Polícia

Segunda-Feira, 28 de Setembro de 2020, 19h:39 | Atualizado: 30/09/2020, 16h:26

BOLETIM DE OCORRÊNCIA

Jornalista denuncia executivo do CREA por constrangimento: ordens da atual gestão

Atualizada às 09h20 em 30/9

Reprodução Facebook

Jornalista Cristina Cavaleiro

Cristina Cavaleiro faz assessoria para o CREA

Se sentindo ameçada ao fazer seu trabalho de assessora de imprensa, a jornalista Cristina Cavaleiro Costa decidiu denunciar à polícia o superintendente executivo do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso (CREA-MT), Átila Kleber Oliveira Silveira. A profissional registrou, na quinta passada (24), um boletim de ocorrência por constrangimento ilegal contra Silveira. O motivo seria a eleição pela presidência do órgão, marcada para o próximo 1º de outubro.

“Você esta aqui para atender às demandas da gestão, o seu cargo é de confiança”, foi a resposta dada pelo superintendente à jornalista Cristina Cavaleiro Costa, quando teve que explicar ao superintendente porque teria entrevistado uma engenheira do Conselho que compõe a chapa da oposição à atual gestão, que tem à frente João Pedro Valente, licenciado para concorrer à reeleição. 

Áudios gravados pela assessora de imprensa deixam claro a pressão sofrida dentro da unidade para se manter na "linha" com o que for demandado pelo grupo oponente.

Na gravação, que começa no exato momento em que a profissional é chamada ao gabinete do superintendente, Silveira se diz preocupado com ela.

É possível ouvir  também que ele insinua à jornalista que relação com a chapa opositora deve ser evitada e em casos de ter que atendê-los, que seja tudo reportado à avaliação dele.

Cristina Cavaleiro alegou que decidiu registrar o encontro por se sentir pressionada pelo investigado e que já tinha sido abordada de forma mais dura pelo gestor em outras situações. Acompanhe o diálogo abaixo:

Cristina: Você me ligou ontem, meu filho do céu, tava....

Átila: Tá na hora de você começar a ficar mais esperta neste período eleitoral, tá.

Cristina: Por que você fala isso? Eu não entendi, você me ligou ontem, falou uma coisa e depois falou outra;

Átila: Por que, Maricane, Dejane, eles são oposição neste período eleitoral e qualquer tipo de conversa isolada que você tenha, aqui tem corredores. Não chegou mim à toa essa conversa de que você estava reunido com eles ontem lá.

Cristina: Eu fui entrevistar Rejane do Dia da Mulher, ta até no ar a matéria.

Além do trecho que inicia a conversa, no decorrer, Átila por diversas vezes reforça a relação de trabalho e o cargo ocupado por Cristina como fragilizado caso não se atente às ordens dadas pela atual gestão.

Átila: O João entende você como uma pessoa de confiança, você têm um cargo de confiança. E qualquer tipo de situação que venha a acontecer, não responda de bate pronto.

Cristina: Eu fui entrevistar ela (Dejane). Estava só fazendo o meu trabalho. Entrei falei com ela, tirei a foto e saí.

Átila: A gente precisa, quem é cargo de confiança do João precisa ta atento ao que pedem e ao que se fala. Eu falei até pro João, tenho certeza que a Cris é uma pessoa de coração muito puro e muito inocente, ela esteve La, eu vou saber o que ela conversou, mas não foi nada de passar informações à gestão;

Cristina: Meu trabalho é assessoria de imprensa, eu só fui entrevistar a Rejane

Átila: mas e eles, vc viu eles conversando alguma coisa?

Cristina: Não, nada, nada. Só fui entrevistar a Rejane. Pq ela  foi a última entidade de classe, se quiser poder ver na matéria.

Átila: Não, só estou pra te deixar assim, tome cuidado

Ouça áudio

Investigação

Após ter registrado o caso na Polícia Civil, na última quinta, Cristina Cavaleiro protocolou também, junto ao órgão, um pedido de instauração de sindicância contra o superintendente Átila Kleber. Anexos ao registro, ela juntou a  cópia do boletim de ocorrência e a transcrição da conversa que teve

O pedido foi distribuído também com cópia para todos os conselheiros membros do plenário do CREA de Mato Grosso,  para que seja instaurado o processo administrativo disciplinar.

A vítima pediu que o órgão tome providências para evitar que novos casos dessa natureza se repitam futuramente.

Outro lado

Diante da acusação, o superintendente emitiu nota dizendo que a conversa foi em tom moderado e só queria explicar como funciona o período eleitoral. Veja nota na íntegra:

“Eu, Átila Kleber Oliveira Silveira em direito de resposta, tomei conhecimento no dia 18/09/2020, por meio de artigos jornalísticos e também por amigos, da existência de uma gravação clandestina, feita a partir de uma conversa reservada e moderada que havia estabelecido com uma colaboradora do Crea-MT. Nesse diálogo explanei minha preocupação com o momento eleitoral do Conselho e as atividades da colaboradora, já que ela possui cargo de confiança (Assessora de Comunicação da Gestão)

Na oportunidade, pedi para que a colaboradora tomasse cuidado em não veicular matérias que pudessem de alguma forma privilegiar um ou outro candidato, pois as publicações institucionais devem ser imparciais durante todo o processo eleitoral, até porque em qualquer estado democrático de direito, toda gestão possui uma oposição, a qual poderiam se valer dessas matérias.

Essa conversa foi realizada em 06/03/2020 (07 meses) atrás, e publicizada pela colaboradora como suposto constrangimento ilegal às vésperas das eleições do Conselho, que ocorrerá em 01/10/2020. Penso que poderia me reservar, sem a necessidade de exercer o direito do contraditório, mas em respeito ao Conselho, órgão que aprendi a ter apreço e respeito, casa de todos os engenheiros e profissionais da geociência, em respeito à minha imagem, e a tudo que eu prego no ambiente do trabalho “respeito com o próximo”, entendo necessário registrar o que segue:

Na conversa do áudio, ora editado, pois não apresentasse na íntegra, e clandestino, pois feito sem o consentimento da outra parte, não há qualquer constatação de coação ou sujeição que pudesse a colaboradora tomar tal postura ressaltando que, causa estranheza, pois durante os 7 meses da data do fato as partes desenvolveram uma relação harmônica e respeitosa.

Assim, para ponderar sobre os fatos ocorridos, e verificar qualquer exacerbação dos meus atos, tentei avistar no áudio publicado qualquer desabono em desfavor da colaboradora, que se identificado, eu estaria sem qualquer receio ou orgulho fazendo a devida retratação, porém, verifica-se que a conversa, ora reservada, foi conduzida com parcimônia, ponderação, direção e orientação das atividades que a colaboradora deveria exercer.

Cabe ainda destacar que as matérias feitas pela assessoria de comunicação, em regra, possuem o fluxo de serem revisadas pela gestão, seja pelo presidente, superintendente ou gerente da área, portanto a solicitação para a colaboradora, não possui nenhuma exceção à regra. Conforme visto na gravação, a abordagem e o desenvolvimento da conversa foram procedidos nos limites da chefia, sem qualquer intimidação ou algo que pudesse trazer constrangimento ilegal à colaboradora.

Afinal, desde que o Conselho retornou com suas atividades presenciais, a colaboradora não se apresentou ao posto de trabalho, alegando comorbidade e risco de contágio pelo Covid-19, através de atestados médicos. Nesse sentido, a gestão pautada pelo respeito à saúde e a dignidade da pessoa humana, colocou a colaboradora em trabalho remoto, estando afastada das atividades presenciais há 5 meses, de maio a setembro do ano, sendo lhe cobrada, tão somente, por sua produtividade e comprometimento ao trabalho.

Por fim, e preservação de direito realizei um Registro de Ocorrência de Crime Contra a Honra (calúnia), conforme protocolo 044118/2020 Delegacia Virtual de Mato Grosso, para com a isenção da Justiça, possamos trazer luz a verdade dos fatos. É o que tenho a expor.”

Sindijor se posiciona

O Sindicado dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT) emitiu nota dizendo que vai acompanhar os desdobramento do caso e considerou que a assessora Cristina Cavaleiro foi vítima de assédio moral e passou por situação vexatória no transcorrer do exercício da profissão.

Leia a íntegra da nota:

A jornalista Cristina Cavaleiro lavrou o Boletim de Ocorrência 2020.229640 em 24 09 2020, expondo a situação vexatória a que foi exposta pelo superintendente administrativo do CREA - MT quando foi deslocada de suas funções de jornalista para a situação de atendente de portaria de forma cumulativa e não apenas uma substituição emergencial.

 O duplo expediente passou a ser norma e, diante da sucessão que ora se encaminha na instituição, foi instada a deixar de fornecer informações que deveriam, inclusive, constar de um portal de transparência, com a atitude de fornecer elementos que lhe eram solicitados entendidos como possível engajamento em outra candidatura.

O uso de expedientes diversos para desrespeitar os direitos de jornalistas tornou-se, lamentavelmente, algo corriqueiro. Há situações absurdas em que a contratação precária de jornalista na condição de MEI - Microempreendedor Individual - está sujeita a "bater ponto" e até a apresentar atestados médicos quando impossibilitado de trabalhar mesmo com o cuidado de enviar outra pessoa para o substituir.

A precarização do exercício da profissão coincide com um período em que a perda de direitos trabalhistas tornou-se usual sob os mais diversos pretextos. Agora, por exemplo, fala-se m desoneração de folha de pagamento à custa de tributos que incidirão, sobretudo sobre trabalhadores, diante da covardia habitual dos políticos de cumprirem dispositivos constitucionais que preveem a taxação de grandes fortunas, heranças ou dividendos.

A conta, como sempre, sob os mais diversos disfarces acaba sempre nas costas do trabalhador entre elas, por óbvio, os custos da desastrada atuação do governo federal na pandemia. O Sindjor/MT vai acompanhar o desdobramento do Boletim de Ocorrência, no qual o assédio moral está amplamente comprovado com diversos meios.

Sindjor/MT gestão "em defesa do jornalista".

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Comentários (5)

  • Luiz Passos | Quarta-Feira, 30 de Setembro de 2020, 15h14
    1
    0

    Falar mal da jornalista agora é fácil. O difícil é esse Atila aí tentar se defender de assédio moral contra uma mulher e funcionários. Não é de hoje que ele vem praticando isso dentro do Crea a mando do João Valente, que destrata funcionário e todos sabem que 95% dos funcionários e conselheiros não querem ele como presidente e muito menos o Atila como superintendente. Agora vem emitir nota se vitimando , como se fosse o mocinho da história, ele não quer é perder a mamata no Crea e pra isso precisa perseguir , pressionar e assediar profissional. Essa gestão é rodeada de cobras e mal caráter. Chega todos precisam de respeito, fora essa atual gestão !

  • Julia | Terça-Feira, 29 de Setembro de 2020, 23h37
    0
    1

    Na moral, na sinceridade não tem nada demais nesse áudio. Infelizmente tem pessoas que acabam sendo influenciadas por outras pessoas. É momento de política e qualquer motivo vira argumento para atacar o adversário. Já teve tanta coisa pior nesse Conselho. Parece que as pessoas esquecem das coisas que são realmente graves como desvio de dinheiro e assédio realmente moral e até sexual.

  • Carlos | Terça-Feira, 29 de Setembro de 2020, 10h58
    3
    1

    Essa Cristina já passou da hora de sair do Crea, péssima de serviço, texto horríveis com português péssimo.

  • Jurandir | Terça-Feira, 29 de Setembro de 2020, 10h46
    6
    2

    Ouçam o áudio, e vão ver que não passa de um chefe orientando uma funcionária.

  • Flavio | Terça-Feira, 29 de Setembro de 2020, 05h52
    3
    5

    Parabéns pela coragem, Cristina. Quem conhece esse Conselho sabe muito bem o que vc está passando.

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