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Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, 09h:02 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

VARIEDADES

Brasília ignora a realidade, diz funcionário do Ibama

Chefe de órgão em Alta Floresta afirma que não tem como fazer a fiscalização

Segundo Cláudio Cazal, fazendeiros e madeireiros da região não temem multas e embargos porque sabem da falta de estrutura

RODRIGO VARGAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ALTA FLORESTA

As medidas emergenciais adotadas pelo governo federal para conter o desmatamento na Amazônia são inócuas e muito distantes da realidade enfrentada pelos servidores que respondem pela fiscalização nas áreas mais críticas. A opinião é do chefe-substituto do escritório do Ibama em Alta Floresta (830 km de Cuiabá, MT), Cláudio Cazal, 29.

"Esse anúncio só mostrou o quanto Brasília desconhece a realidade da Amazônia. É uma espécie de autismo", afirmou.

Na última quarta-feira, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que uma área superior a 3.000 quilômetros quadrados de floresta na Amazônia havia sido derrubada nos últimos cinco meses de 2007.

O anúncio levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a convocar uma reunião de emergência com seis ministros para tratar do assunto. Após a reunião, o governo federal anunciou a suspensão de autorizações para desmatamento em 36 municípios da Amazônia Legal. Os municípios -6% do total existentes na Amazônia- foram responsáveis por metade do abate de árvores na região.

"De que adianta bloquear autorizações de desmate em uma região em que a maior parte das derrubadas são feitas sem autorização? Embargo de propriedades já fazemos há muito tempo. O que não temos é estrutura para retornar às áreas para verificar se o embargo está sendo cumprido", disse Cazal.

O escritório do Ibama de Alta Floresta é responsável pela fiscalização de crimes ambientais em 13 municípios da região norte de Mato Grosso, que somam 92 mil km2.

"É uma área superior ao território dos Estados do Rio de Janeiro [43,7 mil km2] e do Espírito Santo [46 km2] juntos. Teríamos que ter ao menos 50 servidores para dar retorno a essas medidas de emergência, mas temos só três. E, atualmente, nenhum carro."
Segundo Cazal, os quatro veículos colocados à disposição do escritório estão quebrados.

O desmatamento flagrado pela Folha anteontem, quando a reportagem fez um sobrevôo de monomotor por Alta Floresta e Paranaíta, terá de esperar o tempo da manutenção para ser impedido, segundo Cazal.
"Se precisássemos sair agora, não teríamos condição. Essa é a realidade", afirmou ele, que está há três anos no Ibama de Alta Floresta e seis meses na função de chefe-substituto.

Tropa de elite
O Ibama, na opinião de Cazal, atua de forma precária nas regiões críticas e tem excesso de servidores, verbas e estrutura em Brasília e nos escritórios das capitais. "Quem ouve falar do Ibama logo imagina um Bope [Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro, que inspirou o filme "Tropa de Elite", mas isso é uma ilusão. Os servidores e os recursos estão concentrados onde o problema não existe", afirmou.
Recentemente, conta Cazal, um carro do Ibama teve um problema mecânico durante uma operação. O local era isolado. Para buscar ajuda, segundo ele, a equipe teve de seguir de carona com caminhões de madeireiras ilegais.

"É algo inacreditável. É como se a Polícia Federal pedisse ajuda aos traficantes para empurrar um carro", disse Cazal.

Os fazendeiros e madeireiros da região não temem multas e embargos, segundo Cazal, porque contam com a falta de estrutura da fiscalização. "A multa eles protelam e não pagam. O embargo, não respeitam. Eles só temem a perda de bens e também a cadeia. Mas isso nunca acontece".

Para os servidores, a falta de incentivos para permanecer nas áreas críticas e a ineficácia da estrutura montada para o controle são motivo de descontentamento e frustração.

"Eu sou biólogo, estudei 15 anos para isso, passei em um concurso difícil. Tudo para vir para esse lugar e ver a floresta ser trocada por camionetes. Temos muito dentro do que é possível, mas a situação está longe de estar sob controle."

O Estado recordista de desmatamento nos últimos cinco meses de 2007, de acordo com o Deter, o sistema de detecção de desmatamento em tempo real do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), foi Mato Grosso, onde a derrubada da floresta aumentou 53,7% no período -área de 1.786 quilômetros quadrados.

Pará (591 quilômetros quadrados) e Rondônia (533) eram os outros dois Estados da lista do Inpe com os maiores índices de desmatamento do país.

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