Sábado, 19 de Dezembro de 2020, 08h29
Na minha cabeça tinha recebido sentença de morte, revela jovem sobre HIV - confira

Ana Flávia Corrêa

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Professor e ativista Jo�o Cavalvante

“Na minha cabeça eu estava ganhando uma sentença de morte”. Foi desta maneira que o professor João Cavalvante, de 27 anos, que mora em Diamantino (a 183 km de Cuiabá), se sentiu quando recebeu o diagnóstico positivo para o vírus da imunodeficiência humana, o HIV. Há 3 anos com a doença, hoje ele pode dizer que está indetectável e intransmissível. Ou seja, com assistência médica e o uso medicamentos adequados, convive melhor com o vírus e já não pode mais transmiti-lo.

Se antes sua rotina era de desesperança e tristeza, hoje ele tem fé em uma possível cura. O professor transformou sua vivência em militância e hoje faz parte de ONGs e redes de apoio que debatem sobre o tema. Seu objetivo é levar esperança e conforto para pessoas que, assim como ele, passaram por um processo de luto ao receber o teste positivo.

Dezembro é considerado o mês de conscientização a cerca do HIV e da Aids. Objetivo é chamar a atenção para medidas de prevenção, assistência, proteção e promoção das pessoas infectadas com o vírus. Em entrevista ao de maneira remota, João contou sua história e explicou de forma didática sobre o tratamento.

“Através dessa fala, através desse conhecimento as pessoas vão cada vez mais diminuir os preconceitos”, pontuou.

Veja e assista os principais trechos da entrevista:

Quando você foi diagnosticado?

Eu convivo com o HIV desde 17 de agosto de 2017. Já são 3 anos e 2 meses. No começo foi muito complicado para mim. A gente sabe o que é o HIV, a gente vê as campanhas, a gente ouve falar sobre isso, mas a gente não espera que isso vai acontecer com a gente. Eu fui acompanhar uma tia no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) em Jataí. Eu já tinha feito o exame em fevereiro, mas não deu positivo. A enfermeira me convidou para fazer novamente em agosto e o teste deu positivo. No momento eu só pensava em chorar. Na minha cabeça eu estava ganhando uma sentença de morte.

Como você se sentiu com o positivo?

Eu tinha muito medo de ficar debilitado, de ficar dependente das pessoas. Foi um mês de muito sofrimento, de muita dor, de muita luta. Eu chorava toda hora e não conseguia comer. Eu ainda não conseguia decifrar as coisas. Cada pessoa desenvolve seu momento de luto. Eu chorava, chorava, chorava. Eu ficava horas dentro do banheiro.  

Como foi para você ressignificar o luto?

Eu fiquei muito focado em querer entender o que estava acontecendo comigo. Eu entrei em tudo quanto é site. Eu fiquei abalado com o diagnóstico, mas ao mesmo tempo eu percebi que eu estava bem. Vários processos com outras doenças acontecem no organismo da pessoa infectada com o vírus, mas comigo não tinha acontecido nada. Chegou um momento em que eu decidi que não queria mais sofrer e que eu deveria seguir a minha caminhada. Então eu fui conversando com pessoas que estavam passando pelo mesmo processo que eu e fui me fortalecendo. Eu também fui atrás dos movimentos, que hoje eu faço parte, e eles me deram suporte.

Como foi o seu tratamento?

Eu já tive amigos que foram expulsos de casa, que perderam trabalho, entre outras lutas. Por isso é que os movimentos sociais estão aí

João Cavalcante

Para mim eu só queria ficar indetectável o mais rápido possível. Hoje existem vários medicamentos antirretrovirais oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quando o paciente descobre que ele vai conviver com o HIV ele já inicia o medicamento de iniciação. Quanto mais rápido ele começar a tomar, mais rápido ele vai ficar indetectável. É claro que depende de cada organismo. Eu como participo de várias redes, de vários debates, ouço relatos de pacientes que ficavam indetectáveis em um mês, como o meu caso. Existem pacientes que ficam indetectáveis com 1 e 3 meses de tratamento. Tudo isso depende muito.

Como foi a relação das pessoas próximas a você com o seu diagnóstico? Você conseguiu falar sobre isso abertamente?

De cara eu já contei para os meus pais que o meu exame deu positivo e que eu iria precisar do apoio deles.  No meu caso eu me senti protegido, mas eu vejo inúmeros relatos de pessoas que são negligenciadas e abandonadas. Minha mãe foi comigo nos primeiros exames, pediu esclarecimento dos médicos. Eles estão sempre me cobrando para saber se eu estou tomando a medicação certinha. Mas eu já tive amigos que foram expulsos de casa, que perderam trabalho, entre outras lutas. Por isso é que os movimentos sociais estão aí. A gente cobra políticas públicas, apoio e investimento na área da saúde para as pessoas que convivem com o HIV.

Você sofreu algum tipo de preconceito?

Existiu uma época em que se qualquer pessoa olhasse para mim diferente eu já abaixava a cabeça para chorar. Foi muito sofrido. Não é fácil e machuca muito. Fere muito. Hoje a minha luta é para que o preconceito diminua. As pessoas ainda têm essa visão errada sobre o HIV, sobre a Aids. Eu acredito no dia de amanhã e espero que quanto mais informações, quanto mais pessoas falarem sobre isso abertamente, menor será o índice de preconceito.

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Professor e ativista Jo�o Cavalvante

Hoje existe disponível no SUS a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV. Como isso funciona?

No caso do PEP, as pessoas tomam esse composto de antirretrovirais quando têm um possível contato com a HIV. Isso pode ser por meio de uma relação sexual desprotegida,  quando existe o uso de camisinha e ela rompe durante o sexo, ou até mesmo durante um acidente ocupacional em que a pessoa teve contato com sangue contaminado. A partir do momento em que a pessoa teve o contato é que em até 72 horas ela inicie o tratamento com o PEP. E aí ela continua tomando por 28 dias. Depois disso faz os exames de novo, mas o esperado é que ela não contraia o vírus.

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Professor e ativista Jo�o Cavalvante

Professor  João Cavalvante fala sobre convívio com a doença

Já no caso da PrEP, é um preventivo antes da exposição sexual. Infectologistas recomendam que as pessoas tomem quando estão em um relacionamento sorodiscordante. Se a pessoa não tem HIV e se relaciona com alguém que tem, ela faz o uso desse medicamento e passa por todo o procedimento rotineiro de fazer exames. Medicação deve ser utilizada por pessoas que acreditam que têm grande probabilidade de adquirir o vírus.

Qual a importância da campanha Dezembro Vermelho?

A gente não deve falar só em dezembro sobre a prevenção, que existe o PrEP, que existe o PEP. É preciso falar sobre tudo isso cotidianamente. Através dessa fala, através desse conhecimento as pessoas vão cada vez mais diminuir os preconceitos. As políticas públicas no Brasil ainda são muito fracas. Os recursos ainda são muito poucos. Dezembro é um mês maravilhoso porque dá brecha para que a gente fale sobre essas coisas. A Aids e qualquer outra IST não é um bicho de sete cabeças e acontece com todo mundo.

Existe uma vacina que está em sua última etapa nos ensaios clínicos, na fase 3. O que isso representa? É uma esperança?

Hoje em dia a gente pensa que a cura está perto. A gente que participa do movimento existem muitas pessoas maravilhosas convivem com a doença há 20, 30 anos. Saber que as pessoas já estão sendo convocadas para fazer parte desse processo para tomar as primeiras injeções é um momento de esperança. Saiu um material recente falando que a gente não vai mais precisar tomar comprimidos em breve, que tudo vai ser injetável. Eu fico muito emocionado em saber que eu vou fazer parte disso e eu vou receber esse novo momento, que é um momento de esperança.


Fonte: RDNEWS - Portal de notícias de MT
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