Sábado, 14 de Novembro de 2020, 07h34
Temos em mente que não se pode deixar semente da milícia crescer, diz chefe da PF
O Rdnews conversou com Sérgio Mori, que falou sobre combate ao crime organizado no país pela PF

Bárbara Sá

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

S�rgio Sad�o Mori

Com atuação efetiva no combate ao crime organizado, e com passagens pelo Rio de Janeiro onde atudou em operações contra grandes políticos e até na ação que afastou o governador Wilson Witzel, o delegado federal Sérgio Mori retorna a Mato Grosso, agora como superintendente da Polícia Federal. Assumindo o posto há pouco mais de um mês, o homem de mais alto cargo da PF no Estado recebeu o e falou sobre as novas ações e projetos do órgão, além de explicar a atuação da PF no combate a facções. Sobre eventual interferência política na instituição (suspeita levantada após a saída do ministro Sérgio Moro do Governo Bolsonaro), o delegado garante que todos os agentes tem autonomia para realizar suas investigações.

Confira os principais trechos da entrevista:

Não é segredo que a facção que atua no Estado, dentro e fora dos presídios, é o Comando Vermelho. Como o senhor vê a atuação deles em comparação com os membros do Rio de Janeiro?

Não vou dizer que exista realmente uma diferença entre qualquer organização criminosa. O que acontece é que são pessoas que visam o lucro e o poder. Então, obviamente, são pessoas que têm uma vida criminosa pregressa, que acaba conseguindo juntar um bom número de pessoas, incluindo um público criminoso de menor potencial. É por conta disso que esse tipo de organização deve ser sempre combatido. O Rio de Janeiro tem características geográficas e demográficas diferentes dos outros locais do Brasil. É muita gente concentrada e com um sistema carcerário populoso. E isso gera um ambiente que propiciou o aumento dessas facções. Mas, isso não é diferente para o resto do país. O Brasil está se urbanizando e as pessoas estão migrando para as cidades e, com isso, há um crescimento desordenado, que favorece o crime organizado. É certo que Mato Grosso não ia ficar muito tempo alheio a isso. Só que aqui, para a nossa sorte, as polícias se prepararam para essa situação. Foi sentido que essa onda de organização do crime, notadamente pelo tráfico de drogas, estava acontecendo e chegando a Mato Grosso. Mas, estamos sempre atentos, para não acharmos que essas facções não têm potencial de crescimento no Estado. Existe uma comunicação. Não vou dizer que exista uma hierarquia, pois não há provas que existam entre os diversos estados, mas comunicação sim. Evidentemente as investigações são fáceis. Sabemos que o sistema prisional, com os avanços tecnológicos, existe comunicação, mas as polícias também se comunicam, e cabe a nós corrermos atrás para combater isso.

Rodinei Crescêncio

S�rgio Sad�o Mori

O delegado Sérgio Sadão Mori, superintendente da PF em MT, durante entrevista especial à jornalista Bárbara Sá, na sede da instituição, em Cuiabá

Em algumas cidades do Nortão, como Nova Mutum, Peixoto de Azevedo, Primavera do Leste, o controle do CV não está estabilizado, pois ainda existe a influência do Primeiro Comando da Capital (PCC). Como a Polícia Federal vem acompanhando esses confrontos?

Nós temos as nossas atribuições na área de tráfico de drogas, que acredito ser o pano de fundo das facções. A Polícia Militar está mais presente nas ruas e acaba sentindo no dia-a-dia o crescimento desse tipo de facção e levando para as delegacias da Polícia Civil, onde serão capitalizadas. E, por conta disso, temos nos esforçado em manter um contato constante. Hoje, nós temos uma força tarefa composta com apoio da Sesp, e temos policiais civis e militares junto com policiais federais. Estamos sempre trocando informações e buscando fazer trabalhos que atinjam esse tipo de criminalidade organizada. Já tem tido sucesso, as informações já estão difundidas e muito brevemente acredito que teremos operações policiais nascidas e geridas por essa força tarefa na área de crime organizado.

O senhor atuou no departamento da Polícia Federal do Rio de Janeiro, onde participou da Operação Placebo, e da Tris In Idem. Ações envolvendo políticos de grande porte no Estado. Isso deixou o seu curriculum mais brilhante. Como essa experiência pode acrescentar em mais ações na Operação Ararath, que investiga lavagem de dinheiro e crimes financeiros?

Neste ponto, sou muito grato à Polícia Federal, que nos proporciona essas possibilidades de rodar todos os estados do Brasil. Isso acrescenta uma bagagem que acabamos levando para outros locais. Cada estado merece investigações levando em consideração suas características, muito embora alguns padrões se repetem. Os padrões de desvio de recursos públicos e a forma como agem e o modo de ocultar esse desvio e de dar vasão a esse dinheiro e até a lavagem do lucro dos valores (são similares). Esses padrões são objetos de conversas em todas as vezes que encontramos com os colegas, nos encontros anuais entre os chefes das unidades especializadas.

Rodinei Crescêncio

S�rgio Sad�o Mori

O delegado Sérgio Sadão Mori, superintendente da PF em MT, durante entrevista especial ao Rdnews, nesta semana

O senhor conhece a realidade da atuação das milícias (poder paralelo composto por militares, paramilitares ou civis armados), que vem crescendo no país todo. O senhor acredita que já existe uma milícia armada em MT? O que está sendo feito?

A milícia no Rio toma o mesmo espaço que hoje as facções de droga ocupam. As milícias chegaram para disputar com o tráfico de drogas os lugares. No começo as pessoas até acreditavam que era uma alternativa viável ao tráfico de drogas, pois foram anos de opressão que a população sofria por parte dos traficantes, mas não foi uma libertação. Quando os milicianos tomam o comando de uma área, atuam exatamente igual aos traficantes. A única diferença é a origem. É diferente da situação daqui, quando tem alguns policiais que se corrompem e vão para o tráfico de drogas. No entanto, é preciso tomar cuidado. Todas as polícias têm em mente que não se pode deixar essa semente da milícia crescer. Creio que em Mato Grosso não temos nada semelhante às milícias do Rio de Janeiro. É uma força grande, movida por interesse de lucro. Onde tiver pessoas dispostas a obter lucro, (a existência de milicianos) pode acontecer, mas estamos atentos a isso. Pode ter presença de traficantes e membros de facção A ou B, mas não tem áreas dominadas por eles. Em Mato Grosso, a polícia chega em qualquer lugar.

Muito se questionou a autonomia da PF, após a saída do ex-ministro Sérgio Moro. O senhor já sofreu algum tipo de interferência? Como conseguiu lidar com isso?

O clima organizacional da PF é muito positivo para essa autonomia. Nós conseguimos isso ao redor dos anos, que não tem mais espaço para isso. Hoje, não conheço casos de alguém que já sofreu essa interferência vindo de cima, pedindo qualquer resultado em uma investigação para seja essa ou aquela. Acredito que qualquer pessoa que se aventurar em fazer isso corre um grande risco de ser presa. Não acredito que tenha espaço para esse tipo de situação. A autonomia é funcional e plena, com as equipes de investigação fazendo os trabalhos livremente e respondendo pelos seus atos formalmente, como qualquer cidadão deve responder. Logo, não existe esse tipo de pressão política.  Agora, o que se busca é um pouco mais de autonomia financeira, que é uma questão a ser discutida pelos órgãos competentes, com uma mudança de algumas leis. Mas o trabalho da PF é muito livre, sem influência de qualquer força.

A PF está preparada para o desafio das Fake News nas eleições?

Os crimes cibernéticos estão sendo combatidos. É obvio que é uma área em que a tecnologia avança muito mais rápido. Nós temos melhorado o nosso conhecimento nesta área e acredito que os resultados estão aparecendo. Mas o que é importante frisar, e não podemos deixar de dizer aos eleitores, é que a população é fundamental no controle das Fake News. Pois são eles que tem esse papel, que é muito grande. Isso tanto na hora de disseminar notícias sem checar, pois, algumas evidentemente são fake News. Então eles devem evitar e não disseminar, pois a responsabilidade deles é muito grande.  E falo isso também no processo eleitoral todo. Pois a polícia está aqui, e sempre que requisitada atua.


Fonte: RDNEWS - Portal de notícias de MT
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