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Terça-Feira, 16 de Janeiro de 2007, 02h:03 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Ausência e saudade

    Em artigo nesta terça (16) em A Gazeta, o professor Lourembergue Alves discorre sobre a morte e lamenta, entre tantas perdas, a de João Alberto Novis Gomes Monteiro, que ocupava a cadeira número 34 da Academia Mato-grossense de Letras. Confira a reprodução abaixo.

    A morte não é outra coisa senão a ausência de vida, o que, dito de outra maneira, a não companhia física de uma pessoa. Por conta disso, e não sem razão, os que ficam por aqui, no espaço terrestre, desde parentes, admiradores e até amigos, passam a conviver com a saudade, que é alimentada dia-a-dia pela falta sentida. Sensação só reconfortada pela lembrança do ausente fisicamente, constituída de seus feitos, qualidades, defeitos e maneira bem particular de ser, jamais percebida em outrem, mesmo nos que lhe são descendentes, isso porque cada humano é único e o conjunto de suas obras, exclusivo; perpetuado na lembrança e preservado nas prateleiras que dão guaridas a reminiscência. Sustenta-se, desse modo, a imortalidade, tão defendida por uma academia de letras, tal como a do Estado de Mato Grosso, muito embora esta, tanto quanto as outras, se ressinta das perdas, todas elas, inclusive a sua mais recente o ocupante da cadeira número 34, João Alberto Novis Gomes Monteiro.

   Médico por formação, cuiabano de nascimento e amante das coisas com as quais se debruça a Academia Mato-grossense de Letras. Foi paixão à primeira vista, muito antes de sua posse como membro-efetivo, e o amor que sentia por ela tornou-se mais forte a partir do instante em que se viu atravessar pela vez primeira os umbrais da instituição. Viu-se ligado a ela a tal ponto que se tornou exemplo para os acadêmicos que a ingressaram depois dele, arrebatando admiração dos antigos e respeito dos que a visitavam, pois o viam como um presidente dedicado e um de seus porta-vozes mais competente. Passava horas na sala da presidência, respondendo as cartas que chegavam, atendendo a telefonemas e recebendo os visitantes. Fazia tudo com simplicidade e naturalidade. Parecia receber luzes dos que já tinham deixado o mundo físico, mas que ainda estavam por ali pelas sensações, lembranças e imagens. Certamente por isso, estava quase sempre de bom humor, vez por outra deixando escapar uma ou outra piada em meio a sorrisos, da mesma forma que passava a cantarolar, após o ritual das posses, entre os comes e bebes, canções da velha guarda, buscava-as com a força de um garimpeiro e com a facilidade de um pesquisador experiente ao abrir as caixas sonoras do tempo; porém mostrava-se sério e duro quando saia em defesa da instituição. Não retrocedia, nem se deixava abater diante das dificuldades enfrentadas, e, olhe que a situação econômico-financeira da academia estava, tanto quanto agora está muito complicada.

   Não foi fácil, portanto, sua saída da presidência da Academia Mato-grossense de Letras para assumir um cargo de terceiro escalão no governo estadual, para o qual chegou a rabiscar alguns planos e alimentar sonhos de trabalho, porém ficou lá por poucos dias; talvez se desse por vencido pela burocracia estatal, a mesma que ele se acostumara a enfrentar quando saia em defesa ou da reforma do antigo Casarão "Barão de Melgaço" ou da posse pelo Instituto Histórico e Geográfico e pela AML do prédio ao fundo, o mesmo que havia, por décadas, servido de sede da Secretaria de Educação do Estado.

   Mostrou-se frágil, afinal todo ser humano o é, não apenas um ou outro, e, nessa condição, viu-se abatido pela doença. Recorreu ao tratamento médico, mas o seu corpo já não tinha mais a resistência de outrora; assim, antes mesmo do término de 2006, a morte bateu à porta, arrebatando-lhe a vida, deixando dessa forma vaga a cadeira número 34. Sua ausência tira o brilho um pouco da instituição. Suas obras, felizmente, ficaram, somadas a de tantos outros, tais como a de um Lenine Povoas, Dunga Rodrigues e Satyro Benedicto de Oliveira, com os quais agora faz companhia lá nos céus. Ausências e saudades sentidas pelos seus confrades e confreiras do Instituto e da Academia.

Lourembergue Alves é professor da Unic e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço às terças-feiras, sextas-feiras e aos domingos. E-mail: lou.alves@uol.com.br

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