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Sexta-Feira, 09 de Março de 2007, 09h:26 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Consenso do clima, uma outra perspectiva

   Em artigo na Folha de São Paulo desta sexta (9), o doutor em geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Walter Porto-Gonçalves, comenta: "Invocar o biocombustível por causa do efeito estufa não pode ocultar os danos ecológicos e sociais que as monoculturas têm causado". Confira reprodução abaixo.

    FORAM 40 anos de longa e desigual luta de ambientalistas e cientistas para afirmar o papel do homem como agente do aquecimento global. Nos EUA, pesquisas financiadas pelo complexo científico-industrial-militar recomendaram que não se usasse tal expressão.
   Agora tudo indica que estamos no limiar de mudança da matriz energética baseada nos fósseis -não necessariamente pelas razões apontadas pela ONU. Com as recentes derrotas políticas decorrentes das intervenções militares dos EUA, fica em xeque o esforço geopolítico de controlar o Oriente Médio e a Ásia Central.
    Em todo país onde há exploração de petróleo e gás, tem havido contestação à ação das grandes empresas do setor. E as mais recentes projeções sobre as reservas disponíveis de petróleo apontam para a escassez. Assim, surgem duas alternativas.
Uma é o uso da energia nuclear, única das alternativas tecnológicas também dominada por setores do atual complexo científico-industrial-militar.
     A outra é o biocombustível, que não é novidade para os brasileiros. O secular latifúndio monocultor de cana-de-açúcar soube se mover, nos anos 1970, para transformar a sua crise específica numa questão nacional de alternativa energética, que deu na criação do Pró-Álcool. O Brasil mostrou a sua criatividade científica e tecnológica, remodernizando o velho latifúndio.
    A "modernidade" procura esquecer a sua colonialidade constitutiva, ignorando o caráter contraditório que atravessa a própria tecnologia que sempre é parte das relações sociais e de poder. A modernidade do engenho, do Pró-Álcool e das novas tecnologias de produção de biocombustíveis não existe num vazio na sociedade.
    No Brasil, o preço da terra mais baixo que nos EUA atrai inclusive fazendeiros de lá, que adquirem amplas extensões de terras nos cerrados do Nordeste e Centro-Oeste. Para a Casa Branca, é estratégica uma aproximação com o Brasil por meio do biocombustível. Não só nossas condições naturais tropicais são excelentes mas também o nosso know-how.
    A julgar pela expansão dos modernos latifúndios monocultores, o modelo é inaceitável de um ponto de vista socioambiental. Invocar o biocombustível por causa do efeito estufa não nos deve fazer esquecer os enormes danos ecológicos e sociais que as grandes monoculturas têm causado.
    No Brasil, entre 1992 e 2002, quando o agronegócio e os latifúndios monocultores se tornaram a menina dos olhos do modelo neoliberal, se perderam 2 milhões de empregos só na agricultura. Além disso, a sua expansão tem sido acompanhada pelo aumento do desmatamento e da violência. O desperdício de água é grande, já que cerca de 70% da água da irrigação se perde por evaporação.
     Nos cerrados, o desequilíbrio hidrológico entre as chapadas e as veredas vem se acentuando com o uso dos pivôs centrais. A poluição hídrica se generaliza devido ao uso de agroquímicos tóxicos. As cheias e as vazantes se acentuam, pois, com a perda de solos por erosão, aumenta o assoreamento e a carga de material sólido nos rios. É grande também a perda de diversidade biológica dos cerrados. O complexo que une grilagem, madeireiras, pastagem e agronegócio avança e põe em risco a Amazônia. Ignora-se toda a riqueza da cultura das populações originárias e camponesas que habitam essas regiões. Estudos que comparam a energia gasta na produção e transporte do biocombustível com a energia obtida no final apontam que há um balanço negativo.
    Encontrar uma alternativa ao modelo fossilista em crise não parece difícil. Esperamos não precisarmos de mais 40 anos para percebermos que o efeito estufa tem sua causa num modelo de desenvolvimento injusto e depredador. Atacar apenas o lado tecnológico não resolve o problema. Mas talvez não tenhamos outros 40 anos...


 

CARLOS WALTER PORTO-GONÇALVES, 57, doutor em geografia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é professor da pós-graduação da UFF (Universidade Federal Fluminense). É autor de "Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização".

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