Quarta-Feira, 21 de Janeiro de 2009, 17h03
Artigo
A unanimidade como resultado da abstinência cívica


   Soa impressionante a aprovação de Lula da Silva e de seu governo. Segundo pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta segunda-feira, 12, a avaliação positiva de Lula subiu a 80,3% em dezembro e bateu novo recorde, enquanto que a aprovação ao governo do presidente também atingiu percentuais recordes e chegou a 71,1%. Vivemos no melhor dos mundos, certamente. Os comentaristas dizem que nenhum governante brasileiro jamais atingiu esse patamar. Nem seguramente um estrangeiro. A não ser os ditadores e aí se pode incluir desde os maiorais tipo Stalin, Hitler, Mussolini até os mais exóticos e mais recentes tipo Idi Amin. Só que a maioria conquistada por esses espectros humanos ruiu como castelo de cartas tão logo o julgamento da História se fez. O caso mais atual, a ser julgado, de alguém com uma maioria tão significativa, é o de Fidel. Ele, que no julgamento pelo ataque ao quartel Moncadaem 1954 proferiu a frase célebre: “A História me julgará”, certamente ainda está para ser julgado definitivamente. Mas, e o nosso Lula?

   Oitenta por cento é um índice mais do que significativo. Nenhum governante brasileiro, com pesquisa ou sem pesquisa, em tempo algum jamais alcançou tal nível de avaliação. Podemos começar desde o início: Pedro I, o proclamador da Independência, encontrou forte oposição eteve que deixar o governo para o jovem filho. Este, a verdadeira imagem da bonomia, do pacificador, do governante sensato, que era tido como um sábio,[talvez o único chefe de Estado brasileiro que ainda hoje possa ser assim considerado], cinqüenta anos no poder de inteiro respeito à vida institucional da nação, que exerceu o verdadeiro papel de Poder Moderador e que aboliu a escravatura, no final da vida foi deposto e exilado. Na primeira República nenhum dos presidentes obteve qualquer espécie de unanimidade, seja nas ruas seja no Parlamento. Os quinze anos de governo de Vargas sob regime ditatorial também não foram de unanimidade, muito embora esse período assinale o surgimento da burguesia brasileira, tem-se início o processo de industrialização e as leis sociais são introduzidas. Com a redemocratização, Dutra foi um governo morno mas de estrito respeito ao “livrinho”que era como ele chamava a Constituição recém promulgada. [Muito embora tenhaha vido a cassação do registro do Partido Comunista, é verdade que com a atenuante para o presidente de ter sido decretada pelo Supremo Tribunal].Vargas volta ao poder e, apesar do inequívoco apoio às reivindicações da classe trabalhadora e de sua política nacionalista [a Petrobrás é só um dos exemplos],foi levado ao suicídio. Depois dele vem o presidente mais simpático, alegre [“o presidente bossa nova”, “o pé de valsa”] e empreendedor que este país já teve. Desnecessário ocupar este espaço falando de JK e de suas realizações tão significativas para o Brasil moderno e tão atuais nos reflexos que elas tiveram para opaís. Mas JK não teve unanimidade. Enfrentou duas rebeliões militares e não conseguiu fazer o sucessor. De lá para cá – Jango (deposto), militares e a sua ditadura, Sarney, Collor, FHC – os fatos são bem conhecidos.

   Mas eis os impressionantes números de Lula. Que fez, ou que faz, ele para obter tais índices? Que obra material ou institucional de alta significação e envergadura para o futuro do país está ele construindo? Sim, de D. Pedro I a JK, que monumento sequer comparável está o atual presidente moldando para o seu perfil histórico? Que realizações [materiais? intelectuais? espirituais?] têm feito para lhe dar tão alto, significativo e inédito apoio? Em que estrela se esconde o mistério dessa unanimidade?

   Ou será que tudo o que estamos vivendo é resultado de um lamentável momento de abstinência cívica da Nação?

   Deixo para outra ocasião o desenvolvimento desse comentário. Mas não posso deixar de fazer a indagação de sempre: você já foi pesquisado? Você já foi ouvido por algum desses institutos de pesquisas para emitir a sua opinião sobre o seu apoio ao governo? Nunca fui e ainda não conheço ninguém [“muito prazer”– lhe direi] que o tenha sido. Por via das dúvidas, se o leitor tiver algum interesse em se manifestar acesse o site dos jornais O Estado de São Paulo/Jornal da Tarde que está realizando pesquisa nesse sentido. Momentos antes de concluir este artigo observei a votação: dos 51.582 acessos 39% aprovam Lula, enquanto que 61% reprovam o presidente e seu governo.

   Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor universitário, consultor jurídico ambiental e ex-presidente da Academia Mato-Grossense de Letras


Fonte: RDNEWS - Portal de notícias de MT
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