Últimas

Quinta-Feira, 06 de Setembro de 2007, 09h:04 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

A origem da crise mundial

     "No ano passado os bancos americanos realizaram a loucura de 157 trilhões de dólares em erivativos, contra 500 bilhões em 1988"

     Por que os grandes emprestadores de hoje são os fundos de pensão, hedge fund, e as empresas de private equity, e não os bancos comerciais, com seus mais de 500 anos de tradição nessa área? A origem da crise atual remonta a 1933 e 1935, quando o governo americano instituiu uma série de regulamentos visando a impedir que os bancos emprestassem além de sua capacidade financeira. Esses regulamentos foram sendo modificados ao longo dos anos, e sua última versão são os acordos de Basiléia I e II.
     Neles encontramos a regra básica comum a todos: "Os bancos poderão emprestar no máximo doze vezes seu capital e reservas, corroídos pela inflação do ano, ano após ano". Deve ser a regra mais estapafúrdia e incoerente da história econômica do mundo, porque enfraquece a capacidade de emprestar dos bancos ano após ano, justamente o contrário do que queriam fazer. Imagine o estrago que acarretaram ao setor bancário vinte anos de inflação multiplicados pela alavancagem de doze vezes o patrimônio líquido. Devido à inflação média somente deste ano, os bancos do mundo deixarão de emprestar 2 trilhões de dólares em 2008, só para poder se enquadrar nos ditames de Basiléia I e II. Um tiro no pé dos bancos e na economia do planeta.
     Os bancos comerciais, para sobreviver, mergulharam de cabeça em outras atividades, como serviços, derivativos, securitização de recebíveis. No ano passado, somente os bancos americanos realizaram a loucura de 157 trilhões de dólares em derivativos, contra 500 bilhões em 1988. Hoje, os empréstimos não passam dos 6 trilhões; o negócio dos bancos comerciais agora é outro.
     No Brasil, sentimos o efeito dessa regra bancária insana em 1982 e 1983, quando a inflação americana atingiu 20%, obrigando os bancos a recolher 20% de seus empréstimos, por simples regulamentação governamental, criando a famosa crise da dívida externa, que nos causou uma década e tanto perdida. Acusaram-nos na época de ser um país superendividado, de ter tomado empréstimos demais, quando na realidade eram eles que estavam sendo forçados a dar empréstimos de menos. Os bancos também foram acusados injustamente de ter emprestado sem rigor, o que resultou nesses acordos ainda mais rígidos de Basiléia I e II, que mantiveram o absurdo original de usar como cálculo um capital corroído anualmente pela inflação. Um enorme retrocesso.
     Compare isso com a regra utilizada pelo Banco Central brasileiro até 1995: "Os bancos poderão emprestar até doze vezes seu capital, corrigido anualmente pela inflação".
     Se em vez de pedirem moratória, implorarem por mais prazo, nossos negociadores tivessem exigido a troca do "corroído pela inflação" por um "corrigido pela inflação", os bancos americanos teriam tido o necessário espaço para respirar e teríamos resolvido a não-crise numa boa. Tínhamos até a obrigação de alertar o mundo, pois só os economistas brasileiros enxergam essas frases em itálico, calejados que fomos pela inflação. Mas, em 1995, nosso Banco Central introduziu, inexplicavelmente, a regra "corroído pela inflação", enfraquecendo nosso sistema bancário, forçando-o a ganhar dinheiro com serviços, e não com empréstimos, comprometendo o crescimento do Brasil – mais um erro do governo FHC.
     Há males que vêm para o bem. Por termos enfraquecido o setor bancário mundial, hoje existem novos personagens dando crédito, crédito mais bem distribuído, menos conservador, mais agressivo. Agora, em vez de o risco ser concentrado nos 100 maiores bancos do mundo, como em 1983, o risco está pulverizado entre 45.000 fundos e no mínimo 200 milhões de investidores de classe média para cima.
     Muitos desses fundos estão de fato com problemas. Investidores que escolheram erradamente fundos muito alavancados e concentrados amargarão prejuízos, mas não teremos o risco de quebra em massa nem o contágio de bancos em liquidação, como antigamente.

Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

PEC da Previdência na pauta nesta 5ª

dilmar dal bosco 400 curtinha   A polêmica e controversa PEC da Previdência, apresentada pelo governador Mauro, deve ser apreciada nesta quinta, em primeira votação, pelos deputados. O Executivo conseguiu os votos mínimos necessários para conseguir aprovação. Deputados da oposição...

Caminho bem consolidado à reeleição

leonardo 400 curtinha   Dos prefeitos que podem ir à reeleição de cidades pólos, o que encontra situação mais confortável é Leonardo Bortolini, o Léo (foto), de Primavera do Leste. Bem articulado e habilidoso politicamente e com uma relação extensa de obras e...

PSDB e balão de ensaio para prefeito

paulo borges 400 curtinha   Bastante enfraquecido e fragilizado, após perda do comando do Executivo estadual e de quadro de filiados, o PSDB anuncia que terá candidato a prefeito de Cuiabá. E até lista três "prefeitáveis", sendo eles os empresários Luiz Carlos Nigro e Dorileo Leal, além do...

Grupo de Fabinho ávido pelo poder

fabio tardin 400 vereador   Uma ala do DEM de Várzea Grande, que se sente excluída do Paço Couto Magalhães, está torcendo pela cassação da prefeita Lucimar e do vice Hazama. O placar do julgamento no TSE está em 2 a 1 pela manutenção do mandato. Esse bloco anti-Lucimar é...

Vereadores oficializam 2 férias por ano

emerson 400 alta floresta curtinha   Os vereadores de Alta Floresta, no Nortão, aproveitaram este período de pandemia, com as atividades presenciais suspensas, para garantir dois períodos de "férias" por ano. Em decisão desta segunda, a Câmara Municipal, presidida por Emerson Sais Machado (foto), alterou o...

Comissão da Câmara sob efeito-Covid

renivaldo 400 curtinha   Em meio às discussões sobre transparência e compras emergenciais de medicamento, insumos e equipamentos às unidades de saúde, na luta contra a pandemia da Covid-19, a Câmara de Cuiabá criou uma Comissão Especial, composta por três vereadores. Tem a...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Até dezembro, o IFMT terá eleição para Reitoria. Quem você acha que será eleito dos candidatos abaixos?

Deiver Alessandro

Julio Santos

Nenhum deles

Não tenho ideia

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.