SANTUÁRIO DOS ELEFANTES, DO SONHO À REALIDADE

Sexta-Feira, 17 de Agosto de 2018, 08h:11 | Atualizado: 17/08/2018, 09h:00

Primeiras moradoras

Maia e Guida estão recuperadas e mais 8 elefantes já esperam na fila - veja fotos


Enviada especial ao Santuário dos Elefantes

Gilberto Leite

Santuário dos Elefantes

Veterinária Laura Paolillo largou tudo no Rio, onde atuava com animais de estimação, para abraçar a causa dos elefantes, que adoram brincar no jato de água

O que parecia ser uma ideia absurda, o Santuário dos Elefantes, em Chapada dos Guimarães – único da América Latina – já vai completar 2 anos de existência. As duas primeiras moradoras – Maia e Guida – estão saudáveis, totalmente recuperadas física e emocionalmente. Outros 8 animais aguardam na fila de espera no Chile e na Argentina.

A proposta da reserva, que fica a 110 Km de Cuiabá , é servir de morada a quem sofreu maus tratos a vida toda em circos e zoológicos e agora pode curtir a natureza, com cuidados, afeto e respeito.

A equipe do visitou o santuário para verificar como é a vida no local exótico.

Galeria: A vida no Santuário dos Elefantes

Maia e Guida chegaram de Minas Gerais deprimidas, em 11 de outubro de 2016. Viajaram mais de 48 horas. A princípio, apresentavam comportamento irregular, não vociferavam, se irritavam uma com a outra. Mas hoje em dia é só alegria. Voltaram a se comunicar, se alimentam muito bem, passeiam pelo cerrado - entre plantas, animais silvestres e riachos - e convivem como amigas. O que elas mais gostam de fazer é comer e brincar com jato de água.

Gilberto Leite

Santuário dos Elefantes

Norte-americano Scott Blais mora e cuida da reserva e se diz feliz com resultado do projeto

Feliz com o trabalho concretizado até agora, o norte-americano Scott Blais, 45 anos, responsável pelo santuário, afirma que não deve demorar muito para que Ramba, a próxima moradora, seja trazida do Chile. Está tudo ok, segundo ele. "Único problema é a burocracia brasileira que está atrasando a transferência", reclama.

Assim que a licença sair, ela vem de avião do Chile até Brasília – que função! - e da Capital seguirá por chão em conteiners gigantes até a Chapada, a exemplo do que aconteceu com Maia e Guida, que também viajaram em caixotes próprios para agüentar toneladas.

Cada uma dessas elefantas quarentonas, de 40 a 42 anos aproximadamente, pesam algo em torno de 3,2 toneladas.

Como o elefante vive aproximadamente 70 anos – tempo de vida muito parecido com o do ser humano – as duas ainda têm muito para aproveitar na nova realidade.

Pocha

A mãe Pocha mora com parceiro, Tamy, e a filhote, Guilhermina, em um fosso acimentado

Na fila de espera, além de Ramba, há animais em condições difíceis. Entre eles, uma família inteira - com pai, mãe e filhote em Mendoza, na Argentina. Os três - Tamy (macho asiático), Pocha (mãe) e Guilhermina (filha) - são mantidos em um fosso acimentado. A filhote só conhece esta realidade, nasceu e cresceu ali. Quando chegar ao santuário, terá o primeiro contato com a natureza.

Kenya

Kanya vive na solidão de uma jaula

Também em Mendonza aguarda Kenya, uma fêmea africana, de 32 anos. Ele vive sozinha, em uma jaula, e na parede tem a pintura de um elefante, sua única companhia. "As fotos são de partir o coração", lamenta a assistente administrativo do santuário, Cassia Motta.

Rotina

A bióloga Heivanice Sehn, de Guarantã do Norte, explica que Maia e Guida comem feno, palmeiras, capim, plantas, arbustos e árvores. No café da manhã e na janta, o cardápio é mingau de aveia, com farelo de arroz, com todos os aditivos suplementares. Tudo isso vira uma pasta, com melaço de cana. As duas não dispensam também frutas – inclusive as nativas como pitomba e graviola silvestes. Não gostam de pequi. Já  legumes e raízes amam. Comem muito, o dia todo. É brincadeira recorrente no santuário de que não é fácil manter o corpinho de toneladas delas.

O que importa não sou eu e não é ninguém, apenas elas

Médica veterinária Laura Paolilo

Apaixonada pelo projeto, Heivanice se supreende a cada dia com a afetividade, inteligência e a memória das elefantas. Se fosse aproximar a conduta delas com a de um animal caseiro, seria à do cachorro.

Assessora administrativa, Cassia Motta, de Cuiabá, ressalta que é altíssima a capacidade de comunicação destes animais, que eles vociferam (berram), chiam (emitem canto em tom agudo), trombeteiam (emitem som similar ao de uma trombeta), roncam e ainda usam sinais.

A veterinária Laura Paolillo, do Rio de Janeiro, largou tudo por lá e veio viver essa aventura cheia de responsabilidade. Ela acompanha a saúde da dupla exótica semanalmente. Está totalmente envolvida com o projeto pelo qual se encantou. Com o marido, mudaram-se para Chapada, onde trabalham duro pelo bem estar das elefantas. "O que importa não sou eu e não é ninguém, apenas elas". 

História

Scott explica que, em 2010, teve contato pela primeira vez com os idealizadores deste projeto mas trabalhando em um santurário no Tennessee, nos Estados Unidos. Respondeu que não teria tempo e aqui também não tinha ninguém com experiência na área.

Em 2012, a ONG Elephant Voices pediu a ele um estudo da viabilidade e estava muito difícil conseguir recursos para elaborá-lo. “Só um ano depois fundamos a nossa organização, a Global Elephants, especializada em animais em cativeiros, e nos juntamos à Elephant Voices, que atua com animais na natureza”, explica.

Com o estudo, avaliaram que a legislação brasileira é progressista e o clima propício. Depois disso, iniciaram uma campanha de procura pela área, de arrecadação de dinheiro – sim, porque o projeto sobrevive com ajuda de pessoas que abraçaram a causa no mundo todo – e também de estruturação do santuário para receber os primeiros moradores.

O que era um sonho exótico virou realidade, com possibilidade de ampliação.

No mundo

Este santuário da Chapada é o primeiro da América Latina. Hoje existem três nos EUA, um está sendo construído na França e será o primeiro da Europa. Na Ásia existem outros dois.

Na América do Sul existem aproximadamente 50 elefantes vivendo em cativeiro e, destes, estima-se que 35 estejam no Brasil.

No mundo todo, atualmente mais de 10 mil elefantes vivem em cativeiro, a grande maioria na Ásia e aproximadamente 600 na Europa. Apenas 150 destes elefantes cativos vivem em verdadeiros santuários, ou seja, locais estruturados para tal.

 

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Comentários (8)

  • Cassia Motta | Domingo, 19 de Agosto de 2018, 16h52
    3
    0

    Olá, Jandira. É verdade, os elefantes cativos no Brasil teriam uma grande melhoria de vida se pudessem se mudar para o Santuário. Mas entenda, no caso da Argentina e do Chile, foram os próprios zoológicos que abriram mão dos elefantes e nos pediram para recebê-los, ou então houve intervenção através de órgãos como o nosso Ministério Público que confiscou os animais e exigiu melhores condições para eles (foi assim com Maia e Guida, elas moravam em Minas Gerais antes de se mudarem para o SEB). Em ambos os casos, se trata de uma mudança de consciência em relação ao que esses elefantes merecem e precisam. Esperamos que com o Santuário no Brasil, a população e as organizações daqui também percebam que depende deles garantir um futuro melhor para os animais. Através do nosso trabalho, tornamos essa alternativa possível com a construção de um espaço adequado. Que possamos seguir o belo exemplo que nossa vizinha Argentina está dando ao querer enviar seus elefantes cativos para um santuário.

  • Jandira Pedrollo | Sábado, 18 de Agosto de 2018, 13h49
    2
    0

    No Brasil há elefantes em situação degradante. Porque não tentar resgatar os que são de nossa responsabilidade? Vi um no zoológico de Ribeirão preto que me deixou angustiada com a situação do pobre animal.

  • Benedita da Silva | Sábado, 18 de Agosto de 2018, 11h31
    5
    0

    Muito obrigada Cássia, o cerrado como dizia Cléber Alho em 1995 no artigo de grão em grão o cerrado perde espaço, já apontava para a fragmentação do bioma. A licença poética aceitável, deturpa a imagem, do cerrado, por isso minha considerações a respeito de transposição de savana africana como se fosse cerrado. Quando pergunto a respeito da capacidade da área me refiro a fragilidade do solo, pois o pisoteio de gado e trânsito humano já causaram muitas voçorocas na região, os trilheiros de cachoeira conhecem bem a situação. Espero que mais exemplares, sejam asiáticos, sejam africanos possam ter uma vida digna neste local.

  • Gilmar | Sábado, 18 de Agosto de 2018, 09h27
    5
    2

    Parabéns pelo projeto, os animais merecem.

  • Henrique Lopes | Sábado, 18 de Agosto de 2018, 08h34
    1
    8

    Interessante mas se não puder ser visitado pela população é um desperdício para a região. Muitas crianças poderiam estar se alegrando e levando histórias para toda a bida de contato com animais inexisrentes na nossa fauna. Desenvolvendo respeito pelos animais. Uma idéia apenas.

  • Luiz | Sexta-Feira, 17 de Agosto de 2018, 21h01
    8
    2

    Belas imagens. Eu acredito que, apesar da discussão quanto a animais exóticos em ambiente ao qual não pertencem ser constante, a equipe toda é ecologicamente responsável, e alem do que a área é limitada; o que me preocupa mesmo- em se tratando da nossa vegetação é o avanço da monocultura da soja sobre Chapada- isso sim afeta nosso ecossistema.

  • Cassia Motta | Sexta-Feira, 17 de Agosto de 2018, 17h52
    9
    1

    Olá, Benedita. Trabalho no Santuário e acredito poder sanar suas dúvidas. Depois de totalmente cercada, a área poderia abrigar mais de 50 elefantes com o plano de manejo do projeto. Esse número já representaria uma densidade populacional bem baixa para os 1.100 hectares, não causando impacto negativo. Porém acreditamos, mesmo em nossas previsões mais otimistas, que o S.E.B. nunca abrigará mais de 25 elefantes ao mesmo tempo. Isso porque resgatá-los não depende só de nós, outras organizações que possuem a guarda dos animais precisam querer enviá-los para o Santuário. Sobre o "lugar exótico" na reportagem, acredito ter sido licença poética da jornalista, se referindo mais à presença dos elefantes no local e ao estilo de vida dos funcionários lá. E ah, Maia e Guida são da espécie asiática, não da africana. :)

  • Benedita da Silva | Sexta-Feira, 17 de Agosto de 2018, 11h02
    5
    8

    Salvo engano a vegetação do local é cerrado, bioma brasileiro, não importaram árvores da África. Os elefantes , são exóticos pois não são da fauna brasileira, mas o lugar não! Um pouco mais de cuidado e uma busca no Dr Google não fazem mal a ninguém, pior é qualificar o lugar de exótico, como se fosse um pedaço da savana africana no centro oeste. Uma pergunta não respondida, quantos animais esta área suporta?

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