A RÚSSIA É AQUI

Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 08h:33 | Atualizado: 26/05/2018, 10h:18

Apartados, brasileiros e colonos russos se estranham na rotina e criam preconceitos


Enviado Especial à Colônia Russa, em Primavera do Leste

Gilberto Leite

A Rússia é aqui -

 Mesmo vivendo na zona rural, moradores costumam ir à cidade diariamente onde seriam vítimas de preconceito por parte de alguns que rejeitam cultura

Muitos estigmas e preconceitos são relacionados aos moradores da Colônia Russa em Mato Grosso, localizada na região rural de Primavera do Leste (a 241 quilômetros de Cuiabá). Entre os habitantes da cidade, são comuns comentários referentes à higiene pessoal, ao modo como tratam os brasileiros e à forma reclusa como vivem os descendentes de russos.

Gilberto Leite

A Rússia é aqui -

 Somos pessoas normais, garante jovem Felessata Kilin

Mesmo vivendo na zona rural, costumam ir à cidade diariamente onde seriam vítimas de preconceito por parte de algumas pessoas que não compreendem a cultura deles. Acreditam que por utilizarem roupas diferentes também são alvos de olhares de reprovação.  “Sempre tem algum tipo de comentário, seja por conta das nossas roupas, da barba ou pelo modo como falamos. Isso sempre existe, mas não sei o porquê”, diz o agricultor Larion Ovchinnikov, um dos líderes da colônia.

“As pessoas não percebem que nós também somos brasileiros, mas seguimos a cultura de nossos ancestrais. O pessoal acha que porque não casamos com outras pessoas, por não termos uma relação mais próxima com a cultura brasileira, não somos daqui. Somos corretos, mesmo tendo religião e costumes diferentes”, completa.

Desde a infância, a estudante Iulia Ovchinnikov percebeu que vivia em uma região diferente das demais do país. Para ela, no entanto, o fato nunca foi um problema. “Eu acho tudo isso normal, vivo aqui desde que nasci. Percebo que há muita diferença entre a minha colônia e o Brasil, principalmente no modo de se vestir e o modo que a gente vive”, observa.

Os moradores da colônia costumam se considerar mais russos que brasileiros, por seguirem as tradições dos ancestrais. Para eles, porém, tal fato não pode ser considerado um empecilho na relação interpessoal. “Nosso sangue é russo. Apesar disso, somos normais, como qualquer outro brasileiro, a única diferença é a nossa cultura”, assevera Felessata Kilin, 18 anos.

Para os moradores da colônia, as roupas que utilizam – as mulheres de vestidos longos e os homens com camisas de manga longa – estão entre os motivos que mais despertam a atenção dos brasileiros. “A gente usa roupa diferente, mas porque é a nossa cultura. Estamos acostumados a ser assim”, argunenta Iulia Ovchinnikov.

A dona de casa Vera Kuznetsov, 40 anos, que passou a infância em uma colônia em Mato Grosso do Sul, afirma que nunca teve preconceito com a cultura brasileira. “Para a gente, é normal. Mas para eles, nós somos diferentes, porque muitos nos olham torto”, lamenta. 

A higiene pessoal

Nosso sangue é russo. Apesar disso, somos normais, como qualquer outro brasileiro, a única diferença é a nossa cultura - destaca Felessata Kilin

Muita gente pensa que os descendentes russos seguem os costumes dos antigos, que tomavam poucos banhos na semana. “Tomamos mais de um banho por dia, como muitos brasileiros. O clima daqui é muito quente, não podemos tomar pouco banho como em regiões mais frias como a Rússia”, diz Felessata.

Em relação à higiene pessoal, um fato chama a atenção entre os costumes dos moradores da colônia: o banho da purificação. “É um banho na sauna a vapor, com algum tipo de essência, para purificar o corpo. É muito bom para a saúde”, diz Larion.

O banho da purificação é um ato da cultura dos descendentes. Por conta da tradição, grande parte das casas da colônia possui sauna em casa – 80% delas. “Sempre tomamos esse banho quando temos um feriado longo ou quando achamos necessário”, relata o agricultor Larion. Depois da sauna, entram no chuveiro ou na hidromassagem.

Preconceito com brasileiros

Se os descendentes russos reclamam de um lado, de outro moradores de Primavera do Leste afirmam que também sofrem preconceito. “Eles não deixam nem mesmo os brasileiros tomarem no mesmo copo. Quando alguém que não seja da cultura russa vai à casa deles, o que é difícil, só pode beber em copo de plástico”, conta uma moradora da cidade, que pediu para não ser identificada.

Larion, porém, afirma que diversos costumes da colônia acabam sendo interpretados de maneira equivocada por quem não compreende a cultura diferente. “Em casa, por exemplo, é comum cada um ter seus talheres, seus copos e pratos. Isso não tem nada a ver com o fato da pessoa ser brasileira ou não. É questão de higiene, porque compartilhar essas coisas pode ocasionar doenças”, justifica.

Para Dóris Emores, diretora da Escola Estadual Campo Massape, única unidade de ensino da colônia, os descendentes de russos não costumam ter preconceito com brasileiros. “Já houve preconceito [contra brasileiros], mas hoje não existe mais”, avalia.

Galeria: A Rússia é Aqui - Preconceitos

O futuro da colônia

Os moradores da colônia afirmam que o Governo da Rússia chegou a oferecer terras para descendentes interessados em retornarem ao país de origem. “Eles querem pessoas que trabalhem naquela região e sabem que nós somos trabalhadores. Representantes do governo russo já estiveram aqui e fizeram a proposta”, declara Larion.

A reportagem tentou contato com o Consulado da Rússia no Brasil, para verificar se a oferta procede. No entanto, não obteve respostas até o fechamento desta reportagem.

Este grupo de Primavera do Leste descende de russos que deixaram o país de origem durante a Revolução Russa, em 1917, quando foi proibida a manifestação religiosa. No entanto, a situação mudou no fim da década de 80. “O Estado Soviético caiu em 1989 e a União Soviética se estilhaçou. Desde então, a fé voltou a ser proferida publicamente, as igrejas voltaram a se manifestar e as religiões voltaram com muita força. Desde então, a religião ortodoxa continua sendo muito importante para o país”, relata o historiador Vitale Joanoni Neto, coordenador de pós-graduação em História da UFMT.

Diante da possibilidade de fazerem a migração inversa e voltar para casa, alguns descendentes demonstram interesse. “Eu já morei na Rússia por nove meses e depois passei outro período de férias. Talvez, com essa oportunidade, eu me mude para lá. Mas não sei se quero mesmo deixar o Brasil”, diz Felessata Kilin.

Outros, porém, declaram estar decididos: vão permanecer em Primavera do Leste. “Gosto muito daqui, porque é tranquilo. Além disso, prefiro o calor. A minha mãe disse que pensa em se mudar. Mas vou continuar aqui”, pontua Vera Kuznetsov, casada e mãe de quatro filhos.

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Comentários (5)

  • Júlio César da Costa Mattos | Segunda-Feira, 28 de Outubro de 2019, 16h35
    0
    0

    O racismo, a intolerância racial, é a pior desgraça no ser humano! A colonia aqui instalada, o povo produzindo, e ainda tem sacanas que ficam com essas graças. Tenho muita simpatia pelo povo Russo afinal, somos todos filhos de Deus...

  • MANOEL JOAO PINHEIRO DA SILVA | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 22h12
    3
    0

    Tenho um Trabalho desenvolvido pela UNINVEST sobre a ACULTURAÇÃO dos povos que para cá vieram: Haitianos, Angolanos, Guiné Bissau, Venezuelanos. Cada raça tem sua cultura, seus costumes, sua relegião. Um olhar sobre o empréstimo cultural desses povos em Cuiabá, que pode acontecer no decorrer do tempo. A colonia Russa em Mato grosso, está dentro desse olhar cultural. Parabens a voces da colonia por preservarem suas culturas.Professor Manoel Pinheiro.

  • Dalton Costa | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 16h24
    4
    0

    Sim!!! É verdade!!! O Governo Russo oferece terras a preços subsidiados para agricultores que desejem produzir alimentos.

  • Juliano Lobato Evangelista | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 10h53
    8
    3

    Nós precisamos aprender a conviver com a diversidade, seja ela sexual ou cultural. Temos mais pontos em comum do que diferenças uns com os outros, a começar pela necessidade de que Deus nos proteja, começando pela oração do Pai nosso todos proferimos da mesma forma: "...Pai... perdoai as minhas ofensas da mesma forma como eu perdoo quem me tem ofendido..."

  • Técnico Eduardo - S4N Brasil | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 09h20
    17
    0

    Estive na Colônia a serviço pela Seduc, fui muito bem acolhido e vi muitos alunos brasileiros da região chegando no ônibus escolar para a aula dentro da colônia, em sala todos unidos. Parabéns aos russos, convivem em paz e harmonia conosco, fazendo fomentar a economia da região.

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