Últimas

Domingo, 14 de Janeiro de 2007, 07h:14 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

E agora, Brasil?

   Com o título 'E agora, Brasil?', o siciólogo Helio Jaguaribe afirma, em artigo na Folha de S. Paulo de deste domingo (14), que "os grandes saltos da nossa história se deram a partir de um esforço de renovação das idéias. É preciso mobilizar um pensamento mobilizador. Confira abaixo a reprodução na íntegra ou clique aqui (para assinante Folha).

     O ANO de 2007 se inicia, no Brasil e no mundo, de forma pouco esperançosa. Contrastam, em ambos os âmbitos, a imensidão e a complexidade dos problemas com que se defrontam com a precariedade dos recursos efetivamente disponíveis para enfrentá-los e, mais ainda, com a insignificância dos projetos públicos para esse efeito apresentados.
     O Brasil, após 26 anos de estagnação, se defronta com a perspectiva de mais quatro. O governo Lula, embora reconhecendo o imperativo de retomar satisfatória taxa de crescimento econômico -paralisada, por todos esses anos, em torno de 2%-, não apresenta o menor indício de poder efetivar sua promessa de um crescimento a taxas anuais não inferiores a 5%.
A manutenção de uma equipe econômica dominada por um vil monetarismo neoliberal é inequívoca indicação da preservação do status quo.
     O projetado pacote de medidas dinamizadoras consiste só, pelo que se sabe, em modestas reduções da esmagadora carga fiscal, sem apreciável redução dos juros astronômicos, por incapacidade de significativa redução das despesas de custeio da União, assim delegando ao setor privado o encargo do crescimento econômico. Como se tal fosse possível para um setor esmagado pela tributação e pelas mais altas taxas de juros do mundo.
     À continuada paralisação do Estado se opõe o vertiginoso crescimento dos problemas brasileiros. Problemas de deseducação e decorrentes miséria e criminalidade, aquela com seus efeitos minorados pela aspirina da Bolsa Família, mas com suas causas continuamente agravadas pela estagnação.
Nesse contexto de sistemático atraso, tudo no Brasil se deteriora. Deteriora-se a infra-estrutura, com estradas intransitáveis, um sistema de aviação civil em estado caótico e um previsível déficit de energia elétrica para o quadriênio que se inicia.
    Mais que a infra-estrutura, deteriora-se, perigosamente, o padrão de moralidade do Brasil. A combinação do atraso econômico-tecnológico com a perda dos valores religiosos e tradicionais -não substituídos por valores humanistas e cívicos- está tornando a sociedade brasileira uma das mais destituídas de ética do mundo. Impera, da cúpula à base, o espírito da malandragem. A cultura da malandragem é o principal fator de atraso no mundo, da África às regiões retardadas da Ásia e da América Latina. Se voltarmos os olhos para o mundo, nos defrontamos, também, com perspectivas desanimadoras.
    A Europa, com exceção do êxito material e cultural da Espanha de Zapatero, segue se beneficiando de suas conquistas pregressas, mas se revelando incapaz de lidar com os crescentes desafios de seu doméstico proletariado islâmico e, menos ainda, de exercer um relevante papel mundial.
    Os EUA, apesar da vitória parlamentar dos democratas, continuam submetidos a um dos piores governos de sua história, domesticamente incapaz e internacionalmente nefasto.
    No mundo islâmico, os muçulmanos moderados, de que depende o progresso daquela região, se revelam incapazes de conter seus enlouquecidos fundamentalistas. Sobram, felizmente, os extraordinários progressos da China e da Índia.
    Nesse contexto pousa, para nós, a grande questão do que fazer. O que se pode fazer nas condições de ampla e abrangente crise? A resposta histórica, na Grécia do século 4 a. C., na Europa do Renascimento e da Ilustração e no mundo ocidental ante a crise de 1930 foi, sobretudo, pensar. É pelo pensamento que se afirma a dignidade humana. Em certo e decisivo aspecto, todas as crises resultam de um déficit de pensamento em determinadas situações humanas e sociais.
   Precisamos mobilizar a inteligência brasileira para uma lúcida identificação de nossos principais problemas, de suas causas e de como poderemos enfrentá-los, independentemente da inércia e da mediocridade dos dirigentes de turno.
   Os grandes saltos da história brasileira se fizeram a partir de um esforço de renovação das idéias, que conduziu a geração dos anos 20 a uma reforma de nossa cultura e, pela revolução de 30, de nosso sistema político. Foi a renovação de idéias trazidas pelo Iseb, nos anos 50, que levou ao exitoso projeto nacional-desenvolvimentista do segundo governo Vargas e de Juscelino Kubitschek. Estamos precisando de um novo Iseb, ajustado às novas condições do século que se inicia.
    Na inércia e mediocridade do governo federal, se destacam, no entanto, em nosso país, promissores novos governos estaduais em Estados relevantes como São Paulo e Rio de Janeiro, e a continuação, em Minas, do excelente governo de Aécio Neves.
É a partir desses pólos estaduais que se pode realizar o esforço de instauração de centros inovadores do pensamento. Está na hora de se constituírem institutos de humanidades aptos a mobilizar um pensamento inovador, como o fez Ortega para a recuperação da Espanha.


    HELIO JAGUARIBE , 83, sociólogo, é decano do Instituto de Estudos Políticos Sociais e autor de, entre outras obras, "Brasil: Alternativas e Saídas"

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Fazendeiro deve disputar em Tangará

chico clemente 400 curtinha   Chico Clemente (foto), que está determinado a disputar a Prefeitura de Tangará da Serra pelo PSD, é fazendeiro e não precisa de política praticamente para nada. Mesmo assim, é conhecido por gostar muito dos bastidores, o que o levou a estar na direção de campanhas...

Vander sufocado em Tangará da Serra

vander masson 400 curtinha   Se até há poucos dias tudo indicava para uma possível eleição de Vander Masson (foto) em Tangará da Serra, agora a situação ganha novos rumos e se complica para o tucano. O filho do ex-deputado Saturnino vem perdendo o controle do cenário. Nos últimos...

IFMT e novo laboratório pra testagem

deiver 400 curtinha   Numa iniciativa inédita, o Campus do IFMT Cuiabá - Bela Vista, sob o diretor-geral Deiver Alessandro Teixeira (foto), terá um novo laboratório a ser utilizado para análise sorológica da Covid-19, através da pesquisa de IgG e IgM. A obra, orçada em R$ 1 milhão,...

Comitê chama órgãos fiscalizadores

emanuel pinheiro 400 curtinha   Para colocar fim às críticas sobre suposta falta de transparência na aplicação dos recursos transferidos a Cuiabá pelo governo federal com vistas ao enfrentamento à pandemia, o prefeito Emanuel Pinheiro (foto) determinou que seu secretário de Saúde, Luiz...

PT sob risco de não eleger ninguém

marcos viana 400 curtinha   Mesmo tendo cabeça de chapa para prefeito, no caso o ex-juiz federal Julier Sebastião da Silva, o PT dificilmente elege um vereador em Cuiabá no pleito deste ano. A chapa de pré-candidatos proporcionais é fraquíssima. O "grande" nome do partido é da professora Edna...

Único da família Oliveira pra vereador

luluca 400 curtinha   Na queda-de-braço entre irmãos, venceu, por enquanto, Luiz Arthur Oliveira Ribeiro, o Luluca (foto), que será candidato a vereador pelo MDB em Cuiabá, carregando o espólio político da família Oliveira. Irmão de Luluca, o ex-vereador Leonardo Oliveira, que procurou e...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.