Últimas

Domingo, 25 de Fevereiro de 2007, 10h:56 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A fábrica de Frankensteins

   A escritora Lya Luft, em Veja desta semana, considera que a Justiça está vendada. "Talvez ela (Justiça) nem queira ver em que sociedade doente estamos nos transformando". Confira o artigo reproduzido abaixo

 

    Filha de fundador, professor e diretor de uma faculdade de direito, cedo percebi que a Senhora Justiça, se vendada para ser imparcial, por vendada nem sempre enxerga bem. Talvez ela nem queira ver em que sociedade doente estamos nos transformando. Um dos sintomas é o número crescente de crimes juvenis. Colabora para isso um Estado ausente ou trapalhão, que vira o rosto diante das multidões de crianças pedintes em nossas esquinas, onde boa parte da tragédia começa.

 

     Enquanto se noticia que nos Estados Unidos uma fêmea de gorila salva um menino de 3 anos que caiu na jaula, aqui uma turma de adolescentes praticamente esquarteja uma criança de 6 anos, arrastando-a de carro como não fariam com um cachorro vadio. Segundo a polícia, ao ser presos portaram-se com indiferença, talvez seguros de uma punição mínima para tão horrendo crime. É preciso aproveitar a alavanca da nossa revolta para reivindicar (apesar de tudo, sejamos otimistas) providências imediatas. Não há tempo para teorizar mais. Reunir-se em solidariedade com familiares de vítimas é bonito, mas, sinto muito, não basta. Temos de juntar mais e mais gente de todas as classes para exigir uma Justiça realista, aplicação do que já existe de eficaz, prisões humanas, porém rigorosas, e leis severíssimas, também para os ditos menores.

    Entre essas mudanças, sou totalmente a favor da redução da idade em que o jovem é considerado consciente de seus atos. Drogados ou lúcidos, os meninos começam a roubar e matar, às vezes com requintes de crueldade, aos 12 anos, pouco mais, pouco menos. Se apanhados, nem todos poderão ser reintegrados à sociedade. Voltarão para cometer novos crimes. Quando em outros países a idade mínima é de 14 anos, 12 anos e até menos, aqui aos 16 podemos mudar o país através do voto, mas se estupramos, matamos, roubamos antes dos 18 pegamos uma leve – e breve – pena em uma instituição que (com raras exceções) reeduca os passíveis de melhoria e deixa os psicopatas mais loucos.

     Uma política séria e atuante, que buscasse o bem do povo, já teria reformulado leis desatualizadas e aplicaria com rigor as existentes. Não é o que vemos. Dirão: "Não há recursos". Pois é. O dinheiro roubado do povo no mensalão, nas sanguessugas, nos valeriodutos (esses termos começam a ser politicamente incorretos, por isso os devemos usar) daria para criar várias instituições adequadas para punir, reeducar, preparar para uma vida positiva e reintegrar criminosos à comunidade, mantendo presos pelo resto da vida os mais graves e incorrigíveis. Prisão perpétua, sim, senhores.

    Mudar regras pode não resolver os problemas, trágicos e vastos, da violência. Mas há de nos conferir alguma esperança. Todos partilhamos da responsabilidade de escolher os líderes que nos conduzem (ou nos confundem) também nesse aspecto de nossa vida enquanto cidadãos: a segurança. A Dama Justiça há de tremer de indignação se espiar por baixo daquela venda: leis descumpridas com a maior naturalidade, presos amontoados feito lixo humano, presos gozando de benesses e em condições de tramar crimes a ser cometidos lá fora, indultos e saídas em Dia das Mães, Natal e outros – boa parte desses que saem vai cometer novos crimes, pois é o que sabem fazer. A prisão, que deveria lhes dar disciplina, profissão e esperança, é um doutorado no crime.

     Acusa-se pela criminalidade juvenil a família, que às vezes é apenas outra vítima, ou "a sociedade", conceito vago que nos isenta de uma ação enérgica. Pululam projetos inconsistentes, vicejam teorias, cultivam-se vaguidões, vende-se a alma por um pouco mais de prestígio, pois nossa política virou um mercado persa de cargos, favores e poderes, e a frouxa postura nos parece normal (consideramos "normal" até mesmo o pior). Sem linha clara de pensamento, conduta coerente e coragem, nada vai melhorar. Alguns governantes heróicos vão à luta e procuram mudar a situação, mas – surpresa, surpresa – são criticados. Se não abrirem o olho, vão para um metafórico paredão neste triste país do Big Brother.

     Tirem de cena os projetos jamais votados, as teorias abstrusas e os políticos interesseiros, recusem continuar na hipocrisia e botem no centro desse palco o chamado povo brasileiro: eu, tu, nós, vós, eles – os que tentamos miseravelmente sobreviver nesta selva.

     A omissão pode ser tão fatal quanto o crime: sem atitudes firmes, continuaremos peças na engrenagem dessa fábrica de jovens Frankensteins, que, muitas vezes não tendo nem força para empunhar uma arma, vão nos brutalizar na primeira esquina.

Lya Luft é escritora

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Vice e o uso político do Creci pró-Julio

claudecir 400 creci curtinha   O sindicato dos profissionais do Mercado Imobiliário de Mato Grosso, sob Juliano Lobato, em nota de repúdio, detona o atual vice-presidente do Creci-MT, Claudecir Contreiras (foto), para quem está fazendo uso político da entidade e beneficiando, de forma descarada, o...

Toninho e expectativa de retorno à AL

toninho 400 curtinha   Toninho de Souza, que no ano passado estreou como deputado, permanecendo no cargo por 46 dias, no lugar de Eduardo Botelho, vive expectativa de retornar à cadeira na Assembleia. Mas isso vai depender de uma decisão de Janaína Riva, que está no quarto mês de gravidez. Ela tem...

Parlamentar temido reassume em VG

caio cordeiro 400 curtinha   Com menos de 15 dias no cargo de vereador em Várzea Grande, o primeiro-suplente Caio Cordeiro (foto), do PRP, já terá de desocupar a vaga. Eis que está de volta, da prisão para retomar o assento de parlamentar, Jânio Calistro, que está no segundo mandato e responde...

Diversos cortes nas despesas da AL

eduardo botelho curtinha 400   Num período em que o Legislativo praticamente parou, assim como o Judiciário e órgãos vinculados aos Poderes, como TCE e MPE, o presidente da AL, deputado Eduardo Botelho (foto), tomou decisão correta ao cortar gastos enquanto perdurar a pandemia do coronavírus. Entre as...

Governador está tenso e preocupado

mauro mendes 400 curtinha   O governador Mauro Mendes anda tenso e preocupado. Mesmo já tendo adotado uma série de medidas de prevenção, inclusive consideradas radicais, ele não dorme direito por causa das projeções nada otimistas de aumento nos próximos dias de casos de coronavírus em...

AL aprovará empréstimo de R$ 550 mi

A Assembleia aprovou, na convocação extraordinária desta sexta (27), dispensa de pauta para a mensagem do Executivo que pede autorização para contrair empréstimo de R$ 550 milhões junto à Caixa Econômica. O recurso será aplicado na construção de pontes de concreto em diversos municípios. Agora, a matéria entra na pauta e será aprovada pela maioria dos deputados na próxima segunda (30),...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.