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Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007, 09h:08 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

De patinho feio a cisne

     Quase 30 anos depois da divisão territorial, ainda há alguns questionamentos e discussões sobre quem ganhou mais, em termos de potencialidade econômica e qualidade de vida, se nós (do Norte) ou os vizinhos sul-mato-grossenses.

     Mato Grosso do Sul não regrediu. Está em franco desenvolvimento. Mas o Mato Grosso (o do Norte), é o primeiro produtor nacional de soja e algodão, dono do maior rebanho bovino nacional e segundo de arroz. De patinho feio virou cisne.

     Quando o Estado foi dividido, a população que ficou no Sul fez festa porque considerava aqui, o Norte, um peso morto, um imenso sertão que atravancava o progresso. Na época, os próprios nortistas protestaram, apesar de terem herdado 70% do antigo território. Alegavam que só restaram-lhes o ônus, considerando que o Sul teria ficado com as melhores terras, as indústrias, a maior arrecadação, enfim, o filé mignon.

     Hoje, a história é outra. O dínamo da arrancada de Mato Grosso é a agricultura. Produtores rurais do Sul do país marcharam rumo ao Oeste para desbravar a nova fronteira agrícola. A maioria optou por Mato Grosso, com suas terras, à época, baratas, topografia plana propícia à mecanização. Parte dos latifúndios improdutivos, destinados à extração de madeira, ao garimpo e à pecuária extensiva, deram lugar a fazendas profissionalizantes e lavouras mecanizadas tocadas pela tecnologia e pela vontade de vencer dos novos migrantes.

     Impressionante como isso proporcionou mudança de cenário. Na esteira da explosão verde, o Estado foi salpicado de novas cidades. Em algumas, surgem imagens incomuns, como loiros tomando chimarrão nos bancos das praças. Os nativos tiveram que se acostumar aos sobrenomes de origem alemã e italiana.

     Em 1979, quando Mato Grosso foi desmembrado em dois Estados, a parte do Norte, que ocupa 10% do território nacional, tinha 38 municípios. Hoje, tem 141. Encravadas no campo, várias das novas cidades apresentam boas surpresas. Sapezal, a chamada terra dos Maggi, inclusive tida como principal referência pelo governador Blairo Maggi, é toda suprida por uma rede de telefonia com cabos de fibra óptica.

     Com cerca de 70 mil habitantes, Primavera do Leste tem um sistema de saúde montado para atender o dobro do número de moradores. Lucas do Rio Verde, que nasceu a partir de um projeto de colonização do Incra, está com toda a sua área agricultável e tomada por soja e algodão. O Índice de Desenvolvimento Humano, medida usada pela Organização das Nações Unidas para avaliar as condições de vida, é um dos maiores do interior do Estado. O crescimento da cidade é tanto que está atraindo uma segunda leva de migrantes, não tanto aqueles especialistas em sementes e tratores, mas médicos e outros profissionais.

     Nessas cidades interioranas, a maioria da população veio da Região Sul e conseguiu impor seus hábitos, como o chimarrão e o churrasco. Na Grande Cuiabá, a cultura pantaneira continua prevalecendo, apesar de pelo menos metade dos quase um milhão de habitantes ser formada por migrantes. Não é uma Suíça, mas evidencia o desenvolvimento e as potencialidades de Mato Grosso, mesmo enfrentando os problemas típicos das metrópoles.

     O cenário passou a ser mais otimista a partir da preocupação política e empresarial de atacar dois gargalos que atrapalham o desenvolvimento: energia e transporte. No caso do primeiro, o déficit já está praticamente eliminado. Mas, em relação à malha viária, há muito por fazer. De todo o modo, Mato Grosso não é mais o patinho feio, pois já estamos no novo ciclo da industrialização, em que pesa os agricultores, que já encheram muito o bolso por aqui, mantém a estratégia da choradeira, tudo em nome do perdão ou pela renovação de suas dívidas bancárias.

Romilson Dourado é jornalista, editor de Política de A Gazeta e escreve neste espaço às segundas-feiras

 

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