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Quinta-Feira, 11 de Setembro de 2008, 11h:27 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:21

Artigo

Adiantar o relógio não adianta nada!

   De tempos em tempos, a questão da mudança do fuso horário de Mato Grosso do Sul volta à pauta dos debates, sempre como uma medida redentora, uma panacéia capaz de erradicar a pobreza e dinamizar a economia do Estado, livrando-o do “atraso”, como se o fuso horário fosse a trava do nosso desenvolvimento econômico e social. Pura falácia.

   A impressão que fica é a de que, na aridez de idéias, na ausência de temas relevantes, saca-se da cartola a mudança do horário, como a milagrosa solução para todos os nossos males. Como diz uma trupe humorística da televisão brasileira: “seus problemas acabaram!”

   Recentemente, essa fênix foi ressuscitada, por meio de um projeto de lei que tramita no Senado, propondo a alteração do horário dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, igualando-o ao de Brasília, com a finalidade de tirar estes Estados do “atraso”.

   Segundo os defensores da proposta, a alteração do fuso horário traria vários benefícios para a economia dos dois Estados, pois “a existência de três fusos horários no Brasil é um obstáculo à maior integração do espaço econômico nacional, e a causa de incalculável prejuízo às atividades da porção mais a oeste do território continental brasileiro.”

   Diante dessa insólita argumentação, estranha-se o desenvolvimento socioeconômico alcançado pelos Estados Unidos da América, mesmo tendo, não apenas três, mas seis fusos horários. Que tecnologia teria desenvolvido aquele povo para superar o obstáculo dos fusos horários à integração de seu espaço econômico? O fato de a Califórnia estar três horas “atrasada” em relação a New York não a impede de ser o mais rico estado americano.

   Definitivamente, não é o horário que determina se um estado, região ou país é próspero ou “atrasado”. Tanto que os municípios brasileiros com os piores IDH situam-se nos estados do Nordeste, que têm o mesmo fuso horário do Sudeste. Mudança de horário não aumenta o número de empregos, não erradica a pobreza, não resolve os gargalos de infra-estrutura e qualificação da mão-de-obra e nem dinamiza a economia. Esses são argumentos indigentes.

   Além de as vantagens econômicas serem duvidosas ou inexistentes, a mudança do horário traz desconfortos e sérios riscos à saúde da população. Mudar o horário implica alterar artificialmente os ciclos circadianos e obrigar as pessoas a permanecerem expostas ao sol nos horários de maior incidência de raios ultravioleta, que causam câncer de pele.

   O horário de verão, que adianta os relógios em uma hora, durante cerca de quatro meses do ano, já causa uma série de manifestações de insatisfação da população. Diversas pessoas reclamam de indisposição e outros desconfortos e especialistas da área de saúde alertam para os problemas decorrentes da prolongada exposição ao sol em horários inadequados. Aliás, os defensores do novo horário têm dito que, após a mudança, não haverá horário de verão no Estado. Isso significa que, durante mais de quatro meses por ano, ficaremos uma hora “atrasados” em relação à região Sudeste. Se, nesse considerável período, ficaremos “atrasados”, então por que mudar o horário? Como dizia Vinicius de Moraes, é tudo uma total insensatez... se foi pra desfazer, por que é que fez?  

   Já que se trata de uma decisão que afetará a vida de toda a população de Mato Grosso do Sul, nada mais justo que todas essas pessoas sejam consultadas sobre a mudança. Por isso, tenho defendido a realização de um plebiscito, para ouvir o povo antes da adoção de uma medida tão impactante. O plebiscito e o referendo são dois importantes instrumentos de exercício da democracia direta, que precisam ser utilizados em casos como esse.

   Uma questão desse grau de importância não pode ser resolvida açodadamente. É necessário que haja tempo e, mais que isso, que haja debates de boa qualidade, com informações científicas, claras e confiáveis, que possam levar o povo a uma decisão consciente e segura. Mudar o fuso horário não é apenas adiantar ou atrasar os ponteiros dos relógios. As conseqüências dessa alteração na vida das pessoas precisam ser profundamente debatidas. Não se trata apenas de se preocupar com a programação da televisão, com o encerramento do expediente bancário ou com o fechamento da BOVESPA.

   Concluindo: a mudança do horário do Estado é desaconselhável em todos os seus aspectos. Do ponto de vista econômico, não faz o milagre de retirar Mato Grosso do Sul do suposto “atraso”. Pelo aspecto humano, acarreta problemas à saúde da população. Como diz o slogan do movimento pela manutenção do horário: Adiantar o relógio não adianta nada.

 * Paulo Duarte é economista, fiscal de rendas do Estado do MS e deputado estadual.

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