Quinta-Feira, 27 de Março de 2008, 18h00
EXPLICAÇÕES
Ex-travesti conta sua história das ruas até o altar



No submundo, Joide se prostituía e hoje é casado com Edna

  Joide Pinto de Miranda não é pré-candidato e não pertence ao cenário político, mas com certeza tem uma história de vida bastante curiosa e vai surpreender muita gente. O que é considerado impossível por muitos, aconteceu com Joide. Depois de ter sido travesti por cerca de 20 anos, hoje está casado há mais de 9 anos com Edna Miranda, uma linda mulher. O casal reside no bairro Cidade Verde, em Cuiabá. "O homossexualismo não é genético, não é hereditário e ninguém nasce homossexual. Dá-se pela falta de uma base familiar", afirma. Com muita coragem e sem nenhum receio, Joide conta sua vida ao RDNews.

  Numa época que muito se houve falar em pedofilia, Joide teve o desprazer de conhecê-la e vivenciá-la com apenas seis anos de idade. "Fui abusado por um senhor de idade, advogado, casado e muito bem instruído. A pedofilia já existe há anos e nada é feito. Fecha-se os olhos", comenta. Com a inocência de uma criança, Joide não entendia o que lhe acontecia, mas não tinha a quem recorrer. "Meu pai era alcoólatra e muito violento. Ele me batia e me colocava para fora de casa. Um certo dia em que havia apanhado do meu pai, este vizinho me colocou no carro, me levou para passear, me agradou, ganhou minha confiança e depois me violentou. Tentei por várias vezes contar para o meu pai, mas se contasse eu apanharia ainda mais", relatou. Já a mãe, sem saber dos abusos sofridos pelo filho, apenas aceitava o que era dito pela religião sem nenhum questionamento. “Minha mãe era espírita e acreditava que tudo acontecia era porque tinha que ser, em função de vidas passadas”, explicou.

  Joide teve a infância marcada por abusos e violência. Além do vizinho, também foi abusado por outros homens. Isso tudo antes mesmo de completar seus oito anos. "Minha mãe alugava um barracão do lado da nossa casa e quando meu pai chegava bêbado em casa, eu ia dormi neste lugar. Mas também era abusado sexualmente por outros dois homens que dormiam lá para cuidar do barracão", revelou ele nesta quinta, a 3 dias de contar sua história de vida na Igreja Batista da Paz, onde frequenta.

    Além dos abusos, Joide também sofria com o ódio do pai. "Quando minha mãe me levava no centro (espírita), explicavam que eu e meu pai fomos inimigos na vida passada e para reverter voltamos como pai e filho. Mas só piorava".

   Pactos

   A mãe ligada ao Condomblé levou Joide para participar de um ritual, quando ainda tinha oito anos. "Fui levado para um cemitério, junto de um pai de santo homossexual, para fazer um pacto. Derramaram sangue de galinha preta na minha cabeça, pinga, essas coisas", narrou. Depois deste, outro pacto foi feito, mas nada resolveu. Então ele foi levado por uma mãe de santo, lésbica, para um terreiro em Campo Grande (MS). "Esta mulher convenceu minha mãe de que tinha que fazer um trabalho comigo. Na época tinha 10 anos e foi muito traumático", explica.

  Depois de quase um ano morando com a tal mãe-de-santo, Joide passou pelo seu último ritual, que na realidade foi uma sessão de tortura. "Fiquei amarrado por quase 24 horas. Fui chicoteado por uma noite inteira. As pessoas apagavam charutos no meu corpo, que já estava cheio de marcas de queimadura. No dia seguinte, estava tão revoltado que quis ir embora. Por coincidência, neste mesmo dia, minha tia apareceu e me trouxe para Cuiabá", relatou. A partir daí, porém, nunca mais foi o mesmo e aos 12 anos não se identificava mais como homem. “Me olhava no espelho e não me aceitava. Deixei o cabelo crescer, tomei hormônios femininos, como anticoncepcional e a convivência com a família foi se tornando cada vez mais insuportável”.

  Prostituição

  Com 14 anos, conheceu um grupo de travesti e um deles levou Joide para casa dele. Foi quando começou usar drogas e se travestiu, indo para as ruas se prostituir. "Descobri que os travestis são muito mais homens do que muitos homens. Na maioria das vezes, eles são os ativos na relação", afirma. Aos 15, foi para o Rio de Janeiro, ganhar dinheiro como travesti.  "Quando me falaram que poderia ganhar muito mais dinheiro lá no Rio, só pensei em vingar do meu pai. Mostrar que poderia me dar bem", comenta. Ficou por pouco tempo na Cidade Maravilhosa e seguiu para São Paulo, onde conheceu travestis bem-sucedidos. Resolveu, depois, sair do país. Antes de ir para a Europa colocou silicone industrial no quadril. Como só tinha 16 anos e precisava de autorização para viajar, falsificou os documentos e partiu para Paris, onde ficou por pouco mais de um ano. Passou por vários lugares da Europa, entre eles, Portugal, Madri, Barcelona, cidade em que fez a cirurgia para colocar 380 ml de silicone nos peitos. Mas foi na Itália que fixou moradia. Lá se envolveu com o tráfico de travesti e drogas. "Eu arranjava a documentação para outros travestis irem para Itália e com isso ganhava uma comissão. Além disso, também vendia preservativo, usava drogas e me prostituía", confessou.

  Neste período que ficou fora, sua mãe se converteu e tornou-se evangélica. Ela ficou mais de sete anos orando por Joide e sempre que falava com o filho no telefone dizia: “meu filho, Jesus te ama e vai transformar sua vida”. Mas nada o convência. Uma certa vez veio a Cuiabá ficar por um mês. Foi com a mãe a uma reunião da igreja e se revoltou por ter sido apresentado como filho e não filha. Com isso, retornou antes do tempo para Itália. Lá, ele sofreu uma grande decepção, que o fez vir para Cuiabá mais uma vez e em um momento de raiva queimou toda documentação italiana. Quando quis retornar para Europa não pôde mais. “O travesti que falsificou minha documentação havia morrido enforcado no presídio de Roma e não tive mais como retornar”, explicou.

   Conversão

   Após dois anos morando em Cuiabá, aceitou ir a um culto da igreja com a mãe. Foi quando aceitou a conversão. "O pecado me trouxe a beleza, o poder, dinheiro, mas não tinha o principal: felicidade e paz. Por isso falo: os homossexuais não são felizes por completo, eles possuem um vázio muito grande em suas vidas. Não estou julgando ninguém. Digo isso porque conheci homossexuais de vários países", declarou. A transformação aconteceu gradativamente. "O cabelo passou a me incomodar, sentia vergonha do silicone, do quadril e peitos enormes. Senti nojo do passado. Fui para São Paulo retirar o silicone e tive uma grande experiência com Deus. Fiz com Ele um propósito para mudar de vida e tive muita força de vontade", destaca.

  Joide admite que esta transformação não foi fácil e enfrentou preconceito, descriminação e a falta de confiança das pessoas que não acreditavam que deixaria de ser homossexual. Mas conseguiu provar que o “nada é impossível para Deus” e passou a ser exemplo. Nos eventos da Igreja, era chamado para dar seu testemunho e ajudar pessoas que passam por este dilema na família.

  Casamento


Casal Joide e Edna Miranda, durante entrevista nesta quinta 

   Em um desses eventos, Edna Miranda, que hoje é sua esposa, estava presente junto com outras 3 mil pessoas para ouvir o testemunho de Joide. Ela ficou impressionada com a história dele e quis conhecê-lo, o que só aconteceu dois meses depois, quando foi até a loja que Joide tinha no centro de Cuiabá. “Nunca tinha ouvido falar em uma pessoa que deixou de ser homossexual e fiquei com aquilo na cabeça. Um certo dia passava em frente da loja dele e resolvi entrar para me apresentar. Fui muito bem recebida e já fui para os fundos orar com a mãe dele. Ficamos amigos, e somente depois de 10 meses, quando tive a aprovação do meu pai, começamos a namorar”, conta Edna.

  Edna foi a confidente de Joide no período de sua transformação. “Era muito difícil para mim. Depois de 20 anos vivendo como mulher me tornar um homem e ela (Edna) foi minha conselheira, amiga, e me ajudou a superar todos os desafios que enfrentei neste caminho de libertação. Apaixonei-me loucamente por ela e conheci o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher”, resume. Eles vão completar 10 anos de casados em 2008 e, apesar do preconceito que enfrentaram, se declaram muito felizes.

    Testemunhos

    Atualmente, Joide e Edna têm viajado levando o testemunho deles para milhares de pessoas e, com isso, ajudado pais e jovens que enfrentam o homossexualismo na família. "Muitas pessoas que não acreditam em solução para o homossexualismo, me procuram e passam a ter esperança. Meu depoimento tem transformado a vida de muitos jovens homossexuais, que passam a crer na cura e salvação. O homossexualismo é um pecado como outro qualquer, que já existia desde os tempos mais antigos, citado até mesmo na Bíblia (1º Cor 6, 9 - 11, Rom 1, 24 - 29). Por isso, o que faço é mostrar para as pessoas que qualquer um pode se transformar. Só precisa aceitar e querer Deus no coração", concluiu.

  Quem quiser ouvir essa história de perto poderá participar da palestra intitulada “A História de Vida do Ex-travesti, Joide Miranda – das ruas até o altar”, que será realizada neste domingo (30), às 19h, na Igreja Batista da Paz, ao lado do Corpo de Bombeiros, no bairro Verdão. Joide e Edna estarão lá para contar mais uma vez a história deles, na esperança de ajudar as pessoas e diminuir suas aflições. Os interessados também podem entrar em contato pelo telefone (65) 8126-9556. (Alline Marques)

      Clique no play e confira um pouco da história de Joide.


Fonte: RDNEWS - Portal de notícias de MT
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