Últimas

Domingo, 18 de Março de 2007, 15h:28 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A tese de Dilma

  Em sua coluna Ponto de Vista na Veja desta semana, Stephen Kanitz elogia a tese da ministra Dilma Rousself (Casa Civil), que propõe reduzir os juros. "A ministra comprou uma briga e tanto e precisará de todo o apoio dos que querem ver o custo da renda fixa cair", destaca o colunista. Confira abaixo..

    Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, tem apresentado uma tese que merece os aplausos de todos os administradores de esquerda deste país. É uma tese que defendemos há mais de quarenta anos. Dilma propõe reduzir os juros, não para recuperar a capacidade de investimento do estado ou para gastar no social, que é o discurso usual daqueles que se opõem aos juros elevados. Ela quer reduzir os juros para poder "reduzir o custo do capital social das empresas". Finalmente alguém se tocou do verdadeiro problema. O custo do capital no Brasil é alto porque os juros da dívida interna também são altos.
Se o estado paga 13% ao ano de "renda fixa" para "rolar" a sua dívida, nenhum projeto empresarial com retorno abaixo de 13%, 14% ou até 19% será retirado das gavetas. Nenhum administrador ou empreendedor vai assumir o risco de quebrar, o risco de perder tudo, o risco de processos trabalhistas e de consumidores, se o estado oferece 13% ao ano, e sem risco. A China reduziu o custo da "renda fixa" para 1%, o que permitiu a empreendedores e engenheiros desengavetar projetos simples, sem muita tecnologia, em que basta parafusar duas peças diferentes e nada mais, e por isso rendem 4% ao ano, barateando o preço de venda, que é tudo de que precisaríamos.

    É a "renda fixa" que eleva a "renda variável e a taxa de retorno" dos empresários e acionistas. Por isso, no Brasil, só desengavetamos projetos que rendam no mínimo 19% ao ano, projetos com "elevado valor adicionado", projetos que exigem subsídios e renúncias fiscais, projetos com empréstimos subsidiados pelo BNDES, com "zonas francas fiscais", que requerem câmbio favorável e elevados investimentos em "ciência e tecnologia". Essas foram as grandes bandeiras dos nossos empresários "desenvolvimentistas" e de seus economistas, começando com Celso Furtado.

    Era a única forma de conciliar o desejo desses economistas de capturar para o estado a quase totalidade da poupança nacional – o que exige do estado esses juros estratosféricos para serem renovados e subsídios empresariais para que haja crescimento. Tudo isso sob os aplausos da direita, que adora receber juros elevados sem ter de fazer nada, a risco zero. Com essa aliança diabólica, o juro real não cairá tão cedo.

    Eu evito investir em "renda fixa" por uma questão ética. Não me sinto confortável em ganhar sem fazer nada, especialmente à custa do povo brasileiro. Sempre fiz questão de investir em ações, gerando crescimento e empregos, correndo o risco da volatilidade da "renda variável", o que me faz dormir tranqüilo quando recebo meu merecido dividendo. A tese de Dilma já foi aplicada com excelentes resultados no Brasil pelo administrador Raymundo Magliano Filho, presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, que reduziu pela metade o custo de capital das empresas do Novo Mercado, do qual me orgulho de ser árbitro. Magliano foi eleito "administrador do ano de 2006", merecia um Nobel.

    Ou seja, a tese de Dilma é viável, e nem falta vontade política para aplicá-la. Lula afirmou em seu discurso de posse que "nenhum país cresce se o custo do capital for alto". Frase que o jornalismo econômico obviamente ignorou e o jornalismo administrativo, inexistente neste país, não noticiou.

    Do ponto de vista ético, chegou a hora de o estado devolver à sociedade o "capital social" que tomou emprestado, o trilhão que alguns desenvolvimentistas agora não querem devolver, o que mantém o juro e o custo do capital deste país elevado. Se o "capital social" for finalmente devolvido à sociedade nos próximos cinco anos, os juros da "renda fixa" cairão para 1%, como no resto do mundo, e deixaremos de ser os lanterninhas do crescimento. 

    Dilma comprou uma briga e tanto ao enfrentar essa aliança diabólica. Ela precisará de todo o apoio dos engenheiros, administradores, contadores, advogados, médicos que querem ver o custo da "renda fixa" cair, obrigando os investidores a virar empreendedores e a assumir o risco da "renda variável". Ela já tem o meu total apoio, agora só falta o seu.

  Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Misal é reeleito para o 10º mandato

misael galv�o 400 curtinha   Após dois anos fora do comando do Shopping Popular, período em que respondeu pela presidência da Câmara da Capital, o ex-vereador Misael Galvão (foto) voltou à direção do empreendimento, que abriga 500 lojas. E, sob forte...

Oscarlino, Pros e "nocaute" em Gisela

oscarlino 400   Na queda-de-braço dentro do Pros por espaço político, o ex-sindicalista Oscarlino Alves (foto) nocauteou a ex-superintendente do Procon-MT, Gisela Simona. Ele foi um dos filiados que não aceitaram apoio a Abílio na disputa de segundo turno para prefeito de Cuiabá, se aliou ao projeto de...

Promotor recebe medalha do Exército

Mauro Zaque curtinha   O promotor de Justiça Mauro Zaque (foto) foi condecorado com a medalha do Exército Brasileiro na manhã desta segunda (19), no dia da instituição. A solenidade é considerada a segunda maior do Exército Brasileiro, foi reservada por conta da pandemia e contou com a...

Sema reabre os parques em Cuiabá

mauren lazzaretti sema 400   Fechados desde 1º de abril, em obediência às regras de decreto municipal, que suspendiam as atividades coletivas, os parques estaduais urbanos de Cuiabá reabrem nesta segunda (19) para utilização pelo público. Será possível acessar as tradicionais trilhas...

Pilha em Jayme pra disputar o Governo

jayme campos 400   Mesmo sabendo que Jayme Campos (foto) não entra em disputa onde percebe dificuldades para vencê-la e militando no mesmo partido de Mauro Mendes, o DEM, algumas lideranças políticas têm instigado o senador a se lançar ao governo estadual. Para tentar convencer Jayme, lançam...

Scheila assume APDM e cita projetos

scheila pedroso 400   Esposa do prefeito sinopense Roberto Dorner, Scheila Pedroso (foto), primeira-dama e secretária municipal de Assistência Social, passa a tocar, pelos próximos dois anos, a Associação para o Desenvolvimento Social dos Municípios de MT (APDM/MT). Ela promete juntar força com os...