VELHO OESTE PANTANEIRO

Sexta-Feira, 07 de Setembro de 2018, 07h:47 | Atualizado: 07/09/2018, 23h:28

LAGUNA DE LOS XARAYES

Relatos citam indígenas gigantes, menina que atraía borboletas e modo de vida veja


Enviada especial a Cáceres

Rodinei Crescêncio

Especial Cáceres

Crânio de mais de mil anos encontrado na região de Índio Grande, no Velho Oeste de MT, em pleno Pantanal

Laguna de los Xarayes foi como espanhóis chamaram no século XVIII a maior área alagada do mundo. Em uma época que ainda não nomeavam essas redondezas de América, nem demarcavam limites precisos, era um lugar que atraía viajantes enviados do mundo todo. Curiosos e ludibriados com uma região bela e totalmente nova, mas bastante perigosa.

Por meio de crônicas, os aventureiros relataram uma mistura de fantasia e realidade. Com a descrição da geografia ainda indomada, uma dualidade que era ora paradisíaca e outra inabitável, cheia de mistérios, misticismo e uma natureza em constante mutação.

A disputa territorial entre Espanha e Portugal durou muito tempo, e permeou diversas estratégias políticas, mas deixou resquícios sobre homens indígenas, como gigantes que nela habitavam ou sobre um sujeito possuído pela idéia de montar uma ópera no coração da selva, e, ainda, uma menina que só com seu pensamento atraía milhares de borboletas pelos vales.

Rodinei Crescêncio

Especial C�ceres

Historiadora Marli Almeida, da Unemat, fala sobre achados arqueológicos, mostra pedras utiizadas para diversas funções, sendo uma delas caçar onça

No livro História de um País Inexistente, publicado em 1999, escrito pela pesquisadora Maria de Fátima Gomes Costa, foram reunidas algumas destas crônicas. Ao manusear um crânio indígena de pelo menos mil anos, a historiadora Marli Auxiliadora de Almeida cita o livro como referência e, ainda relata que o que hoje são as áreas urbanas ou fazendas na região da grande Cáceres, são também sítios arqueológicos de diferentes grupos indígenas que residiram na Laguna de los Xarayes, que com o tempo passou a ser o rio Paraguai espraiado no Pantanal. “Mandavam pessoas para expedições científicas e elas descreviam tudo. Um destes cronistas era um espanhol conhecido como Cabeça de Vaca”, conta Marli.  

Galeria: Indígenas gigantes e outros achados arquológicos

Vestígios de indígenas às margens do Paraguai

Além do crânio, outros ossos e alguns utensílios domésticos indígenas fazem parte do acervo do Centro de Pesquisa e Museu de Antropologia, Etnografia, Arqueologia, Paleontologia e Espeleologia de Cáceres na Universidade de Mato Grosso. As pedras, em diferentes formatos, em sua maioria eram utilizadas para preparação de alimentos ou para caça. As “machadinhas” serviam para lixar folhas ou cortar peixes, e as que a reportagem teve acesso foram encontradas no rio Sepotuba, que fica entre Cáceres e Barra do Bugres.

A maioria dos objetos ou ossos encontrados, normalmente, estão próximos aos barrancos do rio. Os indígenas tinham uma conexão única com as águas, tanto para pesca e preparação dos alimentos quanto para rituais e deixaram restos dos seus ancestrais. Apesar dos sítios não se limitarem aos barrancos dos rios, muito do que os pesquisadores tem acesso surgiu destas áreas.

O objeto achatado e menos liso possivelmente é o mais antigo. O mais áspero tem a mesma utilidade, mas foi aperfeiçoado com o tempo. A pedra redonda normalmente era usada para caça, inclusive de onça, e nela enrolavam um cipó nesta pedra para arremessá-la com força nos animais. “Esses grupos não se alimentavam da carne deste animal, mas abatiam até onça que é o animal mais feroz do pantanal para rituais funerários. Depois do ritual que chegava a completar três meses, usavam os dentes e a pele para colares e outros adereços representativos”, completa a historiadora.

As populações indígenas usavam o que tinha na natureza para viver e se alimentar. “No período de auge da fazenda Jacobina os indígenas na região do Pantanal migravam bastante, e havia uma tentativa dos moradores da fazenda em aldeá-los, mas estes grupos eram nômades por conta do bioma”, relata.

Os indígenas no Pantanal não podiam fixar morada, pois as áreas se alagavam em diferentes tempo do ano. Por isso, era comum para região eles não ficarem em um único local. No período de colonização, alguns grupos, para não serem extintos aceitaram esse aldeamento, mas outros resistiram o quanto puderam e isso gerou grande estresse.

O principal alimento era o peixe. Os peixes eram descamados, abertos, lavados na água do rio e pendurados para secarem no sol. Depois levados ao “moquém”, que era um espeto sobre um braseiro para assar carne. Além do peixe, era comum a preparação da farinha de mandioca, que também era usada para massa de beiju, bolos ou outras misturas trituradas em pilões. Mata adentro a dieta alimentar era também alguns animais caçados, frutos, raízes moles ou miolos de troncos, como os palmitos.

Grupos indígenas, os descendentes e os extintos

Segundo a pesquisadora, o primeiro tema da Revista Instituto Histórico Brasileiro, fundada em 1838, foi sobre os indígenas Guaicurus. Este grupo ganhou notoriedade por ser resistente e utilizar cavalos na migração. Ao fugir da colonização na região norte do Paraguai, vieram para o Oeste brasileiro.

“A fronteira do Brasil não estava definida, ela se define no que hoje conhecemos por Mato Grosso, que é divisa com o que se tornou Bolívia e Paraguai. A revista veio para cartografar e conhecer o Brasil e a sua geografia”, afirma Marli.

Naquele período também era comum a presença dos viajantes desenhistas ou riscadores, profissões que se dividiram em botânica, historiória ou o arqueólogia. “Hércules Florence foi um dos que vieram fazer todo o levantamento da paisagem nesta região no início do século XIX, e nela estava inserida os homens e os animais. Ele fez um inventário sobre a botânica do Pantanal belíssima. Florence, apesar de ser francês, veio em uma expedição Russa enviada proprietários de capital. Queriam conhecer a America”, conta.

Em diferentes períodos históricos o processo de consolidação da região de Cáceres, boa parte do tempo, foi habitada majoritariamente por indígenas. Índios que atravessaram a fronteira como os Guaicurus ou os Chiquetanos, mas que também tinha os nativos Bororos e outras etnias. Só em Mato Grosso, 33 grupos dos grupos existentes são descendentes dos primeiros povos que residiram nestas terras. Quando os colonizadores chegaram no século XVIII, 10 mil indígenas da etnia Bororo próximos a região da Baixada Cuiabana.

Ao avaliar os riscos traçados pelo cronista e desenhista Hercules Florence, ela relatou que, neste ambiente, estava incluso o homem, o animal e a natureza. Ao observar os traços do que ele fez do homem, se observar, é como olhar uma figura cotidiana e atual da cidade. ”Ao olhar a figura cotidiana a sensação é de estar vendo os riscos feitos naquela época por. Ele também desenhou a população de Cáceres e é como ver alguns desses descendentes também nos antigos moradores. Na época as etnias tiveram este no contato ou trabalharam para os colonizadores e fazendeiros, foram generalizadas, começaram a ser chamados de bugres”, explica.

Florence, que a historiadora menciona, fez a expedição e descreveu a viagem com sucesso, mas enlouqueceu. “Muitos ficaram doentes, e ele ficou abatido. Haviam também muitos mosquitos na região e os índios estavam habituados ao bioma e clima, mas os europeus não”, salienta.

Em 20 anos alguns jovens saíram da não alfabetização para escolarização formal, para cursos de graduação e pós-graduação. "Neste processo eles conhecem a educação formal e, depois voltam para suas escolas e aldeias mais convictos ainda de que precisam fortalecer suas culturas. Tanto que a maioria dos trabalhos desses indígenas é sobre a história do povo, o que pode ser como forma também de firmar posição”, completa.

Estresse de migração forçada e sítios arqueológicos espalhados na região

Pantanal é sinônimo de alagamento, e tempo depois, período de seca. Para a historiadora, há quem reclame que indígenas ocupem muito terra, mas isso também é que por conta das características do bioma, eles serem nômades. “Para eles, terra é para se usufruir e não apenas para morar”, comenta.

Houve um tempo em que, para não serem extintos, os indígenas cederam de algumas formas aos colonizadores. Alguns grupos aceitaram o aldeamento, outros passaram a mostrar como lavorar as terras, e mais alguns serviram de estratégia em zonas de potencial conflito nas invasões de territórios ou guerras em diferentes momentos históricos. “Possivelmente, onde encontramos muitos ossos, sítios arqueológicos, indígenas morreram ao entrar em confronto nessas batalhas. Eles conheciam bem as terras, mas nenhuma arma artesanal se compara a pólvora. Eles eram postos nessas regiões intencionalmente para servir de bloqueio ou cordão humano”, explica.

Alguns dos sítios arqueológicos estão da fazenda Descalvados e na Barranco Vermelho. Outra pontuação de Marli é que nos relatos dos cronistas europeus, uma forma de domínio era o batismo forçado de populações indígenas, entre outras violências cometidas. “O fato deles terem este contato não significa que eles deixaram de ser indígenas, alguns nas aldeias e outros nos centros urbanos”, reforça.

Ossos de pelo menos mil anos

O crânio exibido pela historiadora foi encontrado em uma espécie de cemitério indígena, no Sítio Arqueológico Índio Grande, que fica localizado na fazenda Descalvados, a 150 km de Cáceres. Possivelmente, o crânio foi de um membro da etnia Xarayes. Não existem mais descendentes dessa etnia, entre as possibilidades, é que eles tenham se agrupado aos índios de etnia Guatós e Chiquetanos durante a colonização.

Os Xarayes viveram entre os anos de 800 a 1.800 DC, e foi por conta deles que a os primeiros exploradores espanhóis que chegaram à região no século XVI, por isso nomearam o Pantanal de Laguna de los Xarayes, pois os distinguiam como os donos do rio. Os ossos encontrados estavam dentro de peças de cerâmica às margens do rio Paraguai. Por conta da sedimentação, as paredes do barranco caíram e os objetos apareceram. 

Apesar de ser conhecido desde os anos 90, as pesquisas foram realizadas nos Sítios Arqueológicos Índio Grande, em 2012. Além da área ser um cemitério, havia um grande número de mulheres e crianças enterradas no local, diferentes tipos de adornos e ossos de animais, o que indica diversos tipos de rituais e grupos nas cerimônias.

Em análise, os ossos encontrados no local demonstram sinais de anemia, bico de papagaio e estresse. Que, segundo uma das pesquisas, podem ter sido causados pelos freqüentes deslocamento dos índios em busca de água e regiões para viverem de forma adequada.

Rodinei Crescêncio

especial Cáceres

Rio Paraguai é elo de ligação entre as culturas locais e era fonte de vida dos povos  indígenas em seus mais diversos afazeres, cerimônias e significados

Paraguai é elo

Antes mesmo de receber navegações de todas as partes do mundo, o rio Paraguai era fonte de vida das populações indígenas em seus mais diversos afazeres, cerimônias e significados.

Com o tempo e a efervescência industrial da região, tomou maiores proporções, levou muitas riquezas e entregou ao município de Cáceres e seus arredores influências de diferentes países de continentes da Europa, Ásia e África. No centro histórico da charmosa cidade é possível notar nos detalhes da arquitetura, como janelas, portas e vitrais.

Além destes, instrumentos musicais ou objetos que compõe mercados, museus, lojas que em algum momento histórico colecionaram adereços diversos. Isso, segundo o historiador Domingos Sávio, é o que é perceptível visualmente, mas em âmbitos culturais as influências são diversas e imensuráveis. “O rio tem um encanto místico e lúdico sobre a população que o cerca, pois foi palco para diferentes momentos e influencias vindas de todos os lugares, então o carinho por ele também acaba sendo algo popular e incomum entre a maioria das pessoas”, salienta.

Segundo a bióloga Alessandra Aparecida Tavares, existem projetos para a conservação das nascentes e sangradouros do rio, ao mencionar o Ações Participativas, que é realizado em Cáceres junto a comunidade. “Ele foi idealizado pelas professoras da escola municipal Duque de Caxias e em parceria com o curso de Ciências Biológicas de Cáceres da Universidade de Cáceres. Foi firmado o pacto de compromisso com entidades públicas e sociedade civil organizada. O objetivo desse trabalho é que possamos promover a mobilização e desenvolver ações participativas de recuperação da área de preservação permanente das nascentes do córrego Sangradouro e assim garantir a qualidade e disponibilidade da água do manancial”, explica.

O córrego que é realizado o projeto é um afluente do rio Paraguai, e algumas nascentes estão localizadas na área.

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