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Terça-Feira, 10 de Abril de 2007, 01h:44 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Cuiabá é filha do rio

O jornalista fala sobre a importância do rio cuiabá para a sobrevivência da cidade.
 
     Será que a cidade de Cuiabá teria sobrevivido sem o rio que lhe empresta o nome? Acho que não. Pelo rio chegou a maior parte das pessoas na busca do ouro descoberto. O ouro não vai demorar muito tempo. A grande massa de gente foi embora. Os que ficaram tinham que sobreviver de alguma forma. O rio entra como a salvação. É por ele que chegava, por exemplo, o sal. É por ele que havia ainda uma ligação daqui com as coisas nacionais. É perto dele que se planta alguma comida como arroz e mandioca. Ele ainda dava o peixe.

     Mais tarde, às suas margens, surgem as usinas de açúcar, como Aricá, Itaicy, Flecha, Conceição. Seus produtos eram vendidos internamente e no exterior. Plantava-se ainda fumo nas terras ao longo do rio. Era usado para consumo local e alguma coisa era vendida também fora. Em suas margens surgem os salgadeiros ou os lugares para matar gado e salgar sua carne para exportação. Ou para tirar o extrato dela para levar para a Europa.

     E não foi só isso. Foi dali que veio a música, parte do linguajar, a comida regional e ainda a atuação e mando na política. A cultura local, na soma de tudo isso, vicejou às margens do rio que dá nome à cidade.

     Os mais entendidos mostram que a música local teve influência do Paraguai. Os ritmos dali chegaram pelo rio e aqui se mesclam com os que existiam criando o que se tem hoje na música folclórica e não folclórica.

     O linguajar cuiabano, aquele característico mesmo, é fruto da vida ribeirinha também. Qual tipo de comida os restaurantes típicos da cidade servem hoje? O peixe, em suas mais variadas formas de se fazer, é resultado do mundo que cercava esse rio.

     Na política, por muito tempo, vão mandar nela os usineiros do Rio Abaixo (uma expressão antiga e que mostra a força do rio nas coisas daqui). Os donos de usina tinham o poder econômico e entram na política. Lutas e mortes houve no controle da política por gente que habitava as margens desse rio.

     Foi pelo rio que chegou o cólera no período da Guerra do Paraguai (1865-70). Não foi, claro, uma coisa boa. Mas é que ela acaba fazendo que se modificassem os hábitos de saneamento de Cuiabá.

     A própria arquitetura da cidade modificou-se e isso ajuda a alterar costumes e a sanear a cidade. Ou, em outras palavras, o rio trouxe a cólera e esta ajudou a mudar a cara arquitetônica da cidade. Os casarões foram ampliados, com janelas maiores, diminuíram os becos. Deu-se uma nova roupagem à cidade.

     Tem mais ainda. A ligação desta cidade, por causa do rio, era mais forte com os países da bacia do Prata do que com outros locais do Brasil. Por causa do rio, surgem as casas comerciais para trabalharem com exportação e importação de produtos. Elas funcionavam como espécie de bancos e emprestavam dinheiro para se produzir bens que seriam exportados. Quase se pode afirmar que as fontes de rendas principais desta cidade estavam conectadas com o rio Cuiabá.

     Têm muitos objetos nesta cidade ainda hoje como portas e portões, pontes, coretos e tantas outras coisas que vieram do exterior. Companhias de danças da Europa, usando o rio, chegaram se apresentar aqui.

     Quais traços hoje que mais identificam Cuiabá? A música, a comida, o linguajar, a dança e a arquitetura. Tudo teve como base o rio. A vida da cidade se ligava e fluía do rio. Dali é que saiu a cara desta cidade. Sem ele, duvido que Cuiabá tivesse sobrevivido depois que o ouro esgotou.

Alfredo da Mota Menezes escreve em A Gazeta às terças, quintas e aos domingos.

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