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Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007, 15h:27 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A falsa diversidade

    Em função do descaso do governo Lula/PT com a educação pública superior, fato que levou os docentes universitários a uma justa e longa greve em 2005, o período letivo 2007, na UFMT, foi iniciado somente no dia 09 de abril. Como é de praxe, a primeira semana - momento de satisfação para todos os que fazem a UFMT - é destinada à recepção aos calouros. Para isso, a Administração Superior (AS/UFMT) preparou, sob a coordenação da Pró-Reitoria de Vivência Acadêmica (Pró-Vivas), extensa programação. Nos outdoors do campus, era possível ver a chamada para as atividades, no formato de "um convite à diversidade".

  Infelizmente, a convivência diária na Instituição nos impede de acreditar no convite. A "diversidade" não passa de discurso pinçado nas teias teóricas da pós-modernidade/pós-critica; esta, via de regra, incoerente e sem a menor conexão entre teoria e prática. Tal afirmação baseia-se em fatos. Os mais recorrentes são os momentos em que a AS/UFMT se propõe a oferecer algum tipo de "debate". Em tais momentos, raramente se vê uma mesa composta por debatedores com posicionamentos diversos. Os ditos "debates", de voz única e sempre referendando o pensamento hegemônico neoliberal, são apenas para mascarar a falta de democracia interna. Contudo, para além desses instantes caricatos, a AS/UFMT começou a dar passos bem mais graves.

    Desses passos, destaco o que segue: em janeiro/2006 (há mais de um ano), na aula inaugural de 2005/2, estudantes protestaram, firmemente - mas sem violência - contra a privatização das Universidades. Para simbolizar a privatização, recorreram à Semiótica, colocando um vaso sanitário (privada) à frente da mesa em que estava também um represente do MEC. Ao final dos discursos, convidaram todos à retirada da sala. Pouquíssimos permaneceram.

  Na seqüência, a ASCOM (Assessoria de Comunicação/UFMT) noticiou a aula, mas sem menção ao protesto, artificializando uma normalidade. No dia seguinte (20/01/2006), publiquei, pelo Sindicato dos Docentes (ADUFMAT), o artigo "Omissão Jornalística: fatos para debaixo do tapete na UFMT". Condenei a postura jornalística da ASCOM. Disse que nem a Rede Globo, defensora da "ordem", agia mais dessa forma. Mesmo en passent, e, sempre, desvirtuados de suas intenções, protestos têm sido registrados pela mídia.  Em fev/2007, fui "intimado", como "testemunha", por conta do meu artigo mencionado. No dia 13/03/2007, fui "inquirido" em sindicância que visa "apurar" as ocorrências envoltas ao protesto estudantil. A solicitação de "providências" foi encaminhada pela Pró-reitora da Pró-Vivas apenas no dia 25/07/2006 (06 meses após). Em sua justificativa, o adjetivo "grave" tenta qualificar o protesto.

    Diante de tamanha "gravidade", vista apenas pela AS/UFMT, a Vice-reitoria, somente no dia 12/12/2006 (11 meses após o fato e 06 meses depois do pedido da Pró-reitora), abriu a sindicância, constituindo uma Comissão, composta por dois técnico-administrativos e um estudante/militar. Na essência, de posse das fotos que acompanham aquele meu artigo, a Comissão inquiriu-me, dentre outras questões,  sobre os nomes dos estudantes que protestaram. Senti um retrocesso aos tempos da ditadura.

    Ao sair da "Inquirição" - indignado - escrevi uma "Carta Aberta" à responsável pela Pró-Reitoria em tela. Tal carta deveria ser publicada pela ADUFMAT, no dia 15/03. Todavia, o texto foi censurado pela diretoria do meu próprio Sindicato; um equívoco, pois a referida Carta apenas incita à reflexão de ex-companheiros que apóiam ou dirigem a UFMT. Na Carta, pretendo fazê-los ver quem eram e em que se transformaram, se é que já não eram quem demonstram ser hoje.

   No último dia 13, no Teatro Universitário, durante a propaganda governamental do programa "Universidade Nova", dissimulada de "aula magna", professores e estudantes, identificados como Grupo pela democratização da UFMT, fizeram um ato de protesto contra a sindicância em curso. Em silêncio, de mordaças nas bocas, por meio de uma faixa, pediram ao Reitor Paulo Speller que não cerceie e não permita o cerceamento da liberdade de expressão de ninguém.

   Assim, além de denunciar a prática da antidemocracia na UFMT, reforço o pedido ao Magnífico Reitor, apelando para a imediata suspensão da desnecessária sindicância. Conviver com a crítica é condição sine qua non nas democracias; é demonstração de maturidade acadêmica, equilíbrio administrativo e civilidade burguesa. É o mínimo que posso pedir aos que se arrogam defensores da alteridade, das diferenças. Eis a oportunidade para coerência entre discurso e prática. Eis a chance para fazer valer o convite à convivência da diversidade na UFMT.

    Roberto Boaventura da Silva Sá, doutor em Ciência da Comunicação/USP e professor e coordenador da Graduação em Letras/UFMT

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