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Sábado, 12 de Maio de 2007, 09h:42 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A opção preferencial dos pobres

     Publicada em caderno especial pela Folha no dia 6 de maio, pesquisa do Datafolha confirma as tendências de declínio católico e de expansão pentecostal. Para dissabor do pontífice católico, a eficiência proselitista e o dinamismo do pentecostalismo, que já abriga 17% dos brasileiros, tornaram o Brasil o segundo maior país evangélico do mundo. Por diversas razões, o Brasil constitui terreno dos mais férteis para seu avanço.
     A liberdade religiosa, assegurada pela separação jurídica entre Estado e igreja, garantiu a legitimação e dilatação do pluralismo e a consolidação de um mercado religioso competitivo. Na esfera cultural, a permanência de forte substrato religioso de matriz cristã (verificável nas elevadas taxas de brasileiros que afirmam crer em Deus, Diabo, nascimento virginal e ressurreição de Cristo) permite que a prédica pentecostal construa pontes com a religiosidade popular, embora com menor êxito nos lugares onde o catolicismo popular é enraizado e mobilizado institucionalmente, caso do Nordeste.
     No campo religioso, a fragilidade institucional da Igreja Católica, expressa no pequeno número de sacerdotes e no alto contingente de católicos não praticantes, ou alheios aos poderes eclesiásticos, diminui o custo pessoal da apostasia, facilita o trânsito religioso e o trabalho dos concorrentes. No plano político, candidatos, partidos e governantes demandam apoio eleitoral e político dos líderes pentecostais a cada pleito e em votações no Legislativo, reforçando, assim, o poder de barganha, a participação política e a influência destes religiosos na esfera pública (de cujo impacto se ressentem grupos feministas, homossexuais e afro-brasileiros).
     No plano socioeconômico, vigoram altos índices de desemprego e de informalidade no mercado de trabalho, precarização da educação pública e das condições de trabalho sob o capitalismo flexível, vexaminosa desigualdade social, explosão da criminalidade. Nada mais providencial para uma religião que cresce majoritariamente na pobreza, nas periferias desassistidas das regiões metropolitanas e nas frentes migratórias.
     Tal contexto, porém, não é responsável por seu sucesso, que é, acima de tudo, fruto de sua capacidade de explorá-lo. Facilita seu proselitismo, liderado por um sem-número de pastores desprovidos de erudição teológica, mas peritos na língua e nos interesses materiais e ideais dos pobres. Ativismo religioso do qual também se encarregam diligentemente os leigos.
     Pragmáticos, seus líderes hipertrofiam as promessas de cura e prosperidade, adaptam a mensagem mágico-religiosa às demandas de fiéis e virtuais conversos, provendo-os de sentido para lidar com infortúnios e aflições, mudar a subjetividade e elevar a auto-estima. Daí os rituais de descarrego e libertação de demônios, a alta voltagem emocional dos cultos, a estridência da música gospel e a criação de igrejas que possuem gestão empresarial, utilizam técnicas de marketing, fixam metas de produtividade, sistematizam a oferta de serviços mágicos e investem pesado no evangelismo eletrônico.
     Mas seu apelo conversionista encerra notórios limites de classe. Seus pendores contraculturais, ascéticos, moralistas e antiintelectualistas encontram baixa receptividade na classe média mais escolarizada, indisposta a mudar hábitos por causa de motivos religiosos, como declaram tê-lo feito 54% dos pentecostais.
     Liberalizar costumes, estratégia neopentecostal, permitiu recrutar, timidamente, pessoas de classe média. Além da barreira de classe, sua pretensão identitária totalizante enfrenta embaraços frente a mudanças culturais em curso, como a difusão do relativismo cultural, do individualismo e do hedonismo, a pluralização e fragmentação das identidades, a multiplicação das pertenças sociais e a autonomização dos indivíduos das autoridades e instituições religiosas.
     Por possibilitar maior controle comunitário dos fiéis, sua condição de religião minoritária e sectária consegue deter, embora muito parcialmente, os efeitos licenciosos dessas mudanças. Para tanto, contribui a relação carnal entre pentecostalismo e pobreza, dada a dependência do laço e da submissão religiosos que esta última fomenta.

 

RICARDO MARIANO é sociólogo, professor da PUC-RS e autor de "Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil" (Loyola)

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