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Sábado, 10 de Agosto de 2019, 11h:49 | Atualizado: 10/08/2019, 20h:52

Lute como uma gorda

Se incomodam com nossos tamanhos, vai além da gordofobia, afirma pesquisadora

Desde muito cedo, crianças ouvem dos familiares que não podem comer muito para não ficarem gordas. Catracas são feitas para corpos menores, cadeiras de transporte público também e se, por acaso for necessária uma poltrona especial para viagens, é preciso pagar a mais por isso. É uma penalização diária ser gordo. 

Foto divulgação

Projeto melhora a autoestima de pessoas gordas e que enfrentam preconceito

Projeto cuida da autoestima de gordas que enfrentam preconceito

É que ser alguém gordo vai além da obesidade ser tratada há muito tempo como um fardo pela maior parte das pessoas, não é tão simples emagrecer. Nem sempre se trata de dietas malucas ou de um jejum interminável. Corpos gordos existem e alguns são mais saudáveis do que os magros.

O que alguns estudiosos defendem é que, na cabeça de grande parcela da sociedade, não importa quem está realmente saudável ou não, desde que não esteja gordo.

Como se fosse sinônimo de doença ou corpos grandes demais para aparecerem em fotos e capas de revistas, eles não fazem parte do padrão predisposto como ideal. Isso perturba, gera questionamentos, represálias e dificulta quem não tem a magreza como uma de suas características.

Lute como uma gorda

Pra falar sobre este assunto, trabalhar a autoestima de pessoas, inclusive mulheres gordas, a professora mestre, filósofa e também doutoranda Maria Luisa Jimenez, também conhecida como Malu, vem há algum tempo trabalhando no projeto que nomeou de “Lute como uma Gorda!” - faz parte dos estudos sobre o corpo gordo feminino.

O projeto surgiu a partir dos seus estudos no Programa ECCO Estudos de Cultura Contemporânea que realiza na UFMT, com o tema Gordofobia e o Lugar Social do Corpo Gordo Feminino na Sociedade Contemporânea. Ela mantém uma página no Facebook e no Instagram sobre o tema.

As afirmações acima foram feitas por ela, mulher gorda e militante durante uma entrevista para a reportagem do . “As pessoas sempre se dizem preocupadas com a nossa saúde, mas não estão. Elas se incomodam com nossos tamanhos, mas isso vai além da gordofobia. Isso é uma estrutura social, é o mercado de trabalho e também a indústria que não aceita os nossos corpos. Se quisermos uma peça de roupa, pagamos mais caro. Se quisermos conforto de uma cama ou em uma viagem, também”, explica Malu. 

Isso é uma estrutura social, é o mercado de trabalho e também a indústria que não aceita os nossos corpos

Doutoranda Malu

Para a pesquisadora, o projeto veio a calhar por vários motivos, mas principalmente porque há pouco conteúdo direcionado para este público. Mesmo que campanhas ou livros sejam escritos sobre a “aceitação”, eles costumam ser expostos de forma genérica e sobre todos os tipos de corpos, não especificamente sobre o corpo gordo. 

Na medicina, não é diferente, e Malu relata que nas dezenas entrevistas que desenvolve em seu doutorado, as versões são bastante similares. “A medicina e a estética estão aliadas nesse discurso. Foram muitas as entrevistadas que nem chegaram ser examinadas ou tiveram os resultados dos seus exames que, quase simultaneamente, os médicos lhes disseram para emagrecer”, conta. 

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Malu est� h� quatro anos entrevistando pessoas de todos os tamanhos gordos, mas o foco � em mulheres

Malu está há quatro anos entrevistando pessoas de todos os tamanhos e idades, mas o foco é em mulheres gordas

O que a estudiosa comenta é que a discursiva de ter um corpo grande invade campos que deveriam avaliar os dados antes do “achometro” primeiro. Ninguém sabe o real estado de saúde de alguém, até que exames mostrem, o corpo gordo não deveria ser o único patamar.

Luta contra a balança

Pessoas próximas tendem a ser as mais destrutivas para o psicológico de pessoas gordas, isso porque os comentários para o emagrecimento, pedir dietas ou questionar a saúde são constantes. A cobrança para a redução da alimentação também. “Entre as minhas entrevistadas, em off, pediu para me contar algo que gostaria que eu soubesse e me disse que, pouco tempo após ter um bebê, o marido a ameaçou de abandoná-la se não perdesse o peso. Ela resolveu contar isso para a irmã e, para sua surpresa, ou não, a irmã disse que então ela deveria fechar a boca”, lembra.

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Rodas de conversa sobre temas que cercam pessoas gordas uniu pessoas pela causa

Rodas de conversa sobre temas que cercam pessoas gordas uniu interessados pela causa, mulheres iniciam rodas de conversas e repassam ideias a muitas

A pesquisadora completa que são inúmeros os tipos de preconceitos sofridos, mas relata que há dados de que o psicológico de alguém acima do peso começa a ser afetado desde cedo e que as pressões sociais tendem a aumentar. “Imagine, então, a tristeza de uma mulher que acabou de ter seu filho precisar se preocupar com dietas e sem o apoio de ninguém próximo, só julgamentos sobre seu corpo”, completa Malu.

Os comentários tóxicos, que é como Maria descreve, podem ser bastante sutis como perguntas indiscretas sobre a vida amorosa, sexual, trabalho e outras que fazem, por vezes, até quem está confortável com a aparência desacreditar – hora ou outra, que realmente é feliz. 

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Malu � uma das pioneiras com projeto, pesquisa e debates que visam combater, especificamente, a gordofobia

Malu é uma das pioneiras com projeto e pesquisa de doutorado que trata da gordofobia e outros preconceitos, a pesquisa gera debates que visam combater, especificamente, todo tipo de repressão que mulheres gordas sofrem 

Ela recomenda que, caso não for alguém gorda ou gordo, a leitura sobre o assunto, a pesquisa constante e evitar comentários sobre o corpo, podem ajudar a não ter um comportamento preconceituoso ou inadequado.

De qualquer forma, as atitudes explícitas e veladas de preconceito à mulher gorda, segundo Malu, nos ambientes familiares e círculos de amizade, também acontece dentro dos espaços de trabalho formais e informais. Mas, a sua pesquisa também mostra como algumas mulheres agiram e driblaram essa opressão.

Recentemente, além de rodas de conversas, surgiu a partir do projeto também informativos e cartilhas, e mais recentemente, um ensaio com mulheres gordas. Com isso, Malu pretende ir cada vez mais longe. “Sei que muita gente não teve coragem de compartilhar com as pessoas que mais amam, o que disseram para mim. E acredito sim, que representá-las através desse estudo acadêmico é importante.

Galeria: Lute como uma gorda!

Não apenas de forma teórica, mas salientando o debate, propondo questionamento para elas e para quem convive com elas. A busca também é pela autoestima necessária para que pessoas gordas, inclusive mulheres, sejam livres para terem seus corpos, vivam plenamente. Assim como uma pessoa magra é estimulada a ser na vida”, finaliza.

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Comentários (4)

  • CARLOS ANTONIO DE ASSUMPÇÃO SILVA | Segunda-Feira, 12 de Agosto de 2019, 17h31
    0
    0

    Você são Lindas e Maravilhosa, porque são Guerreiras, e lutam por cessar com preconceitos, absurdos, adoro ser abraçado por uma mulher como vocês são cheias de energia e sabedoria...

  • Henrique Dias | Domingo, 11 de Agosto de 2019, 11h09
    6
    0

    Obesidade MATA, é uma doença. Pode até ser fetiche para alguns mas para a rede pública de saúde e para o gordo é um problema sério. Sai dessa vida que você vai descobrir que existe uma vida muito melhor. Viva sem diabete, hipertensão, infarto, varizes e muito mais.

  • Liz | Sábado, 10 de Agosto de 2019, 16h17
    12
    1

    Obesidade MATA!!!! Diga NÃO à glamourização da OBESIDADE!!!!! Diga NÃO ao SEDENTARISMO!!!! Maiores informações sobre DOENÇAS provenientes da OBESIDADE, consulte seu MÉDICO, profissional APTO a lhe apontar os MALEFÍCIOS da OBESIDADE!!!

  • Bananilda | Sábado, 10 de Agosto de 2019, 16h00
    12
    1

    Fia, sou gorda e digo com força: ISSO É FEIO! Não adianta tapar o sol com a peneira.

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