Arte e Cultura

Domingo, 01 de Setembro de 2019, 08h:00 | Atualizado: 02/09/2019, 11h:25

Literatura

Poesia marginal cresce entre jovens de MT que visam expressar suas vivências

Arquivo pessoal

Ana Gabriela participa de Slams regionais e do Nacional, foi semifinalista e finalista, aguarda pr�xima sele��o

Ana Gabriela participa de Slam regional e do nacional, foi semifinalista e finalista nos últimos dois anos que participou e aguarda próxima seleção de poesia

O Poetry slam é uma batida de poesia marginal que se formou nos subúrbios dos Estados Unidos, mais especificamente nos anos 80, em Chicago. Batida que passou a ser popular no Brasil mais tarde - e com maior repercussão nos anos 2000. Em diálogo com outros tipos de arte, como a expressão da negritude que boa parte do tempo traz “batalhas de versos” que retratam, como uma prosa, a realidade urbana e do povo negro. 

Arquivo pessoal

Pacha Ana emociona p�blico com sua poesia ancestral e temas s�o diversos

Pacha Ana foi finalista com poesia ancestral na etapa Nacional 

Um movimento que traz reflexões tal qual o rap, mas de forma mais literária. É poesia. No Brasil, desde sua chegada, cada região tem grupos de Slam que chamam a atenção pelas vozes que dizem o que, costumeiramente, outros lugares não são verbalizados. Negros falando por eles mesmos e dando razão à própria narrativa.

Em Mato Grosso, não diferente de outros Estados, há quem chame atenção por fazer com maestria parte dessas intervenções. Uma delas ganhou notoriedade nacional, como a poeta rondonopolitana e também primeira rapper de Mato Grosso a lançar um álbum, Ana Gabriela Santana Corrêa, mais conhecida como Pacha Ana.

No Slam Brasil, Pacha foi semifinalista em 2017 e finalista em 2018. E passou por etapas regionais, onde ocorrem as classificações para a nacional.

Em maio de 2018, ela contou “colecionar folhinhas”, por conta das seguidas vezes que foi vencedora do Slam do Capim Cheiroso, em Cuiabá, assim como as mais de 15 batalhas de hip hop de freestyle na Capital, em São Paulo ou Belo Horizonte, Capitais onde mantém firmes conexões naquela época.

Em entrevista esta semana, Pacha considera que houve um "boom" no Slam nos últimos cinco anos. E, apesar de Mato Grosso ainda ter poucos grupos que visam este tipo de literatura, é legítimo e notável o interesse dos jovens por este movimento. "Para mim, a poesia está sendo um divisor de águas. Estou, agora, em espaços que talvez só com a música eu não acessaria. Entre eles, as escolas, para poder fazer formação de base e ajudar alunos a entenderem que a poesia e o hip hop são instrumentos de transformação", acredita.

A poeta ainda desabafa que gostaria de ter tido acesso a essas formações quando tinha seus 14 ou 15 anos, mas não teve. Foi conhecer a poesia marginal anos mais tarde. Para Ana, o slam surge para dar voz para as pessoas, pois é um movimento de periferia, um movimento negro, que engloba outras pessoas também (que não fazem parte deste recorte social, e infelizmente não querem fazer uma esse tipo de poesia), e tudo bem, cada um com seu cada qual", avalia.

Veja vídeo em que ela declama uma de suas poesias no Slam nacional

Pacha considera que a poesia negra, protestante ou que "coloca o dedo na cara" tem pouco espaço em outros meios, por isso não é bem quista em todos os lugares. "Em Mato Grosso temos cerca de quatro slams, em São Paulo, somam uns quarenta. Agora, em Rondonópolis fiquei sabendo da criação de um itinerante e que está fazendo muito sucesso. Apesar de não ter conhecido ainda, achei muito da hora", acrescenta.

O movimento de Mato Grosso ainda é tímido, mas todo passo é muito válido. As pessoas começam a ter noção de outro tipo de poesia e não apenas a que está dentro das academias. "A poesia pode estar nos nossos moldes, dentro da polaridade de cada um de escrever e recitar", pontua.

Slam em Mato Grosso

O Slam da Capital, que classifica para a etapa nacional, é o nomeado de Capim Cheiroso. No entanto, não é o único grupo que revela talentos na poesia marginal. Também surgiram movimentos como a Batalha das Minas, além destes, slams em outras cidades de Mato Grosso, entre elas, a de Rondonópolis. 

Arquivo pessoal

 Daiane Silva Santos � uma das idealizadoras do Slam Circuito Marginal em Rondon�polis

Daiane está entre idealizadoras do Slam Circuito Marginal de Rondonópolis

Um grupo de estudantes da UFMT, em Rondonópolis, organiza há algum tempo essa competição de poesias.

Para a reportagem, o grupo explica que o Slam Circuito Marginal é um espaço organizado apenas por pessoas negras. Segundo uma das idealizadoras e poeta, Daiane Silva Santos, este grupo em Rondonópolis surgiu da necessidade dela se sentir mais pertencente à cidade, e de ter um espaço em que pudesse aparecer socialmente dando a percepção em relação ao mundo.

“Esse projeto é importante, porque pode vir a contemplar jovens que, assim como eu, sentem esse deslocamento nessa cidade. O trabalho se faz necessário, porque nos nossos encontros temos a oportunidade de falar sobre o que amamos sobre nossas dores e sobre o que nos movimenta”, enfatiza.

Para ela, a poesia marginal e o Slam se configuram como movimentos de resistência, como ferramentas de afirmação da existência e também de denúncia de um Estado genocida. “Considerando o panorama em que estamos, eu creio que esse é o momento adequado para nos movimentarmos e nos posicionarmos. Isso no diz respeito às condições para a realização de um projeto cultural, a gente trabalha com o que tem, faz o que é possível dentro dos limites da nossa possibilidade e daquilo que conhecemos”, descreve. 

Reprodução facebook

Batalha das Mina em Cuiab� n�o seleciona para a etapa nacional ainda, mas re�ne mulheres e garante que elas se expressem

Batalha das Mina em Cuiabá é recente e, por isso, ainda não seleciona para a etapa nacional, mas reúne mulheres e garante que elas se expressem a poesia

Para Daiane a extinção do Ministério da Cultura é um reflexo de que não é dada a devida importância a produção cultural no país, e que para os artistas e suas movimentações não é um bom momento. Nesse sentido, pelas vias técnicas, de elaboração e realização dos encontros de slam ou na publicação dos autores, há diversas dificuldades em apoio.

“Penso que lutar para ocupar os espaços que são hegemônicos é uma estratégia, todavia precisamos romper com a estrutura e criar vias alternativas. Quando nasceu o movimento da poesia marginal, as grandes editoras não publicavam os autores, era necessário vender de mão em mão, na rua ou no ônibus”, exemplifica a estudante.

Santos ainda acredita que, quando a poesia marginal toma força nas periferias, também faz com que jovens que estão nela não apenas consumam poesia, mas também passem a produzir. “Que também seja um espaço de produção de significados, que seja um espaço de afetos e de potência”, finaliza.

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