Últimas

Sexta-Feira, 12 de Janeiro de 2007, 03h:50 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Banditismo e incompetência governamental

    Para o professor Juacy da Silva, a violência em suas diversas formas afeta mais os países pobres. Confira abaixo o seu artigo publicado nesta sexta (12) em A Gazeta.

     A onda de violência que assola o mundo tira a vida de aproximadamente 1,8 milhões de pessoas a cada ano. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), contidos no relatório sobre violência e saúde, demonstram que em 2000 foram cometidos 520 mil homicídios; 815 mil suicídios e que as guerras ceifaram 310 mil vidas, totalizando 1.659.000 pessoas.

    A violência em suas diversas formas afeta mais os países pobres e em termos sociais mais as camadas pobres e miseráveis da população. Segundo esses dados, 91,1% das mortes violentas ocorreram nos países subdesenvolvidos e apenas 8,9% nos países do primeiro mundo.

    Esta realidade pode ser vista quando são comparadas as taxas de mortes violentas e outros crimes violentos por 100 mil habitantes. Nos países subdesenvolvidos a taxa era de 32,1 e nos desenvolvidos 14,4. Em Nova York era de 6,0; em Vitória, 72,4; Rio de Janeiro, 41,2 e Cuiabá, a quinta capital mais violenta, de 38,1. Em termos sociais, tanto o número quanto as taxas de mortes violentas, também a população pobre é a mais afetada, chegando em alguns países a quatro vezes mais do que as camadas média e alta da sociedade.

    A escalada da violência tem um elevado custo para a sociedade em geral e para as famílias vitimadas em particular. Existem os custos sociais, psicológicos e também os custos econômicos.  

    O mesmo estudo da OMS destaca que os custos econômicos variam entre os países. Apenas alguns exemplos desses custos em relação ao PIB: a média para os países desenvolvidos fica entre 3,5% a 6%, enquanto para os subdesenvolvidos entre 10 a 20%.

     O peso da violência para alguns países em relação ao PIB: Nos Estados Unidos, incluindo os custos das guerras, chega-se a 20%, ou seja, mais de 2 trilhões de dólares; para a Austrália somente os custos relacionados com homicídios e tentativas de homicídios em 2001 foram de 159 bilhões de dólares.

    Em 2004, na Colômbia, onde a guerra civil junta-se ao banditismo do narcotráfico, o custo da violência consumiu 24,7% do PIB e em El Salvador, que durante décadas também enfrentou guerra civil esse percentual foi de 24,9%. Na Venezuela foi de 11,8%, no Peru, de 5,1%.

    E no Brasil? Bem, aqui, apesar de não haver guerra civil declarada, há décadas a violência generalizada, incluindo o banditismo urbano e rural, além de outras formas de violência, aterroriza a população e tem reflexos econômicos negativos. Segundo estudos da OMS, BID, Banco Mundial e outras instituições de pesquisa a violência consome 10,5% do PIB. Isto representaria 157,6 bilhões de dólares em 2004.

    Somente nas estradas federais ocorreram 222,2 mil acidentes, resultando em 20,6 mil mortes que custaram 8 bilhões de reais. Segundo o Ipea, apenas os acidentes nas estradas brasileiras consumiram 26,3 bilhões de reais, metade do orçamento do Ministério da Saúde naquele ano.

    Entre 2001 e 2006 ocorreram 274 mil homicídios e 368,7 mil tentativas de homicídios no Brasil. Para termos uma idéia mais aterradora, entre 1980 e 2006 foram assassinadas 1,2 milhões de pessoas e 1,6 milhões foram vítimas de tentativas de homicídios em nosso país.

   Os custos legais, incluindo os sistemas Judiciário, policial e penitenciário; os custos hospitalares, os custos de apoio às famílias das vítimas e dos réus; além dos custos indiretos como perda do investimento em capital humano; a fuga de investimentos, a deterioração do sistema produtivo; os gastos com segurança pública e privada representam um enorme fardo para a sociedade.

    Tudo isto representa um desafio para toda a sociedade, mas também a constatação de que nossos governantes têm sido e continuam sendo incompetentes para definirem políticas, estratégias, planos e programas que, de fato, coloquem um paradeiro nesta escalada insensata e desgastante.

    Geralmente, como no momento atual, ante uma onda de violência de maior magnitude, nossas "autoridades" costumam vir a público mostrar, em discurso, suas preocupações e falam em medidas e até definem prazos para que a violência seja reduzida. Todavia, o tempo passa e as estatísticas continuam mostrando que a violência continua ou até aumenta e nossos governantes permanecem empoleirados no poder, usufruindo de suas benesses! Esta é uma triste realidade!

   Juacy da Silva é professor universitário, mestre em sociologia e colaborador de A Gazeta. E-mail professorjuacy@yahoo.com.br

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Erros estratégicos e fim de mandato

niuan ribeiro 400   Niuan Ribeiro (foto) termina melancolicamente o mandato de vice-prefeito da Capital, marcado pela ambiguidade, erros estratégicos e vacilações. Logo no início da gestão, resolveu romper politicamente com o prefeito Emanuel, a quem passou a criticar, achando que se consolidaria como...

Retorno ao TCE ou cargo no governo

marcelo bussiki 400 curtinha   A partir de 1º de janeiro, com o fim do mandato de vereador pela Capital, Marcelo Bussiki (foto) retorna ao cargo efetivo de auditor do TCE-MT. Mas é possível que ele seja convidado por Mauro Mendes para compor o quadro de principais assessores do chefe do Executivo estadual. Bussiki foi...

DEM, bate-cabeça e plano B frustrado

fabinho garcia 400 curtinha   O ex-deputado federal e empresário Fábio Garcia (foto) acabou deixando o DEM órfão de candidatura a prefeito da Capital. Numa conversa com o governador Mauro, seu padrinho político, Fabinho o assegurou que iria sim disputar o Palácio Alencastro, mesmo pedindo trégua por...

Mauro sofre 2 derrotas para Emanuel

mauro mendes 400 curtinha   Mauro Mendes (foto), principal estrela do DEM em MT, acabou amargando duas derrotas em Cuiabá para o prefeito Emanuel, neste ano, embora não tenha sido candidato nas urnas. Em princípio, buscou candidatura própria com o seu partido, mas todos os nomes possíveis, como de Gilberto, Gallo,...

Três derrotas do marqueteiro Antero

antero de barros curtinha 400   O ex-senador, jornalista e marqueteiro Antero de Barros (foto) não levou sorte nas campanhas eleitorais as quais coordenou nestas eleições. Em Lucas do Rio Verde, empurrou à reeleição o prefeito Luiz Binotti que, mesmo com o poder da máquina, perdeu para o...

Lideranças jogaram duro contra EP

carlos favaro 400 curtinha   Emanuel Pinheiro teve uma reeleição sofrida em Cuiabá. Lutou contra os principais líderes políticos, que se juntaram em torno da candidatura de Abílio, uns publicamente, outros nos bastidores. O governador Mauro Mendes, por exemplo, jogou pesado para tentar derrotá-lo....

MAIS LIDAS