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Terça-Feira, 16 de Janeiro de 2007, 02h:10 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A lição da vovó

   O jornalista Onofre Ribeiro conta historinha da vovó para mostra a realidade de nossa educação. Confira no seu artigo abaixo, reprodução da edição desta terça (16) do Diário de Cuiabá.

   Weber Figueiredo, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, deu uma última aula para seus alunos de engenharia. Diante de uma platéia de formandos, acompanhados de seus pais, o professor paraninfo da turma discursou sobre o Brasil. Trago o assunto, que recebi por e-mail, enviado pelo amigo José Antonio Lemos, do grupo “Defesa de Mato Grosso”, porque mais do que nunca estamos falando em agregar valor à produção em nosso estado. A estorinha simples da vovó, cai como uma luva sobre a nossa educação.
    “Esta é como se fora a última aula do curso. O último encontro, que já deixa saudades. Um momento festivo, mas também de reflexão. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de Direito, talvez eu falasse da importância do advogado que defende a Justiça e não apenas o réu. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de Medicina, talvez eu falasse da importância do médico, que coloca o amor ao próximo acima dos seus lucros profissionais. Mas, como sou paraninfo de uma turma de Engenheiros, vou falar da importância do engenheiro para o desenvolvimento do Brasil.
    Para começar, vamos falar de bananas e do doce de banana, que eu vou chamar de bananada especial, inventada (ou projetada) pela nossa vovozinha lá em casa, depois que várias receitas prontas não deram certo. É isso mesmo. Para entendermos a importância do engenheiro vamos falar de bananas, de bananadas e da vovó.
    A banana é um recurso natural, que não sofreu nenhuma transformação. A bananada é = a banana + outros ingredientes + a energia térmica fornecida pelo fogão + o trabalho da vovó e + o conhecimento, ou tecnologia da vovó. A bananada é um produto pronto, que eu vou chamar de riqueza. E a vovó? Bem a vovó é a dona do conhecimento, uma espécie de engenheira da culinária. Agora, vamos supor que a banana e a bananada sejam vendidas. Um quilo de banana custa um real. Já um quilo da bananada custa cinco reais. Por que essa diferença de preços? Porque quando nós colhemos um cacho de bananas na bananeira, criamos apenas um emprego: o de colhedor de bananas.
   Agora, quando a vovó, ou a indústria faz a bananada, ela cria empregos na indústria do açúcar, da cana-de-açúcar, do gás de cozinha, na indústria de fogões, de panelas, de colheres e até na de embalagens, porque tudo isto é necessário para se fabricar a bananada. Resumindo, 1kg de bananada é mais caro do que 1kg de banana porque a bananada é igual a banana, mais tecnologia agregada, e a sua fabricação criou mais empregos do que simplesmente colher o cacho de bananas da bananeira. Agora vamos falar de outro exemplo que acontece no dia-a-dia no comércio mundial de mercadorias.
    Em média: 1kg de soja custa US$ 0,10 (dez centavos de dólar), 1kg de automóvel custa US$ 10, isto é, 100 vezes mais, 1kg de aparelho eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$1.000 (10 mil quilos de soja) e 1kg de satélite custa US$ 50.000. Vejam, quanto mais tecnologia agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados na sua fabricação. 
   Os países ricos sabem disso muito bem. Eles investem na pesquisa científica e tecnológica. Por exemplo: eles nos vendem uma placa de computador que pesa 100g por US$ 250. Para pagarmos esta plaquinha eletrônica, o Brasil precisa exportar 20 toneladas de minério de ferro. A fabricação de placas de computador criou milhares de bons empregos”. É ponto de partida para imensas reflexões.



* ONOFRE RIBEIRO é articulista do Diário de Cuiabá e da revista RDM (onofreribeiro@terra.com.br)

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