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Sábado, 18 de Agosto de 2007, 10h:24 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Desmatar é mau negócio

     Quando Mato Grosso era continental e os seus limites iam de São Paulo-Paraná, no Sul, até o Nortão Amazônico, se limitando com os estados do Amazonas e Pará, mais do que nunca se prestava como visor da economia florestal brasileira. Mas, se pode perguntar: economia ou uma deseconomia? Um gigantesco ou ciclópico desgaste, consubstanciado no desmate sistemático de grandes maciços madeireiros, que acaso conservados, significariam incalculável riqueza?
     Imagina a mancha silvícola da região da Grande Dourados conservada até nossos dias... Também a mancha florestal dos pólos Rondonópolis-Jaciara... E ainda o maciço silvícola dos flancos da Serra dos Parecis, englobando a região da Grande Cáceres, Barra do Bugres ou todo o rosário de localidades do Ato Paraguai... E para completar a megasselva da Amazônia de Mato Grosso, trocada que fora pelos pólos habitacionais de Sinop e grande Entorno, assim também Alta Floresta e suas extensões e mais toda a mata nativa de Aripuanã-Juina-Juara-Juruena? Com efeito, é esse um exercício onírico de sonhador delirante, mas que a ciência e a técnica vieram validar! Com efeito, reafirme-se, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em levantamento sobre a comercialização predatória da floresta, trazido a lume pelo repórter Herton Escobar, de O Estado de São Paulo e republicado no www.supergood.com, mostra que desmatar é arrematado mau negócio. Para gáudio dos leitores, cedemos nosso espaço à republicação, em compacto, dessa antológica matéria, como segue:
     "O desmatamento não compensa. O que já era considerado um mau negócio para o meio ambiente está se revelando também um péssimo negócio do ponto de vista socioeconômico para a Amazônia. (O estudo) mostra que os indicadores de qualidade de vida nas regiões desmatadas não são melhores do que nas áreas em que a floresta foi preservada - em muitos casos, chegam a ser piores. Ou seja: sai a floresta, fica a pobreza". E prossegue: "Esse discurso de que o desmatamento gera emprego e renda é furado - diz a engenheira florestal Danielle Celentano, do Imazon. (...) Num primeiro momento, o desmatamento produz, de fato, um enriquecimento localizado, com forte influxo de capital e recursos humanos, centrado na exploração predatória da madeira. Árvores viram toras e carvão, enquanto florestas dão lugar a pastos e plantações. A longo prazo, porém, o cenário se inverte. A madeira acaba, os trabalhadores vão embora, o solo perde a fertilidade e a economia local despenca, sem nenhuma árvore para se apoiar ou se proteger do sol. (...)
     Um dos melhores indicadores disso é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), parâmetro internacional que mede a qualidade de vida da população. (...) Na prática, a qualidade de vida de uma família que mora em um município ambientalmente depredado pode ser muito inferior à de uma que vive na floresta intacta. A pobreza é semelhante, mas a qualidade de vida certamente não é. São diferenças que não aparecem nas estatísticas, mas podem ser vistas claramente na vida real. Quem vive junto à floresta pode não ter dinheiro no bolso, mas pode sempre contar com um peixe na rede para se alimentar e com uma planta da mata para se curar. Sem a floresta, ocorre um processo de favelização. Os serviços gratuitos que eram prestados pela biodiversidade desaparecem e as comunidades passam a depender de serviços públicos precários ou inexistentes. A sensação de pobreza é muito mais grave. Quem paga o custo é a sociedade brasileira, que fica obrigada a sustentar esses municípios falidos.
     Para o diretor da organização Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi, o estudo desbanca definitivamente o conceito de que a conservação ambiental é um empecilho ao desenvolvimento e de que a criação de áreas protegidas precisa ser "compensadas" com incentivos econômicos pelo Estado. Normalmente, assume-se que o desmatamento é um preço a pagar por algum avanço social ou econômico. Quando o que estamos vendo, na verdade, é um aumento dos custos sociais e resultados econômicos no mínimo inexpressivos. O desmatamento não trouxe alto desenvolvimento humano para nenhum desses municípios, nem mesmo representou melhores IDHs quando comparados aos municípios florestados. Nossos resultados indicam que a conversão dos recursos naturais não resultou no desenvolvimento econômico, nem em melhores condições de vida para a população. As exceções ficam por conta das regiões mais secas da Amazônia (em geral, áreas de cerrado), como no centro-norte de Mato Grosso, onde as condições mais propícias à agricultura permitem um desenvolvimento econômico mais sustentável. (Ressalve-se) alguns municípios beneficiados pela mineração que também conseguem escapar do colapso graças aos pesados royalties provenientes da atividade.
     A zona sob pressão demarca o avanço da fronteira, onde os índices de desmatamento, especulação, assassinatos e disputas de terra se apresentam de forma mais expressiva. O motor de tudo é a exploração da madeira - em grande parte, feita de forma ilegal. Serrarias e carvoarias brotam da terra por todos os lados. Trabalhadores migrantes desembarcam de todas as regiões em busca de emprego. A riqueza produzida por esse modelo, segundo os pesquisadores, é imediatista e mal distribuída. Enquanto alguns poucos enriquecem, a maioria é deixada para trás, tão pobre quanto ou pior do que começou. A solução é seguir para onde há mais madeira, empurrando a fronteira cada vez mais floresta adentro" conclui.

João Vieira, sociólogo e ex-dirigente do Museu Rondon/UFMT, escreve semanalmente neste espaço (joaovieira01@pop.com.br)

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