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Quarta-Feira, 07 de Março de 2007, 09h:21 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Aprendendo ao ensinar

   Em A Gazeta desta quarta (7), a economista Adriana Vandoni comenta sobre os partidos políticos. Confira reprodução abaixo.

   No fim da semana passada estive em sala de aula. Sou professora do curso de pós-graduação em Gestão de Cidades com a disciplina Ética, Estado e Política. Na semana passada tratamos do surgimento dos partidos políticos e da evolução deles no Brasil. Abordamos também a história das Câmaras Municipais e o papel de verear. Claro que me estendi aos dias atuais e a turma fez com que a aula rendesse muito mais que o esperado.

Ao falarmos sobre a atuação dos políticos brasileiros neste período de intensa degradação moral e sobre o nosso papel diante disso, concluímos que só através das urnas não mudaremos nada a não ser que comecemos a fazer um intenso trabalho de conscientização, de elucidação.

Precisamos resgatar em nós mesmos o valor de sermos cidadãos.

Debatemos a reforma política e seus temas mais polêmicos, dentre eles a famigerada fidelidade partidária. Brinquei com a turma dizendo que fidelidade é aquela promessa feita diante do padre e que nem sempre é cumprida. O que falta é lealdade. Dois exemplos descrevem bem essa diferença gritantemente sutil. Em 2004 José Dirceu apoiou um candidato do PC do B para a prefeitura de Fortaleza e tentou fazer com que a candidata do PT renunciasse à sua própria candidatura. José Dirceu não foi leal com o partido nem com a companheira, mas não rompeu com a sua fidelidade partidária. Outro exemplo foi em 2006, lá mesmo no Ceará. Tasso Jereissati, presidente do PSDB, apoiou um candidato do PSB, irmão de Ciro Gomes, e deixou o tucano Lúcio Alcântara a ver navios. Mais uma vez não faltou fidelidade. Tasso continua PSDB, talvez até morra no PSDB, mas foi desleal com o partido.

Regra alguma poderá exigir lealdade, porque ela é derivada do caráter e, como costumo dizer: por mais que a medicina tenha evoluído ainda não conseguiu encapsular caráter, princípio e dignidade.

Mas o que fazer se muitas vezes somos sucumbidos pelos acontecimentos? Entregar os pontos? Deixar a vida nos levar? Pra onde ela levará se permanecermos apáticos? Claro que muitas vezes me deixo levar pelo desânimo de ver nada acontecendo. Vale a pena continuar falando e escrevendo sobre moral, ética, honestidade e futuro? Esses são questionamentos que venho me fazendo, mas um e-mail de uma aluna me fez enxergar que esse é o caminho:

"Quero mandar um agradecimento especial pela sua aula no curso Gestão de Cidades, pois ela me fez retomar a minha consciência moral e a responsabilidade social, que há muito tenho me afastado, seja por desencanto ou mesmo decepção por todo esse cenário político que se apresenta de forma tão imoral e sem ética por parte de nossos representantes.

Sua aula me trouxe de volta a essa realidade que tanto queria ignorar, como se ignorando essas ações políticas, fruto de falsos representantes do povo, pudesse me inocentar de minhas responsabilidades como cidadã.

Minha vida profissional e pessoal sempre foi pautada na defesa dos direitos e deveres dos indivíduos, garantidos em nossa Constituição, e por me envergonhar enquanto cidadã com esses que deveriam honrá-la e defendê-la deixei de forma covarde de reagir a esses abusos, aceitando com passividade que eles fossem até reeleitos.

Trim... Trim... Um toque de alerta veio através de sua aula e percebi que tenho que me levantar e me juntar aos muitos outros. Que esse meu adormecer fez, na verdade, deixar de lutar pela justiça que sempre acreditei. Obrigada".

E ela ainda agradece. Imagine! Eu é que tenho a agradecê-la por me mostrar que este Brasil ainda vale a pena, apesar de alguns.

Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. (avandoni@gmail.com)

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