Últimas

Sexta-Feira, 23 de Março de 2007, 00h:00 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Contra a força não há resistência

     O jornalista Kleber Lima comenta as declarações do senador Jaime Campos contra a cooptação de prefeitos por parte do grupo do governador Blairo Maggi. Confira abaixo

    O senador Jaime Campos denunciou esta semana o Partido da República por estar, no seu dizer, cooptando de maneira pouco ética os prefeitos de outros partidos aliados. Vociferou mas teve a cautela de poupar de suas críticas o presidente e comandante em chefe do PR, que vem a ser o governador Blairo Maggi.
    O cuidado de Jaime em relação a Blairo justifica o título deste artigo. A rigor, não é novidade que o partido de quem esteja no poder seja o maior e mais forte. As adesões surgem por gravidade. Presenciei outro dia um articulador do PR recomendando a um prefeito que verificasse antes com o seu próprio partido a oportunidade de mudar de sigla. Não me pareceu que tenha havido um assédio brutal do PR sobre os alcaides. Ao contrário, muitos prefeitos, no afã de tentar melhorar seu relacionamento com o governo, se ofereceram ao PR.
    Essa mistura entre partido e governo é clássica e afeta a todos que já tiveram experiência de poder. A esquerda socialista foi a primeira a sofrer com esse dilema, quando permitiu o surgimento da chamada aristocracia operária. Os partidos burgueses, embora sem militância de massa, vivem-na no âmbito dos líderes intermediários, justamente os prefeitos, vereadores e deputados.
   Infelizmente, a cultura partidária em nosso meio é inexistente. Partido, salvo raríssimas e honrosas exceções na política brasileira, é pura conveniência. Exceção na qual, registre-se, deve ser enquadrado o próprio Jaime Campos e parte da atual cúpula do PFL, que estão por ali faz bastante tempo, e já enfrentaram muitos revezes nesse período sem hesitar. O mesmo se diga do velho PMDB e do PT, entre os maiores partidos da atualidade em nosso estado. Pra quem não entendeu, é um elogio.
   Entretanto, o próprio PFL, bem como o PMDB - e porque não, o PT -, experimentaram seus melhores momentos como partido exatamente quando estavam empodeirados. Fora do poder, os partidos encolhem, passam por uma depuração - o que pode ser salutar, mas desde que os dirigentes aprendam com essa lição, e no futuro, quando a fronteira de poder passar por suas fileiras novamente, fixe critérios mais partidários e conceituais para receber adesões, e não apenas o eleitoral.
   A situação guarda semelhança com a relação do político com o eleitor. O candidato reclama invariavelmente do que chama de corrupção do eleitor, que pede benefícios pessoais, quando não financeiros, para dar seu voto. Esquece, todavia, que foi ele, o candidato, quando precisava de votos, que ofereceu as vantagens ao eleitor. O eleitor aprendeu a técnica, dominou-a e a usa a seu favor agora. É uma relação de causa e efeito que vive uma espécie de espiral - o limite é o infinito.
   Pior de tudo é que o bom senso e uma leitura realista do ambiente político em que vivemos não apontam para a superação desse cancro. Algumas mexidas na legislação, dentro das inúmeras propostas da chamada Reforma Política poderiam sinalizar mais concretamente para isso. A adoção da fidelidade partidária, com punição de perda de mandato para quem mudar de partido, é bem-vinda nesse sentido. Mas, o que precisamos, realmente, de fato, é de uma mudança cultural, onde os eleitores retomem o interesse pela política e o respeito pelos políticos; e os políticos, por sua vez, aprendam a respeitar e a se vergar ao interesse coletivo, no mínimo aos dos grupos sociais que representam. Até lá, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

KLEBER LIMA é jornalista pós-graduado em marketing e consultor de comunicação. E-mail: kleberlima@terra.com.br /www.kgmcomunicacao.com.br

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Mauro sofre 2 derrotas para Emanuel

mauro mendes 400 curtinha   Mauro Mendes (foto), principal estrela do DEM em MT, acabou amargando duas derrotas em Cuiabá para o prefeito Emanuel, neste ano, embora não tenha sido candidato nas urnas. Em princípio, buscou candidatura própria com o seu partido, mas todos os nomes possíveis, como de Gilberto, Gallo,...

Três derrotas do marqueteiro Antero

antero de barros curtinha 400   O ex-senador, jornalista e marqueteiro Antero de Barros (foto) não levou sorte nas campanhas eleitorais as quais coordenou nestas eleições. Em Lucas do Rio Verde, empurrou à reeleição o prefeito Luiz Binotti que, mesmo com o poder da máquina, perdeu para o...

Lideranças jogaram duro contra EP

carlos favaro 400 curtinha   Emanuel Pinheiro teve uma reeleição sofrida em Cuiabá. Lutou contra os principais líderes políticos, que se juntaram em torno da candidatura de Abílio, uns publicamente, outros nos bastidores. O governador Mauro Mendes, por exemplo, jogou pesado para tentar derrotá-lo....

Bezerra ignora filiado do seu filiado

carlos bezerra 400   Carlos Bezerra (foto), o "cacicão" do MDB, abandonou antes da hora o palanque de Emanuel Pinheiro, mesmo se tratando do filiado mais importante em representatividade partidária no Estado. Bastou a pesquisa Ibope mostrar que o prefeito da Capital estava atrás de Abílio nas intenções de...

Sob ataques e humilhação e vitorioso

emanuel pinheiro 400 curtinha   Emanuel Pinheiro (foto) se emocionou ao falar com a imprensa neste domingo, pela primeira vez como prefeito reeleito. Lembrou que foi atacado não só neste período eleitoral, mas desde o início do mandato. Destacou a aprovação popular, com 86% de avaliação...

PT na oposição independente do eleito

edna sampaio 400   Independente de quem ocupar o Palácio Alencastro, a partir de janeiro, a professora Edna Sampaio (foto), única eleita pelo PT à Câmara de Cuiabá, fará oposição ao prefeito. E dá sinais de que será uma parlamentar bastante atuante. Neste segundo turno, como o seu...

MAIS LIDAS