Últimas

Segunda-Feira, 09 de Abril de 2007, 10h:05 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Boa viagem

     A escritora Lya Luft, em artigo na Veja desta semana, comenta sobre o caos que o país ainda vive devido a greve dos controladores de vôos. Confira abaixo.

   Houve um tempo em que viajar de avião era privilégio; depois ficou banal; de momento, é aventura de alto risco. Há meio ano senti pela primeira vez na pele algo da realidade assustadora que começava a se manifestar, e de outra mais grave que nunca foi bem explicada: meu marido e eu levamos 24 horas entre Salvador e Porto Alegre, numa cadeia de desinformação, aflição, mentira, exaustão por parte de funcionários e passageiros. De lá para cá, sabe-se que, por baixo da capa de azares, neblina e chuva, quedas de energia, urubus nas turbinas, cachorros na pista, se movem questões ainda mais sérias, ligadas a hierarquia e disciplina militar. Não tenho nem cacife nem intenção de comentar esse aspecto. Falo dos dissabores do cidadão comum que viaja.

     No dia que seria o do apagão geral, chegamos ao aeroporto internacional do Rio, querendo voltar para casa, com aquele desejo vil de que nosso vôo atrasasse "só" uma hora. Logo soubemos que o aparelho ainda nem decolara de Brasília: a demora seria de três horas, talvez. Procuramos refúgio num restaurante do aeroporto, cada um abriu seu notebook, e ficamos administrando o cansaço e a insegurança. Quando descemos até a sala de embarque, continuava o espetáculo dos passageiros e funcionários desnorteados. Uma pergunta pairava no ar: e ninguém faz nada? Ninguém fazia nada além de se lamentar.

      No Rio, um grande amigo, comandante aposentado, que foi um dos melhores pilotos deste país, me dizia: "Hoje em dia tenho medo de voar, e espero que minha família voe o mínimo possível. Os controladores esgotados lidam com equipamentos antiquados ou estragados; os pilotos estão no limite da resistência; não existe autoridade competente ou responsável".

     Um sério quebra-quebra em lugar de tantas queixas adiantaria? Duvido. Mas confesso meu desejo utópico de que os passageiros do país inteiro fizessem o seu apagão pessoal: até que tudo mude, ninguém viaja.

     Pois na sexta feira 30 de março os controladores pararam, o país parou. Nós, sem ainda saber disso, embarcamos, e ficamos mais uma hora inteira fechados no avião. Não é difícil imaginar a tensão generalizada. O avião teria manutenção adequada, controlador e comandante estariam com seus reflexos ótimos, com equipamentos de primeira – como tem de ser porque lidam com vidas, e porque o estado nos deve isso? Lá pelas tantas faz-se ouvir o comandante, mais uma vez pedindo desculpas pelo atraso e pela falta de alguma autoridade que resolvesse o assunto.

     Quando enfim anunciou que íamos decolar, ele disse, quase exaltado, que além de tudo o controlador a quem pedira informações lhe respondera "com arrogância, grosseria e ironia".

     Se essa é a situação de quem, em terra e no ar, cuida das nossas viagens, ninguém sabe como a tragédia com o avião da Gol ainda não se repetiu. Mas, como disse uma iluminada autoridade federal, "não existe problema na aviação brasileira, é tudo apenas a lei de Murphy".

     Aliás, as autoridades dizem coisas estupendas, como: "É preciso ter paciência, sempre que fomos impacientes o país entrou em retrocesso"... Com todo o respeito, não há mais para onde retroceder, estamos todos ameaçados de morte cada vez que voamos. Não por alguma fatalidade, mas pela incompetência, descaso e fraqueza das autoridades. E por algum assunto que se agita na sombra, que nós, simples mortais, não compreendemos. O presidente da República há meio ano exige investigação rigorosa, punição de responsáveis e fim do caos aéreo: pelo visto até agora parece que ninguém levou a sério esse pedido, como se não levasse a sério o próprio presidente. Em vez disso, outro ministro afirma que "em uns dez ou quinze dias teremos um estudo completo da situação". Os cadáveres dos passageiros daquele fatídico vôo da Gol continuam simbolicamente insepultos, clamando por autoridades eficazes e seriíssimas mudanças, para que não haja muitas centenas mais de vítimas dessa situação inimaginável em um país civilizado.

     Nos dias após a parada geral, para espanto meu a vida continuou, capenga mas com engrenagens precárias rodando, promessas e acordos vagos, informações idem. Dizem que todos os controladores retomaram o trabalho, aviões voltaram a trafegar, aeroportos menos tumultuados porque, com tantos vôos cancelados, muitos desistiram de viajar. Até quando, e qual a solução?

     Reduzindo ao máximo minhas andanças de trabalho, desejo que a gente voe em segurança, chegue são e salvo, não seja humilhado e ofendido em aviões, aeroportos, e em geral – pois somos todos passageiros de uma grande nau de insensatos. Boa viagem!

 

Lya Luft é escritora

 

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Sem alarde, vereador muda de partido

viniciys clovito curtinha   De última hora e sem alarde, o vereador pela Capital Vinicyus Hugueney (foto) resolveu deixar o PP e se filiou ao Solidariedade. Com isso, o PP não se torna o único com a maior bancada. Está com três vereadores, assim como o PV e o PSDB. No SD, Vinicyus vai concorrer internamente com...

Irmão de Thelma na lista dos traidores

ronaldo pimentel 400 curtinha   Na carta aberta assinada por Ricardo Saad, que preside o PSDB cuiabano, ele reclama de dívidas milionárias herdadas de antecessores, inclusive dos R$ 4 milhões de pendências somente do pleito de 2016, e menciona, entre outras coisas, que "(...) há correligionários, que estavam...

A bronca de Saad com Wilson Santos

ricardo saad curtinha 400   O vereador Ricardo Saad (foto), presidente do PSDB da Capital, resolveu disparar a metralhadora verbal contra colegas tucanos. Sobre o ex-prefeito e hoje deputado Wilson Santos, considera que este nada fez para ajudar o partido a se reestruturar, visando as eleições de outubro. Mesmo sendo vice-presidente...

Janela tira muitos políticos do calvário

gilberto figueiredo curtinhas   O fechamento da janela partidária, que encerrou-se no último sábado, dia 4, marcou o fim de um longo calvário aos partidos, que tiveram que suportar em seus quadros políticos que não estavam mais de “alma”, mas somente de “corpo”. Na Câmara...

Só 2 vereadores não vão à reeleição

felipe wellaton curtinha 400   Apenas dois entre os 25 parlamentares cuiabanos não vão buscar a reeleição. O licenciado Gilberto Figueiredo, que trocou o PSB pelo DEM, quer concorrer a prefeito, assim como Felipe Wellaton (foto), que até trocou de partido, saindo do PV e agora no Cidadania. Pretende disputar...

4 fora da reeleição em Rondonópolis

thiago muniz 400 curtinha   Dos 21 vereadores de Rondonópolis, somente quatro não vão à reeleição, sendo eles Thiago Muniz (foto), agora no DEM, Hélio Pichioni (PSD), Jailson do Pesque-Pague e Rodrigo da Zaeli (ambos do PSDB). Eles garantem se tratar de um caminho sem volta. Destes, dois tentam...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.