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Sábado, 14 de Outubro de 2017, 07h:22 | Atualizado: 15/10/2017, 11h:39

As Intermitências da Água vence prêmio; livro trata de dilemas quando algo falta

Escrever para atender aos personagens e histórias que sempre estiveram em sua cabeça, pedindo para ir para o papel sempre foi a motivação do jornalista Fernando Gil Paiva Martins, 30 anos. Ele é o autor de Intermitências da Água, um dos romances vencedores da categoria Prosa do 2º Prêmio Mato Grosso de Literatura (cuja festa de premiação acontece no próximo dia 21). O outro é Assassinato Na Casa Barão, de Marcelo Ferraz. Outras 14 obras foram contempladas com o mesmo edital.

O segundo livro do também professor de idiomas e tradutor nascido em Itumbiara (GO) e radicado em Mato Grosso há 15 anos (ele se formou em Comunicação pela UFMT, por onde também fez um mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea) parte de uma premissa real: a admoestação causada pela falta d’água.

Divulgação

Fernando Gil Paiva Martins

Privação de água motivou a escrita da obra de Fernando

“As Intermitências da Água surgiu de um grande desconforto real. A falta de água em casa por quatro dias me levou a pensar em como a ausência desta poderia ser trágica para tantas pessoas e tantos sistemas que dependem completamente de água para a vida”, conta o autor ao .

É a partir desse cenário, ausência de água e privações advindas desta, que o livro apresenta a história de vários personagens e suas decisões sobre o que fazer quando uma de suas necessidades vitais desaparece. “Trata-se de uma história sobre reparar, sobre tentar entender o que faz o ser humano quando algo falta”.

No trecho de Intermitências da Água enviado à redação, há ecos, conscientes ou não (isso não foi perguntado ao autor), de Eu Era Um Lobisomem Juvenil, canção da Legião Urbana e letra de Renato Russo. Como lá, há a perda como rotina, e o desejo de recompensa como felicidade passageira à parte a necessidade e a espera por esta, porém com um ar de mistério no fim do período:

“O primeiro raio de luz cortou as nuvens e tocou o rosto do menino de cinco anos que observava da janela. Por alguns segundos, ele sentiu a pele esquentar com o leve toque do calor vespertino e desceu para chamar a mãe, o pai e o irmão mais velho. Os gritos se sucederam toda a tarde, à medida que, de outros pontos no céu, a luz permeava intensa e vívida para a Cidade Sul. Muitos esperavam que, com a volta da água, da energia e também do sol, os Outros também retornariam aos seus lares”.

Escrita no Tempo Livre

Como todos os outros escritores cujo sustento não advém unicamente da escrita ficcional, Fernando Gil Paiva Martins divide sua rotina entre as aulas de idiomas, traduções e a composição de suas histórias. Começou a escrever breves histórias muito cedo, ainda aos sete anos.

Por esse tempo, compilou várias delas em um pequeno livro sem nome. Desde lá, não parou de escrever histórias e pequenos livros que continuam guardados para, “quem sabe um dia compor um dos futuros livros”, continua Paiva Martins.

Sua estreia também foi precoce, com apenas 23 anos. Foi nesse tempo, em 2010, que ele publicou seu primeiro romance, lançado de maneira independente, chamado Sonora. Naquela narrativa, o principal cenário das tramas está localizado no estado mexicano de Sonora. O enredo central é desenvolvido em torno da história de uma mãe e um pai desesperados em busca de explicações para o desaparecimento de sua filha única, “um fato envolto em segredos, conspirações e reviravoltas”.

Num dos trechos de Sonora, a angústia das coisas fugidias, da procura, da espera: “Ao sair pela porta dos fundos da casa, foi rodeando-a até aproximar-se de um estreito corredor lateral que separava a sua casa de outra. Felizmente, não havia mais ninguém. Henrique fez o caminho de volta e continuou prestando atenção para ver se não enxergava a mulher pelas redondezas. Deve ter desistido, pensou. Foi, em seguida, para dentro da casa. Fechou a porta para evitar o vento frio do fim do dia. Enquanto virava o corpo para falar com Ana, deparou-se com a mesma estranha que há pouco tinha visto atormentando-os em sua janela. Ela parecia tão amedrontada quanto eles”.

Sobre o ato de escrever em si, Fernando não teoriza muito e afirma ser isso algo corriqueiro em sua existência. Uma coisa entretanto chama a atenção: ele sempre visou criar histórias para leitores, nada de grandes divagação existenciais, destruição de originais ou coisa assim, à la Nikolai Gogol ou Franz Kafka.

Sem muitos pudores, Fernando assume que sempre visou um público ao escrever

“Sempre fez parte da minha vida. Seria estranho se eu não escrevesse. Eu sempre tive essa ânsia, essa vontade de passar horas e horas criando histórias, tecendo tramas e entretendo as pessoas”, afirma. “Escrever é um exercício de arquitetura das palavras, eu gosto de escrever para os outros, de imaginar como meus personagens existem em outros imaginários”.

Mas nada de achar que isso tornou as coisas menos complicadas para ele como é para todos que se propõem a viver da batalha contra as palavras. “Escrever não é uma tarefa fácil quando se tem tantas obrigações e preocupações na cabeça. O exercício da escrita é um fato e precisa ser praticado, porém não sei explicar o fenômeno da inspiração”.

Questionado quanto à angústia presente em todo ato criativo, no dar à luz ideias, situações e personagens, a percepção é carregada de sobriedade. “O escritor como qualquer artista e criador tem seus dias bons e seus dias ruins. Um dia inspirador pode abrir muitas portas. Na maioria das vezes, construo as histórias em minha cabeça e em seguida sento em frente ao computador apenas para despejar a história pronta. Isso pode ser tanto rápido como muito trabalhoso e demorado”.

Se não falta inspiração ou motivação, a vida prática cobra seu alto preço na mais rara das modas, o tempo. Isso obriga Paiva Martins, a escrever quando há tempo para isso. Estabelecer tempo exclusivo para rotinas literárias ainda é só uma vontade. Hoje, acontece mesmo é nos intervalos das rotinas do trabalho de professor e tradutor.

“A cabeça, entretanto, não para. Nem que seja para remoer ideias antigas, textos quase perdidos no computador ou anotações nos papéis”, expõe. Mas quando surgem novas ideias, a coisa se complica um pouco para os demais ofícios, especialmente se estas vêm aos pedaços.

Lançamento de Intermitências da Água se dará durante a LiteraMato, na segunda quinzena de outubro

"Muitas vezes sou apresentado apenas a poucos fatos e, aos poucos, conhecendo os personagens, tento imaginar as consequências para uma primeira ideia germinal. Outras vezes, o final é claro, porém o meio um tanto obscuro. Nessas idas e vindas escrevendo os destinos dos personagens, muitas vezes a revelação vem como num piscar de olhos e tudo que parecia tão emaranhado se resolve”.

Como quase tudo na vida, com quase todos os personagens e histórias, estejam eles a pedir para ir para o papel ou para simplesmente morrer na mente do escritor.

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