Arte e Cultura

Sexta-Feira, 24 de Maio de 2019, 08h:18 | Atualizado: 24/05/2019, 08h:34

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Jovem usa câmera para melhorar timidez e se torna cineasta premiado - conheça

Reprodução

 Cineasta Rafael Irineu

Cineasta Rafael Irineu conta que começou a carreira fazendo filmes e fotos da família para ver o mundo pelas lentes

Na infância, o mato-grossense Rafael Irineu, hoje com 25 anos, era uma criança tímida. Nascido em Rondonópolis, se mudou para a pequena cidade de Mirante (BA), de pouco mais de 10 mil habitantes, em 2005. No município baiano, descobriu que poderia se expressar por meio de capturas de fotografias e vídeos. O amor pelo audiovisual perdurou ao longo dos anos e levou o jovem, já na vida adulta, a tornar-se um premiado cineasta.

Rafael revela que conflitos levaram a família a deixar a terceira maior cidade de Mato Grosso e migrar para a Bahia. Longe de amigos, o garoto recorreu a uma câmera fotográfica recém-comprada pelos pais, para fazer filmes e fotos, para buscar seu espaço no mundo.

"Eu era o que tinha mais afinidade com a tecnologia e tomei frente na câmera para fazer registros da família. Por conta de conflitos familiares, que foram marcantes durante a infância, tive como alternativa buscar uma visão do mundo pelas lentes em fotos ou vídeos", relata ao .

Na época, ele fazia fotos de parentes e também vídeos de paródias com os irmãos mais novos. Um dos primeiros projetos criados por ele foi feito há 14 anos, de modo informal. "No interior da Bahia, registrei um pouco da rotina da minha vizinha, que era benzedeira. Ela pediu para que eu gravasse em um DVD e mandou para parentes de São Paulo. Na época, não havia sinal de celular na região e, muito menos, de internet", conta.

Desde que conheci Majur, pensei em contar a sua história

Rafael Irineu

A vizinha gostou do trabalho do jovem e passou a indicá-lo para amigos, como forma de agradecimento. "Ela me indicava para todo casal ou gestante que ia na casa dela pedir benção", diz.

Em 2009, Rafael voltou com a família para Rondonópolis. Na época, o então adolescente tinha uma certeza: queria trabalhar com audiovisual. "Comecei a trabalhar em uma loja de departamento da cidade, para juntar dinheiro e comprar equipamentos. Conheci um fotógrafo que me apadrinhou e ensinou a noção técnica de uma câmera mais profissional", relembra.

Em 2011, ele passou a cobrir eventos em Rondonópolis. No ano seguinte, fez aquele que considera o primeiro trabalho profissional no setor do audiovisual. "Foi um registro para a banda de pop/rock de um primo distante. Fiz um clipe em cima de um diário de bordo deles", comenta.

No ano seguinte, foi aprovado no curso de radialismo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e se mudou para a Capital. "Em Cuiabá, continuei fazendo fotografia e participei de exposições coletivas, são nove ao total. Também fiz duas publicações em livros, além de jornais e prêmios", detalha.

No período da universidade, na qual se formou em 2017, ele também foi bolsista no cineclube da instituição de ensino e participou da organização da Mostra Audiovisual da UFMT.

Para Rafael, todas as experiências foram fundamentais para que pudesse se desenvolver e alcançar êxito com seu filme mais premiado: o curta-metragem "Majur", que retrata a rotina de um indígena homossexual.

Cezar Rondon

Curta-metragem Majur, que retrata a rotina de um indígena homossexual.

Gravação do curta-metragem Majur, que retrata a rotina de um indígena homossexual. Cineasta conheceu Majur durante gravação de "Meu Rio Vermelho"

A carreira no audiovisual

O cineasta comenta que um projeto no terceiro semestre do curso universitário foi fundamental para que chegasse à figura central de “Majur”. “Eu estava inquieto perante a vontade e de produzir e, junto com mais duas pessoas, fiz um trabalho chamado Cururu e Siriri - Tradição no coração. Inscrevemos ele em um congresso regional e ganhamos", comenta.

Ele me pediu sigilo, para não sofrer represálias ou algo assim. Somente o cacique sabia o real motivo das gravações

Rafael Irineu

No semestre seguinte, ele fez um novo trabalho. Desta vez, deveria fazer um documentário. Para buscar a temática, Rafael decidiu retornar à cidade natal e falar sobre o Rio Vermelho, que banha a cidade. "Fizemos pesquisa antes, consegui gravar com uma equipe e contei com a ajuda de todos os moradores da região", comenta.

O documentário, intitulado “Meu Rio Vermelho”, teve apoio da pró-reitoria de Cultura da UFMT e foi apresentado em um congresso de comunicação.

Foi justamente no período de pesquisa para o documentário que Rafael conheceu o protagonista da produção seguinte. "Tivemos de ir à Fundação Nacional do Índio (Funai) para conseguirmos entrar em uma terra indígena para filmar o "Meu Rio Vermelho". O cacique da aldeia me passou o contato da pessoa responsável pela comunicação da aldeia, que era justamente Majur".

Depois de concluir o documentário sobre o rio, Rafael retornou à aldeia para fazer fotos. "Desde que conheci Majur, pensei em contar a sua história. A partir dessa sessão, o contato foi sendo cada vez mais próximo, até que o convidei para fazer o documentário", relata.

Majur

Para aceitar o convite do jovem, Majur fez um pedido: ninguém na aldeia poderia saber a respeito do tema do documentário. "Ele me pediu sigilo, para não sofrer represálias ou algo assim. Somente o cacique sabia o real motivo das gravações", diz. O pedido não afetou a produção. "Busquei mostrar uma pessoa que se doa e é porta-voz para uma comunidade inteira, sem nomenclaturas e clichês que todo mundo espera vindo de um conteúdo LGBT".

Antes e durante as filmagens, Majur não era abertamente homossexual na aldeia. A produção, de pouco mais de 20 minutos, captou momentos de interação entre os protagonistas e o seu povo, além de abordar a temática da homossexualidade entre povos indígenas.

O filme foi feito com ajuda do Conselho Cultural da Prefeitura de Cuiabá, após a produção ser selecionada e receber R$ 25 mil.

Abaixo, confira o trailer de Majur:

"Majur" tornou-se sucesso. A história do indígena homossexual já teve mais de 100 exibições, como em áreas indígenas e também em outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo. "Tenho muito orgulho dos locais em que foi exibido, como o Centro Cultural de São Paulo e a Cinemateca Brasileira", revela.

Cleiton Thiele

Festival de Cinema de Gramado

Cineasta Rafael fala sobre seu trabalho durante o Festival de Cinema de Gramado

O jovem ganhou 13 prêmios pelo curta-metragem. "Fiquei bastante realizado com os resultados de Majur", comemora. Neste mês, "Majur" foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, organizado pela Academia Brasileira de Cinema. "Essa premiação é feita com votação dos próprios profissionais da área. A indicação já é um grande prêmio", afirma.

Apesar do sucesso, Rafael comenta que ainda não consegue viver exclusivamente do audiovisual. Há um ano, ele retornou a Rondonópolis e tem trabalhado como auxiliar administrativo em uma imobiliária. “O audiovisual estava crescente até então [antes cortes relacionados à Cultura, determinados pelo Governo Federal], mas ainda em mãos com bastante privilégios. Além disso, tenho dificuldades porque não tenho CNPJ para concorrer a editais, nem empresa física para me manter na publicidade e viver das minhas produções”, explica.

Enquanto trabalha em outra área, o jovem está em busca de investimentos para suas próximas produções. “Pretendo buscar novas formas de investimentos para conseguir rodar algo ainda este ano”, revela.

Cezar Rondon

Antes e durante as filmagens, Majur não era abertamente homossexual na aldeia

Antes e durante as filmagens, Majur não era abertamente homossexual na aldeia. Índio pediu total sigilo durante as gravações às margens do Rio Vermelho

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