SINOP - AVANÇOS E PROBLEMAS

Sexta-Feira, 14 de Fevereiro de 2014, 00h:08 | Atualizado: 21/02/2014, 08h:16

A "Grande Sinop"

Tudo no Nortão gira em torno de Sinop, mas, na saúde, é um mero satélite de Colíder e Sorriso

emerson artigo

 Médico Emerson Ribeiro

Guardadas as proporções e em termos de distâncias geográficas, a "Grande Sinop" é maior que a "Grande São Paulo", se aceitarmos o emprego dessa metonímia para designar cidades que atraem diariamente pessoas de grandes distâncias para a execução de suas necessidades. O comércio de Sinop, suas estradas, suas oportunidades de emprego, os vastos recursos em medicina (ninguém mais sabe onde fica Guiratinga nem Mineiros), as escolas e universidades, órgãos públicos federais e as sedes de órgãos de classe, tudo isso faz de Sinop um fenômeno tal como o que ocorreu em Ribeirão Preto nos anos 20 e 30, em Londrina nos 50 e 60, e que neste novo milênio só acontece aqui.

Já há quase 20 anos todo o imenso norte do Mato Grosso faz de Sinop sua capital funcional. Há muito tempo também, os hotéis da cidade registram cada vez mais a presença diária de gente do Pará.

Desde os anos 90, bem antes de Cuiabá torna-se o caos urbano de agora já era evidente o fato paradoxal de pessoas moradoras ao sul do Paralelo 14 (mais próximo de Cuiabá do que de Sinop), servirem-se desta cidade para as mais variadas atividades. Isso aumentou com a consolidação asfáltica da transversal BR-364, e a consequente aproximação de viajantes e comerciantes do sul rondoniense e do velho oeste do Mato Grosso. E por último um fenômeno bem mais recente: antes mesmo da conclusão do asfalto da BR-163, mas já plenamente viável a Cuiabá-Santarém, a rodovia faz aparecer em Sinop todos os dias gente vinda de 1.200 km de distância em nossas lojas, hotéis, táxis e hospitais e também no aeroporto. Ou seja, até mesmo Santarém e todas as cidades das regiões centrais do Pará já esboçam relações cada vez mais frequentes com Sinop, já que sua capital é tão distante quanto nós, que não temos um oceano doce a ser atravessado.

O povoadinho do “capitão” Ulich Graebert, criado pelos saudosos Ênio Pipino e João Pedro de Carvalho, fundado em 1974, era a sede da chamada Gleba Celeste. Mas com apenas dois anos de fundação a intrépida vila já ganhou o status oficial de Distrito de Chapada, o então maior município do mundo. Mas a sofreguidão continuou acelerada, até que o jovem Distrito apenas três anos mais tarde (na mesma década) tornou-se Município do Mato Grosso. Não existe paralelo na história do Brasil, de nenhuma outra cidade criada do nada no meio do mato, passar de povoado a distrito e de distrito a município em cinco anos.

Esse ritmo nunca parou. As pessoas que vivem essa efervescência desde o começo costumam aquilatar a contínua voragem do sorvedouro migratório sinopense em termos matemáticos, em fórmula de fácil cálculo de memória: dez por cento anuais. Pois, não somente a população, mas outros indicadores como as arrecadações públicas, crescimento empresarial, construção civil, escolas, etc., tudo cresce desde o começo a taxas alarmantes de aproximadamente 10% ao ano.

Agora, a cidade já tão grande, está apresentando problemas de cidade de crescimento descontrolado. O trânsito de automóveis em certas horas do dia é parado nas regiões centrais, e não há nenhum estádio em construção por aqui. Quase todos os prefeitos agiram amadoristicamente, sucederam-se sem deixar instituições ou estruturas previdentes, mesmo com esse crescimento chinês. A saúde pública, tema principal das últimas duas campanhas políticas, tem a história mais caótica possível, pois imaginem que Sinop foi a última cidade do Brasil a municipalizar a saúde, a criar uma Secretaria Municipal e a aderir ao SUS, isto porque o prefeito era médico, devia lá ter suas razões...

A história do Consórcio Regional de Saúde de Sorriso prende-se umbilicalmente à teimosia sinopense em não aderir aos novos tempos da saúde pública. Sorriso não perdeu a oportunidade. Hoje em dia tudo no Nortão do Mato Grosso gira em torno de Sinop, como dito acima, mas em matéria de saúde pública Sinop é mero satélite, ora de Colíder, ora de Sorriso.

Apesar disso a cidade tem uma eloquente demonstração de seu poderio político-eleitoral: detém ¼ da bancada federal do Estado: são dois deputados federais, um dos quais ex-prefeito, o único ex-prefeito ainda atuante na política, que conseguiu deixar a prefeitura mantendo-se significativamente bem considerado pela população. Precisamos sair da fase do amadorismo político e do populismo eleitoreiro. Percebo que estamos à beira de uma emergência político-existencial: a cidade tem dado inequívocos sinais de estafa em setores cruciais para o desenvolvimento, como logística, segurança e saúde, e isso é trabalho para estadista, não para carreirista.

Emerson Ribeiro é médico cardiologista em Sinop

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Comentários (6)

  • Mara Hatmann | Quarta-Feira, 26 de Fevereiro de 2014, 11h38
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    Conheci SINOP poucos anos após sua fundação e estive lá umas dez vezes, acho. A última, em 2010. Não tenho, portanto, condições de opinar validamente, sobre a questão urbanística e os problemas dela decorrentes. Mas quero fazer duas avaliações. A primeira é quanto ao texto: bem escrito, ordenado e agradável à leitura. Compreendi perfeitamente a comparação com São Paulo. É uma comparação que remete à reflexão, nada mais (creio que foi essa a intenção do autor). Qualquer interpretação "literal" é canhestra, bisonha, por um sem número de razões, que só quem tem o hábito da leitura e interpretação de textos compreenderia. A segunda (avaliação) é dos comentários. Razão assiste a Mariana Rodrigues e Paulo. Eles entenderam "o espírito da coisa". Os outros comentários são simplistas. Alguns deselegantes e sem qualquer fundamento que os tornasse dignos de algum valor. Veja-se, por exemplo este: "Problemas de trânsito, logística, saúde e segurança? Isso é conversa para cidade grande e com problemas de super-população." É, ou não, um comentário tabaréu? Outro deles, é passional (passionalíssimo). Parece ter partido de alguém despeitado. Outro, ainda, dá a impressão de ter sido feito por alguém alcoolizado, ou doidão... posto que nem mesmo a urbanidade que se deve buscar neste meio (tão exposto ao público) foi observada. Mas democracia é isso... poder falar o pensa.... De resto, parabéns ao autor. E, ainda que mais não seja, pela iniciativa de se preocupar com o futuro de sua cidade.

  • Mariana Rodrigues | Sábado, 15 de Fevereiro de 2014, 23h43
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    Desagradável e grosseiro o comentário do contador Gilmar Maldonado Roman. Primeiro que a comparação entre "Grande Sinop" e "Grande São Paulo" foi feita com ressalvas, então, acho que o nobre contador deveria voltar pra escola e assistir e aulas de interpretação de texto "antes de escrever besteiras". E quanto à cidade de Sinop é surpreendente ver o quanto cresceu em poucos anos em comparação a outras cidades centenárias, essas sim, estagnadas. E, finalmente, quanto ao texto só tenho a dizer PARABÉNS ao Dr. Emerson Ribeiro, por desenvolver um texto simples e eloquente.

  • Thiago | Sexta-Feira, 14 de Fevereiro de 2014, 18h34
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    O cara parou no tempo ao falar certas coisas de Sinop. Sinop foi tudo isso que ele falou, mas já tem alguns anos que não é mais. Não sei por qual motivo (os políticos, é claro), mas perdeu os posto de "queridinha do Norte" há muito tempo. Pelo menos ao final ele reconheceu algumas coisas que vem fazendo essa importante cidade de MT estar sofrendo tanto. Não pode uma cidade com o potencial de Sinop viver problemas como se fosse uma cidade grande (como SP). Problemas de trânsito, logística, saúde e segurança? Isso é conversa para cidade grande e com problemas de super-população. Sinop não tem 150 mil habitantes, não pode (poderia) estar passando por esses problemas. Ainda há tempo para reorganizar a coisa, pois quando a cidade crescer mesmo será bem pior!

  • Moreira | Sexta-Feira, 14 de Fevereiro de 2014, 11h28
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    Acho que esse camarada está doente, ou vivendo no mundo mágico de Bob. Cada comentário, santa paciência.

  • Paulo | Sexta-Feira, 14 de Fevereiro de 2014, 09h24
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    Muito bom o artigo. Pena que os políticos ignoram essas observações e continuam agindo na "carreira" e se esquecem das gerações seguintes. Lamentável. Parabéns ao dr. autor dessa matéria.

  • Josué Silva Nardes | Sexta-Feira, 14 de Fevereiro de 2014, 08h52
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    Qua qua qua qua qua....esse médico é louco!!!! Comparar Sinop com São Paulo (a maior metrópole da América do Sul) é um devaneio. Sinop não passa de uma cidade em desenvolvimento e que já já vai estagnar, pois não tem projetos para instalação de grandes indústrias (digo indústria de verdade, como fábrica de carros, tecelagem, um frigorífico de uma multinacional como tem em Lucas do Rio Verde, fábricas de sapatos, etc). Doutor, eu também moro em Sinop, e posso afirmar que o senhor está delirando...

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