Arte e Cultura

Sexta-Feira, 15 de Fevereiro de 2019, 07h:00 | Atualizado: 20/02/2019, 11h:40

ELAS NA CONDUÇÃO

Motoristas de aplicativos abraçam a nova profissão, apesar de assédio e dos perigos

Rodinei Crescêncio

Val�ria

Valéria não conseguia emprego, quando chegou de mudança em Cuiabá e resolveu ser Uber

Françoise Geraldo não queria mais ser professora. Perdeu o interesse e já não se sentia preparada para encarar a sala de aula. Para ela, há 6 anos o Brasil se encontrava numa situação drástica. A qualidade da educação diminuía drasticamente ano após ano e o perfil de alunos estava complicando demais a rotina. “São crianças muito problemáticas. Não tinha mais condições de lidar com elas”, relata.

Em 2012, largou a profissão. “Não querer trabalhar na sua profissão é a mesma coisa que ter só o ensino médio”, compara.

Depois disso, Françoise atuou no mercado de prestações de serviços. Em seguida, passou um tempo desempregada. Quando solicitava uma corrida pelo aplicativo Uber, sempre perguntava aos motoristas como era a profissão e ficava interessada.

Hoje em dia com 39 anos, já é motorista do aplicativo há um ano e meio. “Os baixos salários e o fato de que eu não queria mais lecionar me levaram a experimentar o Uber”, explica.  Ano passado, ganhou um prêmio por ser a motorista mulher mais bem avaliada de Mato Grosso.

Rodinei Crescêncio

Jane

Janes de Campos, há 8 meses,  ouviu os conselhos de uma amiga e gostou da experiência

Números

Para ter uma renda, Valéria Pinheiro também optou por ser motorista de aplicativo. Aos 23 anos, se mudou de Barra do Garças para Cuiabá. Como não conseguia arrumar emprego, optou pelo Uber. Está há seis meses na profissão e também cursa direito. “Dependo [do aplicativo] para viver e pagar a faculdade”, ressalta.

Como uma forma de complementar a aposentadoria, Janes de Campos também entrou na Uber. Ela trabalhou por 34 anos como agente administrativa da Policia Civil e tinha uma colega que era motorista e a convidou para trabalhar ser parceira de profissão. “Vamos entrar nessa experiência. Eu queria movimentar. Gostei e estou atuando até hoje”, disse. Ela está há oito meses no aplicativo.

A jornada de trabalho de Françoise, Valéria e Janes é longa. Elas dirigem cerca de 12h por dia. Segundo elas, a jornada é parecida com a de outros motoristas – tanto para homens quanto para mulheres – na Capital.

“Nenhum motorista Uber, que só trabalha como Uber, consegue sobreviver com menos de 10 horas dirigindo”, avisa Françoise. De acordo com a ex-professora, a situação fica difícil para quem aluga carros, como é o seu próprio caso. “Hoje, motorista com carro alugado não dá para dirigir menos que 12 horas por dia”, conta.

A remuneração mensal gira em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil, é variável.

Françoise

Françoise cansou de dar aula, não queria lidar com aluno e virou Uber

Assédio

Françoise, Valéria e Janes afirmam que sofrem assédio na rotina. “É constante. É diário. É da natureza do homem. Isso é inquestionável”, acredita Françoise. Valéria também relata que os rapazes sempre dão “umas indiretas”. “Perguntam se meu namorado não se importa de dirigir”, exemplifica. Já Janes disse que é comum. “Levei cantada e tudo mais, mas a gente leva. Dá um jeitinho”, disse.

Ainda para Françoise, homens dificultam a vida quando vêem que é uma mulher que está na volante. “Você tem que procurar ser perfeita ao máximo possível para não aturar esse tipo de preconceito”, relata.

Apesar dos assédios, as três relataram que nunca chegarem a sofrer nenhuma violência como motoristas da Uber e disseram que, no geral, a rotina é tranqüila.

Insegurança

Com a rotina, as duas criaram medidas de segurança para driblar a sensação de insegurança. Em ruas sem saída, manobram o carro para entrar de ré, se precisar fugir de alguma situação perigosa. Valéria, por exemplo, não leva mais de dois homens no carro.

Já Françoise, antes de pegar o passageiro, o avalia para começar a viagem. “Antes de chegar ao local, eu subo o vidro. Paro um pouco antes e falo para a pessoa que cheguei. E espero a pessoa sair para ver qual pessoa sai de casa”, disse. Apesar do método, disse que nunca precisou fazer isso.

A Uber oferece alguns mecanismos de corrida – alguns somente após a corrida. Segundo Françoise, quando o passageiro chega ao seu destino, o motorista avalia o cliente com uma estrela e relata a situação de ameaça ou violência. Instantes depois, o aplicativo providencia que solicitações de viagens destes mesmos clientes nunca irão mais notificá-las.

Além disso, elas mantêm uma rede de contato com outros motoristas e sempre informam sobre seu ponto de localização com amigos e conhecidos. “Sempre conversar com outros ubers. Nunca rodar sozinho. Mandar localização em tempo real”, lista Valéria.

Por conta da insegurança, Janes relatou que prefere não fazer corridas às noites, após passar por uma tentativa de assalto. Nesse horário, normalmente, busca estar perto do Aeroporto Marechal Rondon e atender as corridas de passageiros e turistas que chegam a Mato Grosso, além de evitar o trânsito e conseguir fazer viagens mais longas – o que rende mais, segundo diz.

“Eu vou sempre ao aeroporto porque lá os clientes são mais seguros, tem dinâmica à noite e é fresquinho. De lá direcionado para Cuiabá, é um valor melhor para gente. Aí fico até as 2 horas da manhã, se tiver desembarque”, comentou.

Roupas

Por serem mulheres, as motoristas usam um estilo mais formal de roupa no horário de trabalho. “Ando com roupa comportada. Nunca uso roupa decotada. É como se fosse para um serviço normal. Bem vestida. Sempre jogo um blazer por cima. Cabelo amarrado. Bem apresentado”, descreve Valéria.

Já Janes disse que se sente mais livre para usar o que quer. “Eu visto o que me agrada. Mas com respeito ao passageiro. Eu visto calça comprida, coloco vestido”, disse.

As duas desabafaram sobre a falta de mais mulheres como motoristas por aplicativos em Cuiabá. “As pessoas falam que deveriam ter mais mulheres. Todo mundo fala. Quando a mulher pede e vê que é uma motorista, ela sente mais confiança de estar com uma mulher”, disse Valéria.

Chefes de si mesmas

Apesar das dificuldades, Françoise, Valéria e Janes acreditam que a profissão compensa. A ex-professora relata que com o Uber consegue fazer o seu próprio horário e ser sua própria chefe. “Prefiro ser uma autônoma ao invés de voltar para minha profissão”, desabafa.

Françoise, Valéria e Janes pretendem continuar como motoristas de Uber até tentarem novas carreiras. “Estou me preparando para outra graduação”, comenta a ex-professora. Ela quer tentar uma carreira na área de estética. A estudante irá tentar ingressar no mundo jurídico após concluir a faculdade. Já Janes disse que pretende continuar a ser motorista por aplicativo. “É um vício! É por causa do ramo. Gosto de dirigir. Deve ser por isso”, comentou.

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Comentários (3)

  • Êmily Souza | Quinta-Feira, 23 de Maio de 2019, 00h58
    0
    0

    como consigo o contato delaaaa(s) pfff

  • Vladimir palma | Domingo, 17 de Fevereiro de 2019, 04h56
    1
    0

    Parabéns a essas guerreiras sucesso

  • Letícia | Sexta-Feira, 15 de Fevereiro de 2019, 17h19
    4
    0

    PARABÉNS PELA REPORTAGEM!!!

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