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Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 08h:15 | Atualizado: 20/02/2016, 14h:27

Homenagem

Assassinado há 15 anos, padre de MT é ícone na defesa dos oprimidos

Reprodução

Padre Nazareno

Padre Nazareno Laciotti durante encontro com o então papa João Paulo II, ambos já falecidos

Jauru homenageia com um feriado municipal,  nesta segunda (22), o polêmico padre Nazareno Lanciotti, assassinado em na paróquia em 2001, no momento em que jantava na companhia de amigos. A tragédia, que abalou a cidade, repercute até hoje e centenas de fiéis e devotos seguem até a localidade em busca de entendimento e renovação da fé.

Conhecido por sempre falar a verdade, Nazareno enfrentou diversos grupos políticos, latifundiários e não tinha medo de traficantes da região, pois combatia o tráfico diuturnamente. “Ele era um homem sincero, um homem que sempre falava a verdade e a verdade dói”, disse o amigo Jorge Morais, que conviveu por 24 anos com o padre.

Entre as “romeiras” que já foram até a cidade pagar promessas está Maria Rudge Piva Albuquerque, filha do vice-presidente do Banco Itaú, José Rudge, que levou o seu primogênito Otávio a tira colo. Vinda de uma família religiosa, Maria, na época, fez questão de compartilhar sua devoção em uma rede social onde mostra ter percorrido a pé a avenida da cidade que leva o nome do padre assassinado.

Biografia

Nascido em 1940, em Roma, no berço de uma família humilde e cristã, Nazareno entrou muito jovem para um seminário, onde estudou filosofia e teologia. Em junho de 1966, aos 26 anos, foi ordenado padre. Chegou em Mato Grosso em 1972, onde foi pároco da Diocese de Cáceres e passou a trabalhar na evangelização na Operação de Mato Grosso. Em seguida, partiu para Jauru, onde fundou o Asilo “Coração Imaculado de Maria”, que ainda abriga cerca de 40 idosos da região - assista vídeo com homenagem.

Lá, dizem os conhecidos e devotos, que superou inúmeros obstáculos e que despertou a fé de jovens e adultos, por meio do Movimento Sacerdotal Mariano, do qual fazia parte como presidente Nacional. Todos os anos, durante os festejos de Carnaval e antes do dia 12 de outubro, que celebra a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, promovia retiros espirituais com membros do movimento, representando todos os Estados do Brasil.

Além do Asilo, em 1973, ficou responsável pelos trabalhos pastorais de Jauru e região e logo preparou um centro de catequese, facilitando o ensino da religião para as crianças. Em seguida, lutou para a construção de um hospital, pois se comovia com o número de crianças que morriam na região.

Na época, elaborou um plano de ampliação para o hospital local e pediu ajuda de amigos e de uma organização alemã de prevenção a fome e doenças, Misereor. O projeto só saiu do papel após três anos. Além dos pedreiros contratados, o pai do padre Nazareno, que trabalhava como pedreiro, se juntou à força tarefa durante os seis meses de obras do Hospital Patronato Nossa Senhora do Pilar. 

Prestativo e sempre a frente de seu tempo, além dos feitos já citados, em 1974,  foi a vez dele criar um grande espaço religioso para os mato-grossenses e católicos em geral. Deu início a construção de uma igreja, a Igreja Nossa Senhora do Pilar. A inauguração foi celebrada no ano seguinte com o Bispo Máximo Biennes.  “A igreja era sofisticada para época, edificada graças à boa vontade do povo e, sobretudo ao esforço do nosso padre Nazareno”, conta o amigo Jorge.

Em razão do aumento dos fiéis e dos admiradores de Nazareno, durante algumas missas e cerimônias era preciso utilizar os fundos da Igreja, mas para atender melhor a comunidade, Nazareno não se conteve e criou o Santuário Imaculado Coração de Maria. 

Nesses locais, além das missas e eventos católicos, o religioso abrigou inúmeras famílias despejadas por posseiros, famílias que tiveram as casas destruídas, incendiadas, a maior parte delas era da região de “Mirassolzinho”, onde conflitos por terras eram constantes.  “Crianças órfãs também foram acolhidas por ele, algumas até com poucos dias de vida”, lembra Cláudia secretária da paróquia. “Ele amava a todos sem querer nada em troca, foi um pai para muita gente”, completa. 

Galeria: Padre Nazareno Lanciotti

Já em 1981, ajudou a fundar o Seminário Menor em Jauru colocando à disposição um centro de treinamento. O local começou com 14 jovens, mas calcula-se que pelo menos 300 seminaristas passaram por ali. Construiu a CNEC - Campanha Nacional de Escolas Comunitárias, que funcionou durante muitos anos, e hoje serve de alojamento para pessoas que vem para retiros. 

Em 1985, recebeu a visita do arcebispo Carlos Furno, representante do Papa no Brasil. Três anos mais tarde, Nazareno foi nomeado pelo responsável nacional do Movimento Sacerdotal Mariano (MSM). Desde então, assumiu e passou a viver os três compromissos que caracterizam a espiritualidade do Movimento, a Consagração ao Imaculado Coração de Maria; a União ao Papa a à Igreja a ele unida e a condução dos fiéis a uma vida de entrega confiante a Nossa Senhora. “Acho que foram 30 anos da vida dele que se dedicou a Jauru. Não tem como não se emocionar ao lembrar desse homem que só nos fez bem e aumentou a nossa fé. Ele transformou a cidade de Jauru”, diz a devota e moradora do município, Eunice Vieira. 

“Ele parecia incansável, raramente o vi abatido e é com essa disposição que estamos dando seguimento a tudo que ele nos ensinou”, finaliza Jorge. A tradicional missa em homenagem ao pároco acontece nesta segunda, data em que completa 15 anos do seu falecimento. A cerimônia está marcada para as 19 horas e deve reunir centenas de fiéis. 

O crime

Era noite do dia 11 de fevereiro de 2001, o padre Nazareno jantava na Casa Paroquial em companhia de alguns amigos quando a residência foi invadida por dois homens encapuzados. A dupla pediu para o padre abrir o cofre da igreja, e ele argumentou que sua paróquia não tinha cofre.

Insatisfeitos, os assaltantes fizeram “roleta-russa” com os amigos do religioso, mas não roubaram o dinheiro que eles tinham no bolso. Quando estavam deixando a Casa Paroquial, um dos assaltantes disparou na nuca do padre e a bala alojou-se na coluna cervical. 

No dia seguinte ao crime, Nazareno foi removido de avião para um hospital em Cuiabá onde ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No dia 13, o padre foi transferido para a UTI do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde veio a falecer dez dias depois. O corpo de Nazareno foi sepultado em Jauru, cidade onde viveu por 29 anos.

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Comentários (8)

  • MARIA GORETE DE MELO SOUZA | Sexta-Feira, 02 de Março de 2018, 03h42
    0
    0

    Infelizmente, a humanidade do bem sempre perde alguém que se doa as obras de Cristo. Senhor que venham os Nazareno, esteja nos braços do pai Padre. 👏👏👏👏👏👏👏🙌pra você

  • Marcia | Quarta-Feira, 17 de Maio de 2017, 01h19
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    0

    Informações sobre como foram é quando aconteceu essas brigas por terra mirassolzinho e o resultado

  • Vanessa Andrade Segóbia | Quarta-Feira, 20 de Abril de 2016, 09h10
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    0

    Acredito que a obra do asilo tenha sido a última a ser realizada por ele...mas o texto é importante, especialmente para que mais pessoas saibam a importância desse líder que tanto contribuiu por esse município espiritual e materialmente, numa vida de total entrega...Saudades!

  • Carlos Araujo | Domingo, 21 de Fevereiro de 2016, 14h13
    1
    0

    Rondonópolis é uma cidade extremamente politizada. As lutas de classe são bem evidentes. Para ter uma ideia existem vários bairros que homenageiam estes líderes espirituais, como: bairro Padre João Bosco Bornier, bairro Padre Rodolfo, bairro Padre Ezequiel Ramin, bairro Dom Oscar Romero, bairro Bispo Pedro Casaldáliga, bairro Padre Lother, bairro Bispo Dom Osório, etc.. Existem Assentamentos Rurais que homenageiam estes líderes espirituais que fizeram história de luta pelos excluídos, como: Assentamento Chico Mendes, Assentamento Padre Josimo, Assentamento Margarida Alves, Assentamento Irmã Doroti, etc.. Os nossos sentimentos pela perda de mais este líder espiritual de Jauru, padre Nazereno Lanciotti. Nesta segunda-feira Rondonópolis estará de mãos dada com a cidade de Jauru.

  • Emília berenice silva | Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 13h17
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    2

    Porque ninguém consegue pegar estes assassinos ele era um bom padre e não merecia isto não. Queria que pegasse eles e fizesse paga pelo seu erro

  • Silva | Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 11h48
    8
    1

    Pouca gente se lembra do Pe. Rodolfo Lunkenbein assassinado na aldeia Meruri em Mato Grosso no ano de 1976, por defender a comunidade indígena bororo, no processo da demarcação do seu território. Na época todo mundo sabia quem eram os assassinos, até hoje impunes.

  • adriano schoenherr | Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 11h17
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    0

    ele faze parte da minha infancia fui coroinha. ele sempre esta na casa de meus avós.e de meu pai .chicao e meu avô kurt

  • joaoderondonopolis | Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 09h37
    8
    0

    A vida do Padre Nazareno em Jauru foi muito bonita, fez de tudo pela cidade e para as pessoas que a procuravam. Perdeu a cidade, o estado e o país. E quanto aos bandidos assassinos?, a reportagem não mencionou nada. Que pena que isto aconteceu no Brasil que tudo termina em samba.

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