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Sábado, 01 de Março de 2008, 21h:09 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

A máquina de produzir chuva e o desmatamento evitado

   Na década de 80, quando Chico Mendes lutava para assegurar o futuro dos seringueiros e da floresta, o cientista Enéas Salati, um dos mais respeitados cientistas do Brasil, em uma de suas pesquisas analisou a proporção de isótopos de oxigênio na precipitação pluviométrica amazônica do Atlântico ao Peru. Sua conclusão foi irrefutável: a Amazônia produz a parte maior de sua própria chuva. A implicação óbvia foi que o excesso de desmatamento poderia degradar o ciclo hidrológico, ou seja, causar desequilíbrios entre nos períodos de seca e de chuva, interferindo inclusive na atividade econômica humana na Amazônia.

  Hoje, imagens obtidas por sensoriamento remoto mostram que o ciclo hidrológico não apenas é essencial para a manutenção da grande floresta, mas também garante uma parcela significativa da chuva que cai ao sul da Amazônia, aqui em Mato Grosso, em São Paulo e até mesmo no norte da Argentina. Quando a umidade do ciclo, que se desloca em direção ocidental, atinge o paredão dos Andes, uma parte importante dela é desviada para o sul, para as regiões centro oeste, sul e sudeste do país.

   Podem acreditar boa parte da cana-de-açúcar, soja e outras safras agroindustriais nessas regiões dependem da máquina de chuva da Amazônia, da estabilidade climática desse precioso bioma. O mesmo acontece com parte importante da geração de energia hidrelétrica no Brasil. A economia brasileira e mato grossense não pode se dar ao luxo de perder a contribuição importante da máquina de chuva amazônica, e para isso, governos e sociedade precisam encontram solução consensual, que permita coexistir pacificamente o processo de desenvolvimento (numa escala racional de sobrevivência humana) com a manutenção do sistema climática amazônico, evitando com isso, rupturas irreversíveis, com prejuízos ecológicos e econômicos irreversíveis.

   Para se chegar nesse ponto de equilíbrio, que em economia ambiental significar chegar ao ponto de extração ótima, ou seja, obter a extração máxima do recurso natural em condições de manter estoques deste para o próximo ciclo de extração, o que consideramos ser o manejo sustentado.  Todavia, para chegar neste ponto não basta apenas utilizar os velhos e conhecidos instrumentos de comando-e-controle, qual seja, a fiscalização coercitiva e aplicação da legislação rigorosa, mas, sobretudo, instrumentos inovadores, que compense o detentor de áreas florestas pela não exploração do recurso natural.

   O meio ambiente fornece gratuitamente uma variedade de bens e serviços que são de interesse direto ou indireto do ser humano, como madeira, frutos, proteção do solo, o ciclo hidrológico, etc. Nesse contexto, e preciso encontrar formas alternativas às dotações orçamentárias para se garantir um fluxo estável de recursos para o meio ambiente.  Surge daí a idéia de criar os sistemas de pagamento por serviços ambientais (PSAs), que atualmente são apontados por governos e sociedade civil como possível caminho para solucionar este impasse.

  Uma das formas de PSAs é o desmatamento evitado, que nada mais é do que remunerar o proprietário rural para manter a floresta em pé além do percentual exigido por lei, no caso, 20% no bioma floresta. Como disse no inicio do artigo, a floresta é uma verdadeira máquina de produzir chuva, portanto, todos ganham com isso, é uma questão de responsabilidade ambiental e mesmo, de sobrevivência humana neste planeta. No entanto, algumas distorções devem corrigidas urgentemente, é preciso mudar a lógica no Brasil que facilita o crédito plantando eucalipto, que demora a crescer, e por outro lado, nada ganha evitando que uma floresta rica em biodiversidade e em seqüestro de carbono seja desmatada. Não ganhamos nada por evitar um desmatamento que vai resultar em 100 toneladas de carbono lançado na atmosfera por hectare ao ano, mas ganhamos para plantar uma floresta mixuruca de uma árvore exótica, que vai retirar no máximo 3 ou 5 toneladas de carbono ao ano, e ainda leva uns 20 anos para chegar à mesma densidade da outra. O sistema é muito assimétrico e injusto, e não podemos permitir que matem a galinha de ovos de ouro, a máquina de chuva, no entanto, para isso, devem ser inseridos urgentemente novos instrumentos no contexto da política pública ambiental.

  Eduardo Figueiredo Abreu é analista ambiental, mestrando em Gestão Econômica do Meio Ambiente
e fundador do Instituto Resíduos (
eduardoambiental@uol.com.br)

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