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Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2007, 07h:57 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

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Aposentadoria de presidente

     "Alguns ex-presidentes pedem que os esqueçam, outros fazem futrica política. Bill Clinton criou um genial esquema de recrutamento do empresariado internacional para as causas da educação, saúde, meio ambiente e pobreza"

     Mil e trezentas pessoas no enorme salão de um hotel em Nova York. O relator de um dos temas discutidos apresentava a sua síntese e uma câmera de televisão enviava sua imagem a dois telões. A projeção amplificava o visual de três figuras sentadas logo atrás do conferencista. Contrastavam com a elegância sóbria do auditório um alourado em dívida com o barbeador e um chinês de brinquinho, óculos enormes, cabelo com gel, que não conseguia fechar a boca. O terceiro era um moreno, também com barba por fazer e uma camiseta de malha preta sob o paletó. Como deixaram entrar esse trio? Minutos depois, o ex-presidente Bill Clinton anunciava uma doação de 20 milhões de dólares e chamava os donos do YouTube e do Google para receber o vasto diploma. Eram os três. Mais alguns minutos e terminaria a Clinton Global Initiative (www.clintonglobalinitiative.org).
    Alguns ex-presidentes pedem que os esqueçam, outros fazem futrica política. Alguns pontificam sobre os destinos do mundo. Antes de virar pacificador do mundo, Jimmy Carter brandia martelo e serrote, reformando casas populares. Bill Clinton criou um genial esquema de recrutamento do empresariado internacional para as causas da educação, saúde, meio ambiente e pobreza. A receita é imaginativa. Centenas de celebridades, incluindo cinqüenta presidentes e ex-presidentes, bem como outros tantos primeiros-ministros, falam de temas candentes em sessões plenárias. Entre muitos outros, estavam Bill Gates, Desmond Tutu, Gordon Brown e Tony Blair. Além de seu trabalho sério, Brad Pitt, Angelina Jolie e Shakira zelavam pela integridade estética. Havia meia dúzia de prêmios Nobel, para que a integridade intelectual estivesse acima de qualquer suspeita. Líderes das 500 maiores empresas enchiam o auditório. No lado técnico, havia quatro painéis temáticos com empresários e membros da academia. A operação desse grande circo ficou a cargo de 450 voluntários.
     Participantes do Brasil eram apenas Eduardo Braga, governador do Amazonas, e eu. No meu caso, estava no grupo de educação, para discutir brain drain (fuga de cérebros) no Brasil, em sessão moderada por Larry Summers (cuja proverbial arrogância lhe custou o emprego de presidente da Universidade Harvard). Na África, os cérebros migram para pastagens mais verdes. É curioso o contraste com a situação brasileira, em que praticamente não há perdas, sendo ínfima a diáspora de cientistas brasileiros no Primeiro Mundo. Isso é ruim, pois nos isola.
     No Carnegie Hall, em uma das noites, quatro personalidades foram premiadas; uma delas era o tenista Andre Agassi, outra era Vicky Colbert, a colombiana que criou a Escuela Nueva. No decorrer do evento, dezenas de empresários formularam seus compromissos financeiros e as metas quantitativas de seus programas – apoiando ONGs e governos de países pobres. Note-se que a fundação de Clinton não chega perto desse dinheiro, embora vigie para ver se a promessa foi cumprida. Puxa as orelhas de quem fica apenas na conversa. A cada novo compromisso, nos intervalos entre as apresentações, os doadores subiam ao palco para receber o diploma e ser fotografados ao lado de Clinton ou dos moderadores. Ou seja, os temas candentes, o exército de celebridades e a imprensa criavam os atrativos para que o mundo ficasse sabendo dos gestos de generosidade de cada empresa.
     O sucesso da fórmula é medido pelos resultados. Incluindo os dois eventos anteriores, 10 bilhões de dólares já foram comprometidos, permitindo melhorar a vida de 100 milhões de pessoas. Neste ano foram registradas 235 promessas. Permitirão, por exemplo, proteger ou reflorestar 34 milhões de hectares de florestas. Mais 130 milhões de dólares foram comprometidos via internet. À exceção de um programa da Coca-Cola de proteção do meio ambiente, o Brasil foi pessimamente aquinhoa-do nesse grande leilão. Isolacionismo? Provavelmente. Mas podemos ser mais competentes nos próximos anos. E quem sabe nos inspiramos na fórmula vencedora de Clinton, criando algum evento que reconheça publicamente os nossos doadores – que não são poucos.

Claudio de Moura Castro é economista (claudio&moura&castro@cmcastro.com.br)


 

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