Quarta-Feira, 11 de Março de 2020, 23h21
Alcides mantém cultura viva e envia viola de cocho para o mundo todo - veja fotos

Mirella Duarte - Fotografia: José Medeiros

A rotina é puxada e a preparação da madeira um tanto quanto intensa. Quando começa a entalhar o instrumento em uma peça inteira de madeira, sem remendo, o que depende muito de seu talento, ele só para quando termina. Alcides Ribeiro dos Santos, que hoje vive em Santo Antônio de Leverger, conta como é sua rotina.

José Medeiros

Madeiras que ele produz viola de cocho são quase todas doadas, entre elas, a sarã

Madeiras usadas por ele para produzir as violas de cocho são doadas por quem conhecem seu trabalho, entre elas estão a sarã, ximbuva e o pinho cuiabano

A comunidade em que vive também foi retratada pelo fotógrafo José Medeiros no Expedição 300 - O Rio das Lontras Brilhantes. Quando questionado sobre onde recolhe a madeira, ele logo diz que cerca de 90% da matéria prima que vira viola de cocho é ganha.

Diz que as pessoas já sabem que ele é o artesão que mais produz o instrumento e, por isso, levam até ele regalias como ximbuva, pinho cuiabano ou sarã de leite, que são as madeiras que ele mais usa em suas produções. O tampo, segundo o artesão, é feito de raiz de figueira branca e todas as outras peças são cedro-rosa. Este cotidiano que repete há mais de 20 anos.

José Medeiros

Ele é detalhista enquanto talha o material, a viola é modelada de uma só madeira e depois recebe tampa e mais detalhes

Ele é detalhista enquanto talha o material. A viola é modelada de uma só madeira e depois recebe tampa e mais detalhes. Enquanto isso, o filho serve suco

Esta arte ele aprendeu com seu pai. Dos filhos que seo Caetano Ribeiro teve, ele foi o único que se interessou pela arte. Em outro tempo, quando a viola ainda não era tão valorizada, relata que sofria preconceito até dentro de casa sendo chamado de "jeca" por gostar tanto do que fazia.

"Hoje eu viajo o Brasil inteiro mostrando a viola, dou oficinas, envio os instrumentos para pesquisadores e músicos de toda parte do mundo". Há dois anos um dos guitarristas mais famosos do país, Dado Villa-Lobos, disse que queria muito comprar uma de suas violas e replicou. "Falou que há muito tempo pesquisava sobre meu trabalho, aquilo me deixou muito grato e feliz. Tenho orgulho do que eu faço", conta.

José Medeiros

Instrumentos são enviados para todo mundo, encomendas são feitas através de contatos via internet, telefone e indicações boca a boca

Instrumentos são enviados para todo mundo. Encomendas são feitas através de contatos via internet, telefone e indicações boca a boca. Ele é muito feliz

Alcides conta que seu marketing, além da história que continuou traçando após o legado de seu pai, é o boca a boca e publicações que faz em seu blog. Ele pretende continuar passando os seus ensinamentos para a nova geração e seus filhos.

José Medeiros

Ela passa cerca de 8h ao dia produzindo às violas e, ao todo, cerca de cinco delas ficam prontas

Ele passa cerca de 8h ao dia produzindo os instrumentos e cerca de 5 delas ficam prontas neste tempo. Desde os 16 anos, ele leva isso como profissão

Enquanto talha uma das violas, o filho chega com uma limonada gelada para aliviar o calor do pai. "Quero que continuem minha história, sejam meus filhos, ou outros das novas gerações. Não quero que isso acabe, é nossa cultura". 


Fonte: RDNEWS - Portal de notícias de MT
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