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Domingo, 30 de Setembro de 2007, 08h:58 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Efeito Renan Calheiros

    Apresso-me em tecer algumas considerações acerca do título. Não, caro (a) leitor (a), não se está diante de mais um artigo enfadonho a tratar da inacreditável absolvição de Sua Excelência, o senador Renan Calheiros. Não é o caso, aqui, de mais uma daquelas opiniões políticas sem propósito que enchem a página de um jornal, a caixa de entrada do nosso e-mail e a nossa paciência. O acontecimento protagonizado pelo nobre parlamentar nos tem estimulado à reflexão – daí “Efeito”, no título. Ele funcionará apenas como pretexto, desta vez, para que abordagem mais ampla seja feita. Senão, vejamos.

     Recentemente, li um livro interessantíssimo do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, intitulado “A Casa & A Rua : Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil”. Por meio de tais espaços geográficos, Casa e Rua, DaMatta analisa, com talento e habilidade costumeiros, o conjunto de relações que se estabelecem na sociedade brasileira. O mesmo brasileiro que, em ´casa´, no círculo familiar, se mostra cordial, amável e seguidor dos bons costumes não demonstra, às (muitas) vezes, atitudes tão valorosas quando está fora dela, na ´rua´, onde joga lixo e desobedece às regras de trânsito, por exemplo. A partir disso, o autor não coloca “casa” e “rua” como lugares, meramente, mas como “categorias sociológicas”, ou seja, “esferas de ação”, entidades que despertam certos modos de agir no brasileiro.

     Em última análise, a ´casa´ se identifica, percebam, com a noção de privacidade, com o que é privado. A ´rua´ se ajusta, por sua vez, com a idéia do que é público. Torna-se nítida, assim, a forma contraditória de o brasileiro, geralmente, se comportar, num e noutro local: no lar, revelam-se gentileza, educação, bons modos e cuidado com o que é propriedade nossa, e só nossa; fora dele, é patente e comum o descaso, o desrespeito ao que é de todos nós, à res publica (coisa pública, em latim. Daí “República”).

     Permitam-me especificar um pouco mais esse raciocínio. Transportemos esta reflexão para a política. Para tanto, indagações se fazem necessárias: Como agem os representantes do povo, quando no exercício de suas atividades públicas? Digo, como os políticos brasileiros se comportam ao lidar com questões que dizem respeito a toda a população? Atuam eles como se estivessem em ´casa´ ou na ´rua´? Pautam as suas ações no cuidado e na cordialidade ou no descaso e no desrespeito? Calma leitor (a), não nos exaltemos. Banho de água fria em nós. Abordem-se, friamente, as perguntas, afinal, as armadilhas estão por toda parte, sobretudo em se tratando de política. Em um primeiro momento, é notório que nossos homens públicos, no desempenho da representação, conduzem-se como se na ´rua´  estivessem, por motivos mais que explícitos, comprovados pelo desprezo recorrente às necessidades do povo. Porém, isso não é tudo. Como se não bastasse, qual é a nossa surpresa ao perceber que eles também se comportam como se estivessem em ´casa´ – o que se prova pela famigerada corrupção, apropriação privada do que é público, em uma execrável confusão que mistura o que é deles com o que pertence a nós, ressalvadas sempre as devidas e existentes exceções. Talvez esteja aí a origem da expressão ´Casa´Legislativa...

     A situação é crítica, todos sabemos. No entanto, é possível reverter tal quadro? Sem titubear, é claro que sim. Mecanismos para controlar e fiscalizar os políticos brasileiros existem. Citem-se o Ministério Público, o Poder Judiciário e as próprias eleições. Todavia, é oportuno frisar que há alternativas a isso. Nota-se que o Estado é freqüentemente ineficaz no cumprimento de suas tarefas. Devo dizer, então, que cabe a nós também esse papel. Caro (a) leitor (a), interesse-se pela rua da mesma forma com que se interessa pela sua própria casa. 

     Thiago Stuchi Reis de Oliveira, 20, mato-grossense de Alta Floresta, é acadêmico de Direito da Universidade de São Paulo -USP (thiagostuchi@hotmail.com)

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