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Segunda-Feira, 05 de Fevereiro de 2007, 07h:34 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

A tríplice aliança

   O economista Claudio de Moura Castro destaca, no seu Ponto de Vista na Veja deste semana, que o empresariado tem ajudado a melhorar a educação pública. "Num primeiro momento, socorre na manutenção das escolas, promove festas e dá dinheiro. Com o tempo, as iniciativas se tornam mais ambiciosas, dando lugar a programas criativos e eficazes". Confira o artigo reproduzido abaixo. 

    Imaginemos que a Aerospatiale resolvesse criar um programa para apoiar as escolas básicas francesas. O ministro da Educação mandaria confiscar a Légion d'Honneur do presidente, por demência. Em sistemas educativos consolidados, as empresas não precisam se meter na educação básica. Na América Latina, é o caso da Argentina e do Uruguai. Nos Estados Unidos, as empresas defendem a educação no cenário político. Contudo, em países de educação atrapalhada, como o nosso, o empresariado tenta ajudar, trilhando outros caminhos.

    Em um primeiro momento, os empresários socorrem na manutenção das escolas, promovem festas e dão um dinheirinho. Isso é infinitamente melhor do que nada, pois ajuda no cotidiano e abre portas para outras ações. Mas é pouco. Com a experiência, as iniciativas se tornam mais ambiciosas, dando lugar a alguns programas criativos e eficazes, por meio de institutos e fundações do terceiro setor. Modelo disso é a Fundação Bradesco, que opera rede exemplar de escolas, com mais de 100.000 alunos.

   Inevitavelmente, o alcance de iniciativas paralelas é limitado, não podendo mudar o panorama da educação no país. Diante disso, começa a tomar corpo outra forma de participação do empresariado na educação, com quantidade e variedade estonteantes de propostas – das tolas às geniais. Dada a impotência das redes públicas, são programas para reforçar o seu funcionamento. Trazem para a escola o que as empresas têm de melhor, ou seja, profissionalismo, pragmatismo, gestão e foco nos resultados.

    Algumas contrataram as mais brilhantes cabeças para criar programas para alunos repetentes, de alfabetização, educação por TV, uso de computadores, revistas, bem como aperfeiçoamento da gestão. Operando dentro das redes públicas ou para elas, seu impacto potencial é tão grande quanto o tamanho da rede em que agem. Contudo, alguns dos programas mais criativos vêm do terceiro setor de empresas médias, incapazes de financiar iniciativas de grande porte. Entram em cena, nesse momento, empresas enormes, como Petrobras, Banco do Brasil e Vale do Rio Doce, apoiando sua replicação em grande escala, dando-lhes assim uma envergadura muitíssimo maior. Trata-se de uma tríplice aliança: a rede pública, as fundações que desenvolvem os melhores programas e as fundações das grandes empresas que dão a eles um porte nacional. Essa fórmula começa a trazer benefícios concretos e tangíveis para a educação pública.

     Como o que interessa são resultados mensuráveis, ilustremos com exemplos em que há avaliações quantitativas. Boa parte das 33 melhores escolas brasileiras – selecionadas pela Unesco/MEC – recebe apoio do terceiro setor. É também o caso de estados que resolveram dar um salto em sua educação, como Acre, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Uma das quinze maiores médias no Enem foi obtida pela escola da Embraer, que apenas atende alunos egressos de escolas públicas. O Acelera Brasil (Instituto Ayrton Senna) toma alunos multirrepetentes e oferece a eles um programa no contraturno da escola. Em um ano os participantes aprendem o equivalente ao que os alunos não repetentes aprendem em dois.

     Área que chama atenção pelo contraste entre público e privado é a gestão. De um lado, parte do empresariado brasileiro avançou muito na qualidade de sua gestão.  De outro, a maioria das redes municipais dá o exemplo mais rematado de primitivismo administrativo. Daí a importância de trazer a elas as boas práticas de gestão empresarial, passo inicial para que se obtenham bons resultados na educação.

   Vejamos o exemplo do Pitágoras (onde o autor trabalha), cuja fundação criou o Sistema de Gerenciamento Integrado (SGI), que também recebe apoio de grandes empresas. Tomemos os três municípios mineiros com SGI, que estão na região de Sete Lagoas (Jequitibá, Funilândia e Baldim). Nas provas oficiais de avaliação do ciclo inicial, obtiveram 46% de alunos alfabetizados. No total dos quinze municípios sem SGI, a média foi de 22%. Ou seja, a porcentagem de alfabetizados dos três é mais que o dobro da dos outros. Nem nos municípios mais ricos da região os resultados se aproximam dos que têm o SGI.

Vivas para a tríplice aliança

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)

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