O GUARDIÃO DOS ANCESTRAIS

Sexta-Feira, 21 de Junho de 2019, 08h:20 | Atualizado: 24/06/2019, 16h:48

Bisneto de escravos mantém terreiro de pau a pique e rejeita políticos - conheça


Enviados especiais à comunidade Mata Cavalo

Depois de uma viagem de aproximadamente 20 minutos de carro, por uma estrada de terra, é possível chegar a uma discreta porteira. Um pequeno pé de bananeira marca a entrada e serve como assentamento para o guardião espiritual que por ali habita. Adentra-se ao sítio São Benedito em meio ao Cerrado que predomina o quilombo Mata Cavalo de Cima. E, depois de percorrer uma estrada com menos de um quilômetro de distância, chega-se ao terreiro de Nezinho, que é conhecido por não cobrar nenhum real pelos atendimentos espirituais.

No meio do caminho, entre a porteira e casa do quilombola, um cruzeiro marca onde se inicia a procissão dedicada a São Benedito, cuja festa é celebrada anualmente pelo pai de santo entre 12 e 14 de julho. Antes de chegar ao terreiro, duas porteiras ainda separam o resto do quintal com o espaço sagrado.

José Medeiros

Terreiro feito de pau a pique, também conhecido como taipa de mão

Em meio ao silêncio do Cerrado, emergi um terreiro que guarda segredos e emana religiosidade. Local é feito de pau a pique e tem uma porta de madeira

Feito de pau a pique, com a parede de barro e o telhado de eternit, o terreiro tem uma porta de madeira. À sua frente, um cruzeiro, com as duas hastes amarradas com uma grossa corrente. Ali, espiritualmente, acredita-se, moram os pretos e pretas velhos que, quando vivos, foram escravizados. E, depois de mortos, trabalham em prol do aconselhamento dos vivos, na administração da cura e na concessão de bênçãos.

Sem janelas, o espaço é quente e tomado por uma leve penumbra. A ventilação vem pela única porta existente. No altar, a mesa onde estão as imagens do santos, destaca-se São Benedito ao centro, Nossa Senhora Aparecida à frente, acompanhada de uma imagem de preta-velha, que representa Vovó Catarina, a guia espiritual de Pai Nezinho, entre outras imagens.

José Medeiros

Maria José, diante da imagem de São Benedito, que é usada na festa realizada no quilombo

Maria José, diante da imagem de São Benedito, que é usada na festa realizada no quilombo Mata Cavalo. Santo é muito importante dentro da comunidade

No lado direito, duas pequenas mesas, uma com uma imagem de Pomba-Gira, uma vela preta acesa, e um copo com bebida servido à entidade. Em outra mesa, Zé Pelintra das almas também tem uma vela preta e vermelha queimada em sua homenagem e outro copo com bebida.

A frente do altar, uma bacia cheia de conchas, tem ao centro uma vela e é cheia de água. Ali está a força de Iemanjá, a rainha do mar, da sabedoria e uma das principais divindades africanas. Do lado esquerdo do templo diversos tocos de madeira, onde os pretos velhos costumam sentar, quando estão incorporados em seus aparelhos, nome dado comumente aos médiuns que trabalham em terreiros de Umbanda.

José Medeiros

Nezinho incorpora Vovó Catarina

Nezinho incorpora Vovó Catarina. Preta velha (entidade) diz ter sido Diana Larcan, a mãe carnal de São Benedito, que é muito popular na Baixada Cuiabana

O terreiro de Nezinho tem dois atabaques. O primeiro é usado cotidianamente nas giras, e serve para chamar os guias e dar ritmos aos pontos, que são rezas cantadas e entoadas pelos fieis ou pelos guias incorporados. Ao lado esquerdo da porta, outro tambor, com o couro já rasgado, é tão antigo quanto o terreiro. Aposentado de suas funções sagradas o antigo atabaque virou artigo de decoração. Ao seu lado, um segredo permanece tampado por um pano preto, e não pode ser visto pelos consulentes.

José Medeiros

Nezinho abre a gira no terreiro da comunidade Mata Cavalo

Nezinho pede proteção, faz preces e abre a gira no terreiro da comunidade Mata Cavalo

Antes de abrir a gira, Nezinho prepara tudo. Acende velas e incensos espalhados pelo terreiro de chão batido. A fumaça perfumada sobe e se espalha pelo ambiente, e se dispersam pelos inúmeros buracos espalhados no precário telhado, causados sabe-se lá por que sorte.

Abre-se a gira. Nezinho começa os trabalhos espirituais pedindo a proteção divina, reza a Deus e faz uma prece na qual entrega-lhe tudo, seu cansaço e seu vigor. Reza um pai-nosso seguido de uma ave-maria e começa a invocar a proteção dos anjos, canta uma música de Padre Marcelo Rossi, “Senhor põe teus anjos aqui”, e segue seu ritual invocando a proteção dos caboclos, dos espíritos da floresta, do grandioso pai Oxalá sincretizado com Jesus Cristo e de São Benedito, o grande padroeiro do terreiro.

Para saudar de forma mais profunda todo seu exército de deidades e protetores, prostra-se colocando a cabeça no chão. Levanta-se e continua a cantar. Enquanto saúda sua preta-velha, acontece a incorporação. Nezinho dá fortes solavancos com a cabeça e o corpo. Agora é vovó Catarina que governa o pai de santo. Ela toma seu assento, pega uma vela, encosta a chama nos dois antebraços do aparelho, demonstra que aquele corpo está imune da dor, pelo menos enquanto estiver sob seu domínio.

Vovó Catarina acende um cachimbo, pede um pouco de sua bebida, que beberica ora ou outra entre os atendimentos aos consulentes, em uma cuia feita de cabaça. Paciente, a preta velha atende a cada um que busca seu auxílio sem se preocupar com o tempo. Na maioria das vezes aconselha, conta histórias e ouve com atenção os que querem lhe pedir algo. Quando necessário ministra seus passes e começa a entoar um ponto, do qual se vale para a cura ou para repelir o mal. Ao médium, proibe de cobrar pelas consultas espirituais, aceitando apenas doações, mas que sejam dadas de coração e não porque foram pedidas. 

José Medeiros

Nezinho

José Medeiros

Arroz se torna ingrediente especial durante festa

Se falou que é político eu já falo logo que não tenho hora para atender

Pai Nezinho

Vovó Catarina fala abertamente que foi a mãe carnal de São Benedito, quando viveu na terra, e atrai atenção de todos pelo seu olhar compenetrado, que parece enxergar a alma dos que se aproximam dela.

O terreiro de Nezinho já foi alvo de ataques criminosos, sendo de um incêndio provocado. Herdado de seus antepassados, o espaço foi criado pelo bisavô Marcelino Paes de Barros, negro alforriado que fundou o Quilombo Mata Cavalo de Cima. Nezinho possui 120 filhos de santo, a quem chama de afilhados, espalhados por Cuiabá, Várzea Grande e Acre.

Todos os dias, Nezinho atende aos consulentes em seu terreiro, principalmente, fazendeiros e garimpeiros da região. Só tem um único tipo de consulta que ele não faz, a políticos que querem fazer mandingas para ganhar eleições. “É o único tipo de gente que não aceito no meu terreiro. Se falou que é político eu já falo logo que não tenho hora para atender. Se quiser ganhar eleição tem que ser por caráter, honestidade e serviço prestado”.

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Comentários (5)

  • Josieli Araújo Rodrigues | Sábado, 22 de Junho de 2019, 11h25
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    Parabéns a toda equipe pela reportagem. Em dias como estes, é tão maravilhoso ler uma reportagem como está, que nos mostra o quanto nossa cultura é rica de ensinamentos e sabedoria e que devemos respeitar o outro na sua diferença.

  • Paulo | Sábado, 22 de Junho de 2019, 09h26
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    Estranho !!! Político é oque deveria atender caso ele próprio acredita em cura espiritual , Oque mais precisam de ajuda são os que nos governa . (Principmente para livra da corrupção) Deveria tirar esse pré conceito sobre político.

  • Orlandir Cavalcante | Sexta-Feira, 21 de Junho de 2019, 18h24
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    Maravilhoso registro. Salvei a reportagem. Parabéns RDNews

  • Elzimar | Sexta-Feira, 21 de Junho de 2019, 10h02
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    Amei saber que além das tradições serem mantidas, o caráter é digno de aplauso!

  • Ribeirão | Sexta-Feira, 21 de Junho de 2019, 09h22
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    Que tríade maravilhosa: o personagem, o texto e as fotos. Parabéns ao RD pela produção jornalística, tão rara nesses nossos tempos. (ah, o comentário vale também para as outras matérias).

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