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Quinta-Feira, 08 de Novembro de 2007, 08h:06 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

A mídia e a violência

     Tive acesso a uma pesquisa quantitativa de opinião pública a respeito de um projeto chamado “Mato Grosso e a construção da paz social”, que a  Secretaria estadual de Justiça e Segurança Pública pretende implantar. A pesquisa foi feita em Sinop, um município de 102 mil habitantes, a 500 km de Cuiabá na região do Médio-Norte do estado.
     Não gostaria de entrar na discussão dos dados numéricos, porque não pedi permissão ao Instituto Vetor da Pesquisa, autor da sondagem. Mas gostaria de ater-me a algumas observações muito importantes: a percepção da violência na cabeça das pessoas.
     Os dados são impressionantes. A maioria dos habitantes pensa na violência pelo menos uma vez por dia e conversa freqüentemente em família sobre o assunto. A violência tomou conta da cabeça dos habitantes, embora a incidência não seja tão relevante ao ponto de contaminar tanto assim a cabeça das pessoas.
     Mas assusta mesmo quando se percebe que a maior fonte do amedrontamento da sociedade local, ao ponto do medo, do pânico e do terror, são os programas policiais veiculados nas emissoras locais de televisão. Quando os moradores são confrontados com a violência vivida, uma minoria foi vítima diretamente ou através de parentes. Porém, o medo é generalizado.
     É aqui que entra um dos pontos curiosos da pesquisa: as pessoas admitem que são profundamente influenciadas no medo e no pavor da violência pelos programas dito policiais na televisão. Incluem os programas nacionais e estaduais.
     Se a população de Sinop sofre essa síndrome, é de se esperar que toda a população de todas as demais cidades no estado também sofra a mesma influência. Cabe perguntar sobre o controle a esses programas. Não há, de parte do Ministério do Trabalho que rege a carreira profissional dos apresentadores, do Sindicato dos Jornalistas, do Ministério Público, da Justiça e de ninguém. Como a matéria prima é a quebra da ordem pública, a locução dos apresentadores é sensacionalista e transmite a idéia de que o mundo está sempre acabando em crimes de morte, de assaltos, de roubos, de tráfico de drogas, de roubo de veículos, etc.
     A liberdade de expressão no Brasil é ampla e abrangente. Não se pode censurar previamente qualquer publicação ou emissão, responsabilizando-se os autores perante a lei pelos excessos. Na falta de controle, os dito programas exigem cadáveres e corpos se esvaindo em sangue para “ilustrar” a violência. Existe um discurso de mostrar para combater. Mas esse é um discurso descosturado. Mostra-se generalizadamente, em horários livres de exibição na televisão, cenas chocantes de acidentes, de mortes e de assassinatos, ou de prisão de assaltantes e traficantes, com depoimentos inapropriados para a infância e a juventude.
     O que fica, para as escolas de comunicação, para os técnicos e para os sociólogos e antropólogos é a discussão: até que ponto a mídia não alimenta a violência pela “glamourização” do crime, já que jovens imaturos e desprepados se sentem super-homens quando aparecem algemados diante das câmeras e podem dar a sua versão “heróica” sobre sua performance criminosa. A mídia tem apavorado a sociedade tanto quanto os bandidos.

 

Onofre Ribeiro é articulista deste jornal e da revista RDM (onofreribeiro@terra.com.br)

 

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