Arte e Cultura

Sábado, 10 de Agosto de 2019, 11h:49 | Atualizado: 16/08/2019, 10h:39

Rasqueado, aos poucos, vê velha guarda partir e aposta em seus novos defensores

O rasqueado é mais do que um estilo musical ou a representação da cultura mato-grossense. Dependendo da região do Estado, ele varia sua forma musicada e revela a essência dos artistas, tornando transparente a paixão pelo ritmo - cada um com seu estilo e influências. O rasqueado cuiabano tem mais instrumentos de percussão, assim como o sopro, outros tornam ele mais dançante e bastante melódico. O de fronteira, como o de Cáceres e outras regiões pantaneiras, possui canções mais poéticas e letradas. 

Gcom

Bolinha

Bolinha faleceu esta semana e é um dos nomes mais lembrados do rasqueado cuiabano, seu sax fez muita história

Talvez, por isso, mestres do saxofone como Bolinha (in memoriam) tenham tido tanto protagonismo no rasqueado da Capital. Ele, que faleceu nesta semana e deixou saudade, tocava com o corpo todo, dançando frente ao público, com uma energia elevada e muito sorridente.

Em seus solos, assim como um guitarrista rock star, Bolinha, expressivo em seu sax, seria também a estrela da noite. Não foi a guitarra, mas um sax que permitiu a ele variar por diversos estilos. No entanto, as performances acalouradas não nega seu passado, já que na juventude passou até pela primeira banda de rock and roll de Mato Grosso, a Jacildo e seus rapazes.

Os amigos descrevem o artista como eclético. Dizem que ele improvisava canções, era conhecedor de referências mundiais, música negra e também as norte americanas como blues, jazz e, como já mencionado, o rock, que não tinham como ficar de fora. Nesse meio tempo, se entregou também as paixões regionais e se entregou ao rasqueado. Trouxe toda a sua efervescência musical para as notas. Em seu velório e enterro, que ocorreu nessa terça (6), dezenas de músicos levaram instrumentos, solaram, cantaram, lembraram de histórias no palco e trouxeram a principal característica de Bolinha: a alegria, para um momento de perda.

Abaixo, veja documentário que fez homenagem a Bolinha

Legado 

 Segundo um de seus amigos e também companheiro de trajetória musical no rasqueado, Roberto Lucialdo, o momento de despedida foi de muita homenagem e como Bolinha sempre quis, alegre. “Cantamos o dia todo, do início ao fim no velório. Levaram instrumentos de sopro, violões, tudo que tinha direito para uma orquestra de despedida. A energia dele era contagiante e assim que vai ser lembrado”, conta Lucialdo. 

A energia dele era contagiante e assim que vai ser lembrado

Roberto Lucialdo

Para o cantor, o rasqueado tem sim seu tradicionalismo, mas alguns elementos, através dos anos, foram adicionados. Ele foi o primeiro a inserir o ritmo nas rádios mato-grossenses e também a acrescentar nas canções instrumentos como o baixo e também a tumbadora.

Lembra que o próprio Bolinha, anos atrás, também fazia parte de um grupo chamado Os Bambinos, bastante latino, e com uma pegada mais contemporânea. “Este legado continua a partir de jovens pesquisadores e músicos que se entregam a estas identidades musicais, descobrem mais de suas origens e continuam criando. Entre eles está o Henrique Maluf, artista que sei que se interessa pelo tema e luta por ele. É um dos que podem continuar nessa defesa pela cultura mato-grossense”, diz, ao desconsiderar que talvez, após a partida da velha guarda, o rasqueado seja extinto.  

Reprodução facebook

Roberto Lucialdo fez diversos trabalhos musicais e � um dos �cones do rasqueado cuiabano

Roberto Lucialdo fez diversos trabalhos musicais e é um dos ícones do rasqueado cuiabano

Lucialdo também pondera que as influências instrumentais e de culturas que ajudaram a "formar" o rasqueado, foram trazidas dos navios, além dos nativos indígenas, pessoas e suas culturas de outros continentes.

Nas navegações, vieram violões de cordas e outros instrumentos de percussão. Na mistura, está muito presente instrumentos que se assemelham aos acordes da cultura espanhola, portuguesa e africana.

As nativas indígenas, além de todas estas outras, contribuíram para o que se tem hoje em Cuiabá ou em outras regiões pantaneiras, como Poconé e Cáceres. A música, hora ou outra, se funde, e se reinventa há séculos.

Os tipos de rasqueado e porque Bolinha fez história

O pesquisador e músico Henrique Maluf, que segue a mesma linha de raciocínio, em um balanço sobre suas vivências com grandes nomes da música mato-grossense, como Bolinha, Lucialdo, Vera e Zuleica, Guapo e mais alguns - que identifica como importantes na formação, consolidação e também diferenciação destas sonoridades dependendo da região do Estado - defendeu em monografia o tema “Música Pantaneira Cacerense: O Novo Rasqueado de Fronteira”. Ao ele pontua algumas partes de seu estudo. 

Levo essa música para as salas de teatro, palcos, pesquisa acadêmica e, em breve, lanço meu ep com esse rasqueado que cito, o de fronteira

Henrique Maluf

Avalia que, também após o período de colonização mencionado por Lucialdo, Cuiabá é uma cidade cosmopolita - e o ciclo do ouro trouxe gente do Brasil todo para a Capital.

Em sua tese, explica que vieram meio a esta movimentação, músicos, principalmente os de sopro. Com o fim da guerra do Paraguai, a mistura cultural com os paraguaios, que aqui ficaram, foi responsável pelo definitivo surgimento do rasqueado da Baixada Cuiabana e essa presença de músicos de sopro resultaram nas bandas instrumentais que começaram a compor e tocar o rasqueado.

A mistura resultou no modelo que conhecemos hoje, tal qual o Bolinha se identificou e fez história. “O rasqueado de fronteira é concebido no Pantanal, onde a velocidade é outra, geralmente nas fazendas no meio do Pantanal, só haviam violões e, as vezes, uma sanfona. Este atraso resultou numa música mais melodiosa que permitia a harmonia ser mais solta, o que diferencia em muito do rasqueado da Baixada, marcado pelos instrumentos de sopro e acordes geralmente em primeiros, quartos e quintos graus da harmonia”, especifica. 

Arquivo pessoal

Henrique Maluf � m�sico e pesquisador, na reportagem revela as diferen�as do rasqueado cuiabano e o de fronteira

Maluf é músico e pesquisador, na reportagem revela as principais diferenças do rasqueado cuiabano e o de fronteira, além de propor novas roupagens para o estilo

 


 

Em sua pesquisa, Maluf comprova que isso facilitava a escrita de partituras para as bandas. Neste quesito, um dos nomes unanimes é o do Maestro Albertino, pai do Bolinha, um dos pioneiros na música cuiabana, e que influência fortemente seu filho que, ao longo da vida, gravou importantes discos de rasqueado cuiabano.

“No meu caso, tento apresentar novas roupagens, ou possibilidades de se tocar o rasqueado. Levo essa música para as salas de teatro, palcos, pesquisa acadêmica e, em breve, lanço meu ep com esse rasqueado que cito, o de fronteira”, completa.

Energia nos palcos

Henrique menciona que dividiu palco com Bolinha em Nobres. Ele se apresentou como guitarrista do Gilmar Fonseca e Roberto Lucialdo.

Outra vez, como público, no show do trompetista Tony Maia, em 2012, enquanto ele tinha atenção total do público – dançava com o corpo todo e chegava até molejar o corpo como umas “reboladinhas”, mostrando que a música lhe levava por inteiro, em cada nota.

Arquivo pessoal

Marcos Levi é trompetista e revela que sopro é importante para ritmos como o rasqueado e lambadão cuiabano

Trompetista diz que sopro é importante no rasqueado

O trompetista Marcos Levi, que também é cantor e pesquisador conta que vivenciou o ritmo ao lado de grandes nomes e, além de ter aprendido muito com os ilustres mencionados no início dessa reportagem, viu também o lambadão “nascer”. Por isso, ele recorda que, para sua trajetória, também foi importante nutrir amizade com Chico Gil e com a banda Estrela Dalva, referências do lambadão, outro gênero mato-grossense. 

 Ele acredita que é muito importante a continuidade e valorização desses ritmos, pois se tratam da cultura e história de um povo, embora haja pouco investimento do setor público. “Tenho, assim como muitos outros jovens músicos, que aprenderam com os que nos antecederam na música, a missão de continuar, inovar e divulgar. Para isso, continuo por todo Mato Grosso produzindo, gravando e fazendo shows com a minha banda Os Originais”, declara.

No entanto, ele se preocupa com o futuro dessa musicalidade que, sem incentivo dos governantes, corre o risco de ser extinta. “O rasqueado passa por uma desvalorização absurda por parte dos governantes. Como educador, tenho visto jovens cantando rasqueados e lambadão nas escolas.  Para que isso continue, é necessário promover festivais, mas também um festival de música estudantil para descobertas de novos talentos”, acredita, esperançoso que a tradição não se perca com o tempo. 

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Comentários (2)

  • Luiz Imperial | Domingo, 11 de Agosto de 2019, 17h15
    3
    1

    Só uma dica para os novos e velhos talentos do rasqueado: procurem se profissionalizar, empreendedorismo cultural, seo mano! conquistar público, por a mão no bolso e correr riscos; chega de depender de financiamento público, cheio de peixadas e esquemas. Se tem talento, conquiste seu lugar no sucesso, ha quanto tempo não se lança discos independentes de dinheiro do estado ou prefeitura? Qual show de resqueado se cobrou ingresso? O povo está viciado com "arte de graça" e não a valoriza

  • Walter/Brasília | Sábado, 10 de Agosto de 2019, 14h39
    4
    0

    Bela reportagem sobre o mestre Bolinha e o rasqueado. Ele se foi, mas sua memória fica. Que preservemos a cultura musical de Mato Grosso. Criações musicais regionais como o rasqueado e o lambadão precisam ser preservados, para o bem da cultura.

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