Últimas

Quarta-Feira, 11 de Julho de 2007, 09h:15 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

A nova sociedade civil 2

     Sociedade Civil é por definição uma construção liberal, subjacente ao estado democrático e à democracia representativa ou eletiva. E se é liberal, é quase sinônimo de burguês. Envolve todas as formas de organização dos segmentos sociais, desde os sindicados, clubes de serviços, associações recreativas, e entidades não políticas ou não governamentais – hoje enquadradas no chamado Terceiro Setor.
     Teria, além das finalidades específicas (sindicato para defender os trabalhadores de uma determinada categoria; etc), a finalidade de ajudar no controle social do Estado ou dos governos, cobrar-lhes melhorias, e, modernamente, transparência, ações específicas, como combate à violência, inclusão social, etc.
     No dizer de Robert Putnam, essas organizações “(...) são vitais para a democracia. Isto porque elas constroem capital social, confiança e valores compartilhados, os quais são transferidos para a esfera política e ajudam a manter a sociedade junta, facilitando uma compreensão da interconectividade da sociedade e dos interesses dentro dela”.  (http://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedade_civil).
     Já na visão socialista, é uma fantasia institucional cuja finalidade precípua é a alienação dos oprimidos, dando-lhes a sensação de interferir de fato no destinos das coisas, de partilhar poder, ofuscando o conceito de luta de classes. (Há várias outras definições, por suposto, mas a mim me interessa basicamente essas duas linhas no presente momento).
     Lênin chegou a desenvolver a “metáfora do edifício” para exemplificar como via a sociedade capitalista, dividida basicamente em “estrutura” (base econômica, mercado, etc) e “superestrutura” (base jurídica e política, que forma a consciência social). E Louis Althusser desenvolveu o conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado, responsáveis pela reprodução das “relações” de produção (ou seja, da consciência capitalista), entre os quais relaciona família, igreja, escolas, sindicados, e, pode-se dizer modernamente, qualquer tipo de organização social que conheçamos hoje, que não contestem o status quo, mas apenas as reformas pontuais.
     Ocorre que vivemos um estágio avançado do capitalismo, em que - dado o fracasso ainda que conjuntural do bloco socialista -, raros são os que contestam o status quo, limitando a visão social às reformas do atual modelo de sociedade, em ousar negá-lo.
     Do ponto de vista meramente político, todavia, essa apatia conceitual, essa cegueira ideológica que levou à perda de perspectivas ideológicas da grande massa, e também a proletarização de enormes estratos antes aburguesados, criaram um desgaste colossal das instituições formais, como partidos, sindicatos, associações de bairros, parlamento, judiciário, etc, deslocando o centro gravitacional das melhores expectativas populares para o que tenho chamado de nova sociedade civil, fundada fortemente nas ongs e no terceiro setor, salvo algumas raras e honrosas exceções.
     A afirmação acima pode ser comprovada pelos sucessivos indicadores de pesquisas de opinião que apontam os partidos, o parlamento, o judiciário e os políticos em geral com baixíssimo grau de acreditação perante a sociedade.
     No entanto, não se conhece em toda a literatura política nenhuma grande mudança estrutural operada por tais organizações. Elas sobrevivem, penso, pelo simples fato de terem, ao par da crise de representação já citada, conseguido ler melhor a realidade, e apontar caminhos mais objetivos e simples para os problemas das pessoas. Veja-se, por exemplo, um dado da realidade contemporânea: enquanto a sociedade, em todos os quadrantes do Brasil, clama por melhorias na segurança pública, o Congresso Nacional (e decerto os partidos, que afinal o movem) elegeram como prioridade da agenda política para este ano a Reforma Política. Isso significa que a vanguarda (do francês avant garde, que significa aquilo ou quem que "está à frente”) não estabelece uma consonância cognitiva com a retaguarda (quem está atrás). E sem essa consonância cognitiva, não se lidera. E quando se perde a liderança, cai-se, inevitavelmente, na crise de representação.
     Pelo já dito, o desafio das instituições formais, principalmente dos partidos políticos, bem como do parlamento, em minha opinião, é concentrar-se nessa relação simbólica com a sociedade, recuperando sua acreditação perante a massa, para poder voltar a liderá-la. E para isso, terá, decerto, que voltar-se para a realidade das ruas, não apenas para suas próprias conveniências.


Kleber Lima é jornalista pós-graduado em marketing (kleberlima@terra.com.br / www.kgmcomunicacao.com.br)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Efeito-Covid adia vinda de Michelle

michelle bolsonaro A primeira-dama de Cuiabá, Márcia Pinheiro, e a secretária da Mulher, Luciana Zamproni, resolveram transferir para abril a agenda de 11 de março que teria como convidada a secretária nacional de Mulheres, do Ministério dos Direitos Humanos, Cristiane Britto e a primeira-dama do Brasil Michelle...

Governador entre a cruz e a espada

mauro mendes curtinha   Às vésperas da pandemia completar 1 ano em MT, o Estado vive o seu pior momento e o governador Mauro Mendes (foto) enfrenta uma verdadeira prova de fogo: liderar ações coordenadas em todo o território mato-grossense para evitar que o Estado viva cenas parecidas com as de Manaus e de Estados...

Câmara volta a realizar 2 sessões

juca 400 curtinha   A Câmara de Cuiabá, sob a presidência do vereador Juca do Guaraná Filho (foto), volta a realizar duas sessões semanais, nas terças e quintas. Por conta da pandemia, as sessões serão remotas. A resolução foi aprovada por unanimidade pelos parlamentares que vinham...

Coronel linha dura morre ao 91 anos

Coronel Abid 400   Morreu   em Campo Grande (MS), aos 91 anos,  o coronel da PM aposentado Adib Massad (foto), considerado  um dos principais nomes  da Segurança Pública de Mato Grosso na década de 1970. À época, ainda com a patente de  tenente, foi comandante regional...

Mauro e vitórias na briga de decretos

orlando perri 400 curtinha   A estratégia do governador Mauro Mendes de articular com os Poderes a edição do decreto de toque de recolher vem dando frutos. O governo publicou decreto impondo toque de recolher das 21h às 5h, com fechamento do comércio às 19h. O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro,...

Prefeito é intubado e pode ir para SP

Prefeito de Tapurah Carlos Alberto Capeletti   É grave o quadro de saúde do prefeito de Tapurah (432 km de Cuiabá), Carlos Alberto Capeletti (PSD). Após piora, ele precisou ser intubado nesta quinta (4). Foi internado na terça (2), após testar positivo para Covid-19, em uma UTI no Hospital 13 de Maio, em...