uma vela ou lamparina e viajava nas leituras”.

Com o tempo, ganhou gosto e nunca mais abandonou os livros. Nascida e criada no interior, mesmo que de origem simples, foi apresentada a um mundo de possibilidades consumindo páginas de todos os tipos. “Agora pretendo que outras pessoas tenham o mesmo acesso ao conhecimento. Doei quase 200 livros da minha coleção pessoal e meu intuito é que daqui 10 anos alguém me aborde e conte: aquele projeto mudou a minha vida”, diz, esperançosa.

Rodinei Crescêncio

Glaucia Macedo

Neta e filha de garimpeiros de Mato Grosso, Gláucia herdou o amor pela leitura, repassado por eles. O pai, mais tarde, se tornou professor, mudando de vida

Doei quase 200 livros da minha coleção pessoal e meu intuito é que daqui 10 anos alguém me aborde e conte: aquele projeto mudou a minha vida

Uma cidade pequena, mas com aspirantes bons leitores

Após a primeira Geladeiroteca, nome do projeto, ser instalada em frente à prefeitura do município, recebeu uma ligação. No telefone, o esposo de Glaucia, e também prefeito da cidade, Valdécio Luiz da Costa, lhe disse que havia sido um fracasso. “Pegaram os livros e não devolveram”, ele me contou.

Foi aí que Gláucia viu a ocorrência pelo lado positivo, as pessoas se interessaram pelas obras. “O gramado onde a geladeira estava tinha até um caminho de tantas idas e voltas”.

Entre as obras, os livros de adultos ficam no congelador e os infantis na parte de verdura. Todos acessíveis, mas bem aquecidos pelas mãos dos leitores.

Um dia desses, a mentora do projeto diz que se recordou de outro momento da juventude ao ver que, em torno na geladeira, muita gente se sentava para manusear os livros. “Enquanto acontecia uma apresentação de dança eles também queriam ler embaixo das árvores”, memora.

Afinal, para começar a leitura, basta um livro. Uma praça, um ponto de ônibus, um canto no fim do corredor, debaixo de uma árvore – podem ser ideais para quem quer apreciar uma vida menos conectada em tomadas e um pouco mais ligada consigo mesmos e com as palavras.

Memórias de outras épocas

Quando estou sem sono, costumo dizer que o livro é meu remédio tarja preta

“Eu gosto de sentir as páginas entre os dedos e do cheiro que tem cada livro, quando estou sem sono costumo dizer que o livro é meu remédio tarja preta”, comenta.

Outro dia foi abordada por um senhor já de idade que disse que sabia quem era sua família, mas não apenas ela ou sua mãe - professora conhecida da cidade. Mas também o pai e o avô. Curiosa, questionou, e foi então que ouviu - impressionada - o relato. “Antes de o seu pai ser garimpeiro, conheci também seu avô na mesma profissão. Quando o pai do seu pai tinha uma folguinha do garimpo, se encostava em uma árvore para ler um pouco. Se naquele dia faltasse um livro, ele se virava, lia até a bíblia”, detalhou.

Costume este que o pai da menina, agora adulta, a ensinou desde muito jovem. Coisa que hoje ela repassa de outro jeito aos outros. “Não sei quem vai ler, nem se isso vai mudar a cultura toda. Porém, mudou a minha vida e antes de mim, mudou a vida do meu pai que se tornou professor. Desapeguei dos meus livros, objetos que sempre tive muito amor, por acreditar nisso”, finaliza.

O projeto aceita doações e planeja eventos literários no município. Para mais informações basta entrar em contato com os números abaixo.

________________________________

Serviço:

  • Gláucia: (066) 9 9639-7858
  • Prefeitura de Dom Aquino: (066) 34511299 ou (066) 3451-1200

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Comentários (10)

  • GLAUCIA DA SILVA MACEDO | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 11h41
    2
    0

    Agradeço a todos! Sem distinção. Pelos comentários, pelo incentivo, pelo carinho, pelas doações, por tudo... Agradeço todos que doaram um “pedacinho de si”, desde os mais próximos como meu filho, meus vizinhos, minha família, até o Imortal da Academia de Letras de Mato Grosso Dr. Eduardo Mahon – que honra! Agradeço à Keka e a você, Mirella, pela reportagem que me emociona. Madrinha Mundica, também te amo! Sr. Aluízio, nossas histórias tem cadência similar, pois meus avós também vieram da Bahia para Poxoréu (com “u”, como antes) e na primeira oportunidade meu avô tirou meu pai do garimpo para estudar. Depois dos estudos, nos quais foi aluno de minha mãe (vejam só!) meu pai foi além, foi professor também. E sei que ao menos um dos seus alunos foi meu professor. E ele foi mais além através do estudo: passou no concurso do BASA, vindo para Dom Aquino e aqui se estabeleceu. Os Srs. Aluízio e Eduardo, este último também de Poxoréu e meu ex-reitor da UFMT, talvez tenham sido conterrâneos de meus pais e avós. Meus pais, Edilson e Laurinda, avós Jovelino e Durvalina e Trajano e Maria, eram moradores do “Areia” e frequentadores da pracinha, do cinema, da lagoa, do Diamante Club... Sr. Eduardo o ponto chave deste projeto é sim a Cidadania com tudo que ela encerra, desde a disseminação do conhecimento através da garantia de acesso, até o respeito que todos merecemos quando fortalece a noção de “compartilhar”. E sim, Sr. Aluizio, “Um livro vale mais de 1000 armas.” E sim, Gutemberg Abreu, é viciante. Graças a Deus!

  • Éduardo De Lamonica Freire | Domingo, 17 de Fevereiro de 2019, 08h48
    4
    0

    Em contraste com a notícia sobre contratações de "assessores' dos senadores recém eleitos, esta é uma informação que revigora a cidadania e nos estimula a contribuir pelo belíssimo exemplo. Belíssima também, sob todos os aspectos. é a autora/executora do projeto.

  • Alexandre | Domingo, 17 de Fevereiro de 2019, 06h26
    2
    0

    Parabéns!

  • Aluizio Pereira de Barros | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 23h35
    3
    0

    Eu, na qualidade de filho de "GARIMPEIRO" vindo da Bahia até Poxoréo (cidade vizinha de Dom Aquino) à pé, fico feliz em saber que a maioria dos garimpeiros queriam o melhor aos seus filhos. Gláucia me fez lembrar do meu Pai ( Saudoso Antonio Pereira dos Santos) fundador da cidade de Alto Paraguai, juntamente com o seu compadre Aurélio Pires; passei em primeiro lugar em um concurso da CEMAT em 1971e o meu Pai me disse, filho isso é coisa do Governo, amanhã eles te manda embora e você não terminou o estudo. Abri mão do emprego e continuei estudando e em 1974, já com o 2º grau concluído, novamente passei em um novo Concurso da CEMAT, Empresa que trabalhei até 1998, com empregado e até 2004, como Empreiteiro dela. Quero Parabenizar a Gláucia, pelo belíssimo projeto Social. Um livro vale mais de 1000 armas. Só a Educação e a Cultura poderá mudar um povo.

  • Raimunda da Silva Cardoso | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 19h43
    4
    0

    Minha afilhada orgulho da Madrinha.

  • Socorro Andrade | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 13h57
    4
    0

    Parabéns...Ser...vc, sua irmã e sua família fazendo a diferença GD ABC.e muito orgulhosa de seu projeto.

  • Gutemberg Abreu | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 12h06
    5
    0

    Parabéns! Leitura é um vício saudável e abre novos horizontes! Sou disputado em leitura!

  • cirley chagas | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 10h30
    5
    0

    Parabens pelo projeto....desejo sucesso....incentivar a leitura eh um ato nobre.

  • GLAUCIA DA SILVA MACEDO | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 09h38
    6
    0

    Amei!!!!

  • Vladimir palma | Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 08h44
    4
    0

    Parabéns pelo projeto ler e algo que ninguém tira da gente

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Concordo - esse Exame tem de acabar

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