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Domingo, 22 de Dezembro de 2019, 08h:09 | Atualizado: 25/12/2019, 10h:07

AACC

Fora de casa, crianças com câncer lutam pela vida e desejam ceia de Natal - vídeo

O lugar é simples, os leitos também, cada quarto consegue receber dois responsáveis e duas crianças por vez. Ao todo, vinte aposentos, quarenta pessoas e uma rotatividade grande de famílias vindas de todas as partes, em busca de cura para pequenos que acabaram de começar a vida, mas foram surpreendidos por algum tipo de câncer. A estrutura tem sido o suporte de muitas famílias há 20 anos. Não apenas na Capital mato-grossense, mas de diversos Estados do Brasil, incluindo as famílias indígenas e outras mais carentes, além de imigrantes de países vizinhos, como a Venezuela e Bolívia. 

Rodinei Crescêncio

Jogos tamb�m fazem parte da rotina dos pequenos

Jogos também fazem parte da rotina deles, se animam com presença da reportagem

Quem recebe a reportagem é Doranina Neves, que aceitou ser apelidada de Dora pela reportagem. Ela é responsável pelo departamento de marketing e eventos da Ong. Sua sala tem um palhacinho na porta, e logo explica o motivo, é mesmo para ser um atrativo para que as crianças entrem. Dentro da sala, abarrotada de documentos e alguns enfeites de natal, brinquedos como girafa de pelúcia, um pato da mesma estampa e até um cavalo. “Como boa parte das crianças vem do interior, elas gostam de ver esses animais. Umas dizem que querem morar aqui, pois tem um quartinho só pra elas, ar condicionado, todas as refeições do dia e às vezes ganham presentes”, descreve a funcionaria.

Associação de Amigos da Criança com Câncer de Mato Grosso (AACCMT) foi criada em 24 de abril de 1999, e quem passou pela instituição já teve muitos motivos para chorar, seja de felicidade de ver a cura de alguém ou a tristeza de ver partir. Depois de adentrar pelas portas, é difícil sair sem que o coração não esteja apertado.  Durante a reportagem, Rodinei Crescêncio, o fotojornalista do conta que, há uns sete anos, também se voluntariou enquanto fotógrafo. Caiu nas graças de um pequeno de dois anos que sempre queria brincar junto, mas faleceu pouco tempo depois. Rodinei chorou por dias, mas sorri das boas lembranças que tem ao retornar ao local. 

Reprodução

Uma comemora��o de natal foi feita para algums crian�as na semana passada

Uma comemoração de natal foi feita para algums crianças na semana passada, outras esperam ceia na terça-feira

A entrevista continua e Dora conta que apesar de cerca de 200 crianças terem recebido uma comemoração de natal este mês, outras tiveram alta, mas não puderam voltar para casa. Por isso, a AACC move uma campanha para que as crianças que permaneceram tenham um natal com os responsáveis. “Um voluntário virá cozinhar para elas, tudo é bem-vindo, mas quando podemos pedir damos prioridade para as carnes brancas. Além disso, algumas delícias de natal. Até o momento não ganhamos nenhum panetone, acredita? As crianças gostam”, relata.

Dora conta que algumas pessoas também doam, mas não querem mostrar o rosto. Batem no portão, deixam alguma cesta ou outra doação e saem correndo. A Ong não tem ajuda governamental e vive exclusivamente de campanhas e parcerias há vinte anos.

Mães do interior

Um dado importante que Dora passa para reportagem é o crescente número de mães que descobrem o câncer na criança já na gestação. Isso porque no interior há contaminação dos agrotóxicos nos alimentos, solos e água que as gestantes consomem, muitas vezes, a substância liberada dos aviões nas lavouras – ainda percorrem uma grande distancia pelas rajadas de vento.  “Sem estrutura para se instalarem na Capital, grande parte também de família humilde e faz longo trajeto até chegar à Capital em busca de tratamento. Algumas mães também não imaginam que os filhos serão diagnosticados com câncer, mas chegam no hospital e o médico proíbe de voltar para casa”, conta. 

Rodinei Crescêncio

Funcion�ria conversa com reportagem e salienta preocupa�es

Funcionária conversa com reportagem e salienta preocupações na falta de doações que eles possuem alguns meses

Desde 2014, a taxa de mortalidade caiu muito, naquele ano as mortes por ano chegavam em 200 casos. No ano de 2018, apenas dezenove ocorreram e, em 2019, o número diminuiu. Dora acredita que a estrutura, em todos os sentidos, melhorou para o tratamento. 

Além das necessidades básicas

A Ong conta com o apoio dos médicos em parceria com nutricionistas para montar o cardápio das crianças, o que tem sido mais raro, é a doação de carnes. Os pequenos comem todos os tipos de proteína, principalmente as de peixe. Quando tem apreensão, o pessoal “solta fogos”, porque vai chegar carne pra elas comerem. Todas as refeições são respeitadas, além do café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar, também tem uma ceia.

O local não tem um setor de psicologia para dar auxilio as famílias, apenas voluntários do ramo e estagiários passam pelo local. “Não é só de ajuda financeira e alimentos que precisamos, isso são as necessidades básicas. Precisamos de suporte, muitas das vezes até para as mães. As crianças não entendem a gravidade do que estão passando, mas as mães entendem e sofrem. Além disso, grande parte delas passa por isso sozinhas, pois existe um grande percentual de abandono paterno nesse momento. A cada nove mães, apenas um pai acompanha o filho ou segue o tratamento ao lado da mãe”, finaliza.

Em uma sala perto do local da entrevista, algumas crianças brincam e assistem televisão com as responsáveis. O desenho exibido é o da Moana. Alguns meninos que não devem ter mais de dois anos observam os equipamentos de fotografia de perto. Outros, pouco mais velhos, com certa queda de cabelos, saem da frente de um monitor para interagir. Um deles, de 8 anos, apresenta um jogo de "alvo" para reportagem. Ensina como se joga e mostra o quanto tem praticado. Outro coleguinha tenta, mas sem tanta força no braço, não consegue arremessar muito longe. Constrangido, logo a tia relata que ele acabou de voltar do hospital e está meio "fraquinho". O olhar é baqueado, mas o jogo de cintura tem que continuar, e a repórter tem uma mira bastante duvidosa, o que ajuda o pequeno entender que o mais importante ele já sabe: coragem em tentar, não apenas o jogo, mas em busca da cura com seu tratamento. 

Galeria: Natal com amor

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