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Terça-Feira, 21 de Outubro de 2008, 17h:53 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:21

Artigo

Cuiabania versus Cuiabanidade

  A produção e as manifestações culturais são partes intrínsecas da construção da identidade das sociedades no seu evoluir histórico. Como também são componentes indeléveis da vida material e originadas, fundamentalmente, da força e da organização do trabalho, única forma coletiva de produção de riqueza. Por isto a cultura mais significativa, representativa, forte e perene, é aquela oriunda da classe trabalhadora. Constitui-se uma cultura, impropriamente, chamada de popular, porque pertencente a toda sociedade, produzida pela camada mais pobre da população, a parcela mais explorada no sistema vigente, o capitalismo, hoje em mais uma de suas crises cíclicas.

   Em 1982 ingressamos, como professor concursado, no Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso. Tivemos a oportunidade, portanto, de testemunhar o auge das transformações demográficas, econômicas e político-sociais, céleres e profundas, pelas quais passava todo o Mato Grosso, em especial sua capital: Cuiabá. Toda a base de poder instalada sofria, evidentemente, um processo também de reorganização abrangente, e grupos hegemônicos tradicionais readequavam-se ou reorganizavam-se para enfrentar uma conjuntura nova e ao mesmo tempo de um dinamismo quase incontrolável, entre ele a propalada cuiabania.

   Por definição, em termos sociológicos, também aceita pelos seus pretensos membros, a cuiabania compõe-se pelos aqui nascidos, os de "tchapa-e-cruz", donos e guardiães deste suposto privilégio de berço, de sua cultura, signos e costumes, do seu falar, com heranças étnicas e características estéticas próprios. Como vemos e neste sentido, é preciso entender que, mais que uma verdade encontrada na realidade social, a cuiabania é um mero discurso da elite citadina cuiabana, diga-se sua burguesia, de cunho ideológico perigoso, como veremos, com o objetivo de garantir sua sobrevivência econômica e política. Utilitariamente, mostra-se confundir-se com o mais tradicional e popular existentes em terras mato-grossenses. Tenta forjar, com isto, uma identidade única, toda própria, e mais: locupleta-se de um patrimônio que não é seu e que, se não o negou de todo, sempre e reconditamente, o desprezou.

    É interessante registrar que, recém-chegados aqui, amistosamente queixando-nos de ser carimbados como "pau-rodado", Lenine Povoas, este cuiabano em toda a sua extensão, grande em sua erudição e figura humana, chamando-nos de professor, acreditem, tranqüilizava-nos:" ... esses reducionismos de conceitos mal elaborados, defeituosos em sua origem porque aproveitam-se do que há de mais rico em nossa formação, são reprováveis; até porque, no caso, professor, a geografia os desmentem, pois todos os nossos rios saem deste heartland (terra interior) mato-grossense como que apontando a generosidade de uma cultura e de tudo aquilo que produzimos."

    Para fixarmo-nos apenas na recente polêmica sobre a diferença entre a dança do cururu e a do siriri, trazida pelo debate eleitoral, vamos tentar demonstrar a pertinência dos argumentos colocados anteriormente. O fato do cururu ser dançado somente por homens e o siriri, também por mulheres e crianças, possuem componentes de fundo, essenciais, que devem ser lembrados.

   O cururu em sua origem é uma dança de negros, homens escravos, também cantado e com letras de protesto, como sussurros libertários, saídos do fundo do peito, sempre realizada às escondidas, nos matos de preferência, na clandestinidade. Como também o siriri, cujo motivo fundamental é resgatar as mulheres, e seus filhos, como sujeitos sociais, como partícipes ativos da sociedade. Em especial com relação às mulheres, havia também, em dançar o siriri, toda uma oportunidade de mostrar suas feminilidades, uma dança particularmente sensual e de sedução, detalhe hoje perdido, pelo menos nas oportunistas apresentações oficiais.

   Assim, tanto o cururu como o siriri, são manifestações culturais mais do que homens, mulheres e crianças do Coxipó e do Cuiabá dançando, no seu conjunto, constituem-se numa classe social da periferia da cidade, apartados da sociedade mais abastada, que os utiliza, em todos os sentidos e até hoje, e que mesmo assim, dignamente, apresentam-se com sua dança riquíssima, ao mesmo tempo em que continuam protestando e provando sua realidade de marginalizados e tripudiados pelo poder público. Não é por acaso que vivem na ribeira dos rios, onde a natureza é mais pródiga ainda, porém com uma vida sempre difícil e de pura luta.

   Ao utilizar-se destas manifestações culturais, da gente mais humilde, do povo ribeirinho, a elite cuiabana, além de aproveitar-se disto, concretamente, em decorrência das transformações de Cuiabá, constrói com esta temática uma identidade epidérmica e reducionista, de apenas um grupo, segregadora e discriminatória, com suas perversas conseqüências: quem o compõe é o autêntico cuiabano, a priori o melhor, incluindo aí os arrivistas e aproveitadores de toda ordem. Quem está fora, os outros, têm a tarefa, de todos os dias, justificar, inclusive, porque vivem aqui. É mais perigoso ainda. Historicamente, os liberais latino-americanos, a social-democracia do século XIX em diante, promoveram isto criando o movimento político-literário do costumbrismo. Isto foi aprofundado e aperfeiçoado mais tarde, em outras circunstâncias históricas, pelo nazifascismo com a cultura popular alemã.

  Deve-se observar com atenção que uma cidade é composta pelo conjunto de seus habitantes, de sua população como um todo, sem distinções, é a soma de todos que nela vivem, com prazer e liberdade, os mais antigos e os chegados depois. A tese da cuiabania derruba toda a comprovada hospitalidade cuiabana. Em uma cidade verdadeiramente cosmopolita deve-se considerar toda sua heterogeneidade, quanto mais diferenciados os seus moradores, vindos de toda parte, mais rica é sua vida social, como a Cuiabá real, que estamos acostumados a ver todos os dias como também em suas agradáveis noites. A convivência, neste caso, é a mais ampla possível. As culturas vivas se misturam e se misturam no trabalho daqueles que trabalham de verdade, e não permitem qualquer cristalização daquilo que criam, e nem podem, como não permitem o seu uso para beneficiar grupos ou grupelhos, ou aprendizes de ideólogos de última categoria, melhor conhecidos como políticos espertos.

   Apenas como registro, se você quer conhecer o verdadeiro vanerão cuiabano hoje, muito misturado do rasqueado e da lambada, curta a música e a dança produzida no Jardim Florianópolis. Os temas do hip-hop, necessariamente cuiabano, desculpe-nos pela redundância, tratam dos problemas da periferia cuiabana. Quer ver um programa de televisão da Cuiabá em seu todo, perdão pela propaganda involuntária, assistam o Resumo do Dia. Em seu conhecido e respeitado estudo como eminente arquiteto, o professor Júlio Delamônica, observa que muitas das casas de cuiabanos no CPA têm sinais das casas antigas de Cuiabá, mas com indícios outros que as diferenciavam das mais antigas do centro. Os exemplos podem ser muitos e multifacetados.

   Esta vida mais solta, arejada, quente para ser cuiabano, sem estigmas, traços, sinais que marcam pessoas e frontes, de liberdade absoluta, a CUIABANIDADE, é que deve brindar a cidade de plena democracia, de uma igualdade a ser almejada. Livre por completo de uma cuiabania, uma casta misteriosa, donas dos destinos, uma entidade só não metafísica porque muitos dos seu membros vemos perambular por suas ruas, mas no seu estertor, sedenta ainda do poder que há muito lhe foge das mãos.

   Ser cuiabano é lançar-se, sem medo, na CUIABANIDADE, respeitando toda a simbologia e a história deixada pelos seus mais antigos moradores. Não utilizar-se de seus significados mais representativos, seus divinos, ganzás, sucuris, violas de cocho ..., numa desordem estética que confunde, ou de forma política, desrespeitosa por si só. Ser cuiabano, enfim, em seu sentido maior é entender que esta Cidade, e todo Mato Grosso, além de bem receber, projeta-se, até na geografia dos seus rios, como carinhosos tentáculos a abraçar ao quase infinito, ao mundo entendido como de todos.

    Tomás de A. S. Boaventura é professor aposentado do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

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