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Domingo, 07 de Janeiro de 2007, 06h:16 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Crime político

      "O julgamento e a condenação do ex-ditador, como foram conduzidos, transformaram-se em dois atos de uma peça teatral grotesca". É o que comenta o professor universitário Lourembergue Alves, em A Gazeta deste domingo (7) a cerca da morte de Saddam Hussein.

      Leia reprodução abaixo.

    O ser humano, quase sempre, não gosta de falar sobre a morte. Isso é natural, até porque não existe nada mais violento do que o subtrair de vidas, se bem que o nascimento também é um ato violento, pois registra uma expulsão ou extração completa do corpo da mãe de um nascituro; porém, ao contrário daquele, este último ato permite o aflorar de uma existência, o que leva a comemoração e toda uma preocupação com o novo ser; diferentemente quando se tem um passamento, no qual se instala a tristeza e a dor, e, por conta disso, não há lugar para festas. Entretanto, na morte de Saddam Hussein se presenciaram esses dois sentimentos ao mesmo tempo, tanto no Iraque como em outra parte do mundo, com as pessoas se agrupando ou a favor ou contra o enforcamento do ex-ditador iraquiano. Não cabe a esta coluna dizer com qual desses grupos se encontra a verdade. Mas, isto sim, sair-se em defesa da liberdade, que se assenta no terreno complexo da política, cuja existência se dá no campo do diálogo, e este, por sua vez, se instala no quadro da paz e da democracia. Nesse sentido, não se justifica a pena de morte.

    É claro que Saddam Hussein foi um ditador sanguinário e, durante vinte e quatro anos, perseguiu diuturnamente seus adversários políticos, assassinando quase todos, até mesmo quem lhe era ligado por laços de parentescos, sem dar a eles possibilidade alguma de defesa, da mesma forma que se deu, por exemplo, em 1982, quando autorizou o assassinato de 148 xiitas. Crime que o levou à condenação à morte, uma vez que, no Iraque, os criminosos podem estar sujeitos a pena capital; curiosamente criada e implantada pelo próprio ex-ditador. Há, portanto, que se respeitar às leis do Estado iraquiano; sem ser, contudo, partidário de tal procedimento, principalmente quando se sabe que o prisioneiro Saddam foi submetido a um julgamento movido pelos interesses eleitoreiros do presidente George W. Bush, tanto que a sua decisão final se deu dois dias antes das eleições do Legislativo nos EUA; o condenado Saddam não foi tratado com respeito pelos carrascos, revidando os xingamentos recebidos; e, pior ainda, foi executado na frente de testemunhas populares; transformado, desse modo, em um espetáculo bárbaro, muito assemelhado ao que ocorria no regime medieval, inadequado então aos tempos atuais, voltados à democracia, e sem a dignidade da Justiça de Nuremberg, que julgou os crimes praticados pelos nazistas.

    Assim, o julgamento e a condenação do ex-ditador, como foram conduzidos, transformaram-se em dois atos de uma peça teatral grotesca, dirigida pela Justiça internacional, capitaneada pelo governo estadunidense. Talvez, por isso, não servirão de anteparo democrático, muito menos como instrumento pára-choque com o fim de acabar com a guerra civil iniciada com a invasão dos Estados Unidos no Iraque. A morte de Saddam Hussein pode, e certamente deve, acirrar ainda mais os ânimos já exaltados, uma vez que os simpatizantes do ex-ditador são levados ao ressentimento contra o atual governo iraquiano, liderado por um xiita. Inflamam-se, então, as paixões sectárias. Isso significa, e não sem razão, o aumento dos índices percentuais da violência no país, cujo resultado final apresenta grande número de feridos e mortos. Deixando, portanto, muito distante a paz e a democracia, pois estas não se sustentam com a ausência do diálogo entre as partes envolvidas, menos com a falta da tolerância, sob a predominância do desrespeito aos direitos humanos. Por falar nisso, os assassinatos de civis iraquianos não se enquadram em crimes políticos? Quem os investigará? Nesse particular, o presidente Bush não cometeu nenhum crime político?

   Lourembergue Alves é professor da Unic e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço às terças-feiras, sextas-feiras e aos domingos (lou.alves@uol.com.br)

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