Judiciário

Quarta-Feira, 10 de Junho de 2020, 10h:04 | Atualizado: 10/06/2020, 10h:15

AÇÃO DO MPF

Justiça suspende normativa da Funai que permitia invasão de terras indígenas

A Justiça Federal em Mato Grosso acatou integralmente o pedido feito pelo Ministério Público Federal (MPF) e suspendeu, com liminar em tutela de urgência, os efeitos da Instrução Normativa 09/2020 da Fundação Nacional do Índio (Funai) sobre as terras indígenas existentes no Estado. A normativa viola a publicidade e a segurança jurídica restringindo o direito originário dos indígenas às suas terras, levando ao reconhecimento de propriedades privadas onde provavelmente elas não existam.

C�sar Augusto Bearsi

Decisão em caráter de liminar foi dada pelo juiz federal em MT César Augusto Bearsi

Na Assembleia, um projeto de lei nos mesmos moldes da instrução da Funai ainda tramita. Deputados ligados ao setor do agronegócio pretendem modificar o Cadastro Ambiental Rural para permitir seu registro sobre terras indígenas ainda não homologadas.

A ação é movida pelo Ofício de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF. Entre os pedidos está a manutenção ou inclusão, por parte da Funai, no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e no Sistema de Cadastro Ambiental Rural (Sicar), no prazo de 24 horas, além das terras indígenas homologadas, terras dominiais indígenas plenamente regularizadas e reservas indígenas, também as Terras Indígenas do Estado de Mato Grosso em processo de demarcação nas seguintes situações: área formalmente reivindicada por grupos indígenas; área em estudo de identificação e delimitação; terra indígena delimitada (com os limites aprovados pela Funai); terra indígena declarada (com os limites estabelecidos pela portaria declaratória do Ministro da Justiça); e terra indígena com portaria de restrição de uso para localização e proteção de índios isolados. A multa por descumprimento, solicitada pelo MPF, é de R$ 100 mil por dia.

O MPF também requereu - e foi deferido - que a Funai considere, na emissão da Declaração de Reconhecimento de Limites, além das terras indígenas homologadas, terras dominiais indígenas plenamente regularizadas e reservas indígenas, as Terras Indígenas do Estado de Mato Grosso em processo de demarcação.

Já o Incra deverá levar em consideração, no procedimento de análise de sobreposição realizada pelos servidores credenciados no Sigef, as Terras Indígenas do Estado de Mato Grosso em processo de demarcação, nas situações indicadas pelo MPF e, como gestor do Sigef, deverá providenciar os meios técnicos necessários para o imediato cumprimento da decisão judicial.

Na decisão, o juiz da 3ª Vara Federal em Mato Grosso, César Augusto Bearsi, lembrou que para que seja concedida a tutela provisória de urgência é preciso verificar hipóteses em que ela se enquadra: a probabilidade do direito; o perigo de dano ou risco como resultado útil do processo e a inexistência de perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão.

Sobre a questão da probabilidade do direito, o magistrado ressaltou que o “direito dos povos indígenas às suas terras de ocupação tradicional configura-se como um direito originário e, consequentemente, o procedimento administrativo de demarcação de terras indígenas se reveste de natureza meramente declaratória. Portanto, a terra indígena não é criada por ato constitutivo, e sim reconhecida a partir de requisitos técnicos e legais, nos termos da Constituição Federal de 1988”.

Rodinei Crescêncio

Ricardo Pael Ardenghi

Procurador do MPF Ricardo Pael é responsável pela ação que questionou a norma da Funai

Bearsi também lembrou que as terras indígenas são um bem da União e, portanto, são inalienáveis e indisponíveis, independentemente da vontade da etnia envolvida, e os direitos sobre elas não se perdem com o tempo. Destacou também que a instrução normativa anula, inconstitucionalmente, a proteção das terras indígenas, reconhecendo a validade de propriedade privada onde talvez ela não exista, colocando em risco os indígenas e também os particulares, que podem criar expectativas falsas sobre a propriedade, que depois pode vir a não ser realmente reconhecida.

“Assim seja pelo respeito devido às terras indígenas e à opção feita pelo legislador constituinte em relação a elas, seja porque a nova IN/9 possa trair a confiança dos administrados na Administração ao emitir documento potencialmente falso, deve ser dada a liminar. Presente, portanto, a probabilidade do direito”, afirmou.

Já o perigo de dano se faz presente devido às consequências prejudiciais aos indígenas e aos particulares envolvidos, pois, no caso de se manter a exclusão das áreas indicadas pelo MPF em razão da nova normativa da Funai, todos os negócios jurídicos praticados terão sido nulos, com consequências patrimoniais e indenizatórias.

"Por fim, não há falar em perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão, pois o pedido de tutela de urgência formulado consiste em nada mais do que manter a situação que já existia antes da nova IN/9”, enfatizou o magistrado.

Projeto na Assembleia

A decisão judicial vai de encontro com Projeto de Lei Complementar (PLC) 17/2020, que tramita na Assembleia e que autorizaria o registro do CAR de fazendas em sobreposição a Terras Indígenas no estado. O procurador da República e titular do Ofício de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais no Estado encaminhou, em 14 de maio deste ano, ofício ao presidente da Assembleia, Eduardo Botelho (DEM), requerendo a suspensão do PLC e a leitura do documento em Plenário, o que foi feito, mas, apesar das pontuações do Ministério Público Federal, o projeto continua em tramitação.

Levantamento

Um levantamento realizado pelo MPF, por meio da Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise (Sppea), da Procuradoria-Geral da República (PGR), divulgado nesta terça (9) aponta que 9.901 registros de imóveis rurais, inscritos no CAR estão sobrepostos a terras indígenas em diferentes fases de regularização ou a áreas com restrição de uso. Foram considerados os dados extraídos do Sistema CAR, vinculado ao Serviço Florestal Brasileiro (SFB), no período de 21 a 31 de maio deste ano. De acordo com o levantamento, em Mato Grosso existem 1.062 áreas indígenas com sobreposição de cadastro de imóveis rurais, sendo que 1013 são Terras Indígenas e 49 possuem restrição de uso.

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Scheila assume APDM e cita projetos

scheila pedroso 400   Esposa do prefeito sinopense Roberto Dorner, Scheila Pedroso (foto), primeira-dama e secretária municipal de Assistência Social, passa a tocar, pelos próximos dois anos, a Associação para o Desenvolvimento Social dos Municípios de MT (APDM/MT). Ela promete juntar força com os...

Prefeito de Araputanga negocia praça

enilson rios prefeito 400 araputanga   O prefeito de Araputanga, Enilson Rios (foto), que ganhou as eleições do ano passado por uma diferença de apenas 56 votos sobre Joel Martins, com placar de 3.492 a 3.436, está no centro de uma polêmica. Ele aceitou uma proposta do Sicredi para utilização de um...

Barra recebe R$ 1,9 mi pra bancar UTIs

adison gon�alves 400   Em Barra do Garças, com 61 mil habitantes e 5.929 casos confirmados de Covid-19, inclusive com 207 mortes, incluindo 26 óbitos de indígenas em consequência da doença, o prefeito Adilson Gonçalves (foto) abriu crédito suplementar no orçamento de R$ 1,9...

De MT para USP; governo comemora

gabriel usp ribeiraozinho 400   O governador Mauro Mendes comemorou o fato do estudante Gabriel Rodrigues Ribeiro (foto), de 18 anos, morador de Ribeirãozinho, município mato-grossense com menos de três mil habitantes, ter conseguido ingresso no curso de medicina da USP, considerada a melhor universidade do país. Aos 18...

ICMS e R$ 150 mi a mais a municípios

rogerio gallo 400 curtinha   O secretário Rogério Gallo (foto), da Fazenda, assegura que o governo estadual já enviou para os municípios, no primeiro trimestre deste ano, R$ 150 milhões somente em ICMS arrecadado a mais do que estava previso na lei orçamentária. O valor é 8 vezes...

Fúrio, última ação no MPE e morte

celio furio 400   Célio Joubert Fúrio (foto), que morreu nesta sexta, aos 56 anos, vítima da Covid-19, foi um incansável combatente de atos de improbidade administrativa em MT e na defesa do patrimônio público. Integrava aos quadros do Ministério Público Estadual havia 29 anos. Ele atuou...