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Terça-Feira, 16 de Outubro de 2007, 08h:54 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

A Tragédia do Jardim das Flores

     Eu estava em Rondonópolis, no dia 26 de maio (um sábado), quando ocorreu um dos maiores atos de violência que se teve notícia nessa cidade – na verdade, no próprio Estado de Mato Grosso –, nos últimos tempos. Um grupo de policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope) se meteu a fazer uma simulação de resgate de vítimas de um suposto seqüestro, mas o saldo da exibição foi dos mais trágicos: um adolescente de 13 anos morreu ao ser atingido por um tiro de escopeta e outras 12 pessoas – entre crianças e adultos – ficaram feridas. Como se noticiou, os soldados usaram balas reais, em vez de projéteis de festim.
     O que era para ser motivo de festa – um mutirão de serviços da Prefeitura, numa escola do bairro Jardim das Flores -, por pouco, não vira uma matança. Consta que até o prefeito Adilton Sachetti (PR) e outras autoridades que prestigiavam o evento, por alguns instantes, estiveram na linha de tiro dos valorosos integrantes da “tropa de elite” da PM. Em entrevista a uma TV, o prefeito não conseguiu esconder o pavor, num misto de irritação, diante do que aconteceu num dos bairros mais pobres do segundo pólo econômico de Mato Grosso.
     Do Extremo-Norte, onde se encontrava na ocasião, entregando obras, o governador Blairo Maggi ordenou que o comando da Segurança Pública “tomasse providências”. Ele próprio desembarcou na cidade, horas depois, com a cara de poucos amigos. A cúpula da PM viajou no mesmo dia para Rondonópolis, promoveu um festival de entrevistas, com uma sucessão de promessas e a decisão de praxe: a abertura de inquérito para apurar causas e responsáveis pelo infausto acontecimento.
     Durante vários dias, a população rondonopolitana viveu em permanente estado de comoção. A tragédia só não foi maior porque os próprios militares envolvidos na operação se deram conta do “estrago” que faziam e interromperam os tiros. O desespero, obviamente, tomou conta das pessoas (em torno de 800, segundo estimativa dos organizadores do mutirão) e causou ainda mais comoção diante do saldo trágico da desastrada operação. Até hoje, a “Tragédia do Jardim das Flores” deixa assustados os moradores de Rondonópolis. É uma dolorosa lembrança – principalmente, para os familiares das vítimas -, mas é, também, um marco profundo e sinistro na imagem da gloriosa Polícia Militar.
     Mas o que dói também é constatar que esse triste (e violento) episódio vem sendo tratado com o mais absoluto descaso por parte do Governo do Estado. Lá se vão quase seis meses e, até agora, a sociedade – em especial, os moradores da cidade – não mereceu sequer uma satisfação por parte da Secretaria de Segurança. O que se verifica é um jogo de empurra entre as Polícias Civil e Militar.
     As duas instituições, cada qual a seu modo, conduzem inquéritos internos, supostamente com o fim de chegar às causas e aos responsáveis pelo desastre. No dia da tragédia, o comandante regional da PM foi afastado das funções, mas foi “premiado” em seguida com um cargo administrativo no Comando Geral, em Cuiabá. A PC foi ao local da macabra operação, mas caiu do cavalo, pois os militares, tão rápidos e certeiros como na hora de disparar contra cidadãos indefesos, apagaram as cenas do crime. Os PMs suspeitos de disparar contra a multidão foram presos, mas já estão em liberdade. Como punição, foram designados para cuidar de presos na penitenciária da cidade.
     A verdade é que os tais inquéritos se arrastam sem nenhuma conclusão lógica. Até mesmo os laudos de balística, estranhamente, não foram concluídos. Para que serve um certo Complexo de Perícia Oficial e Identificação, também conhecido como Politec?
     Se a intenção da Prefeitura de Rondonópolis, ao promover o mutirão, era beneficiar os moradores do bairro com uma série de ações práticas e de caráter social, por que levar a PM para dar show? Polícia existe para combater crimes, não para fazer teatro – ainda mais macabro, como aquele encenado no Jardim das Flores.
     Toda essa história, na verdade, está muito mal contada. E, a propósito, o Estado é acusado de se omitir na ajuda às famílias das vítimas.

Antonio de Souza é jornalista em Cuiabá (af-souza1957@uol.com.br-asouza80@hotmail.com)

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