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Domingo, 07 de Janeiro de 2007, 06h:22 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Entre o alarmismo e a esperança

    O ex-ministro da Fazenda no governo Sarney, Luiz Carlos Bresser Pereira, afirma, no artigo 'Entre o alarmismo e a esperança', na Folha de S. Paulo deste domingo (7), que "há momentos em que a visão de um futuro mais próspero parece prevalecer. Em outros, o medo toma conta de corações e mentes".

Confira reprodução abaixo.

    NOVO ANO , novas esperanças e novos medos. Há momentos em que a visão de um futuro mais próspero e mais livre, mais seguro e mais justo, que melhor respeite a natureza parece prevalecer, mas, em outros, o medo e o alarmismo tomam conta dos corações e das mentes.
    De repente, anuncia-se que o mundo está para ser dominado por um novo inimigo: o perigo islâmico; ou nos dizem que os países pobres estão destruindo a economia dos países ricos e civilizados com sua mão-de-obra barata e seus recursos naturais abundantes; ou, ainda, que o problema está no desenvolvimento tecnológico e científico que produziu as armas nucleares que agora ameaçam o mundo; ou, finalmente, que o crescimento econômico está ameaçando a espécie humana de extinção.
Todos esses temores têm alguma base na realidade, mas são essencialmente equivocados.
     Mesmo o último é discutível, embora o aquecimento global seja uma ameaça real -provavelmente a maior que a humanidade enfrenta. É discutível porque não existe contradição absoluta entre desenvolvimento econômico e proteção do ambiente. Existem conflitos, mas que são marginais: os custos econômicos para resolvê-los são muito menores do que, tanto os liberais radicais que não admitem regulação de suas atividades quanto os ambientalistas igualmente radicais que tudo subordinam à proteção da natureza, estão dispostos a admitir.
    Os custos apenas se tornam altos quando se definem padrões extremos de não poluição; como os custos de não poluição somente crescem fortemente quando definimos esses padrões, proteger o ambiente de forma razoável é muito mais barato do que se pretende.
    Não obstante, nós vivemos hoje sob o signo do medo, e não da esperança; sob o alarmismo dos que temem os movimentos islâmicos nacionalistas, a concorrência dos países em desenvolvimento, o holocausto nuclear, o aquecimento global.
    E quais as soluções que nos oferecem para esses problemas? A repressão dos nacionalismos, a proibição da proliferação de armas nucleares sem que se destruam as armas existentes e a redução das taxas de crescimento dos países em desenvolvimento que ousam sair da pobreza.
    De todos esses problemas, apenas um realmente me preocupa: o do aquecimento global. É evidente, entretanto, que não é paralisando o crescimento na China ou na Índia que se vai resolver o problema. Ainda que a emissão de gás carbônico esteja aumentando nesses países, a origem da mudança de clima está nos países ricos -particularmente nos Estados Unidos, país que é o grande poluidor, mas não assina o tratado de Kyoto.
    O problema preocupa, mas não me alarma, porque, apesar da irracionalidade das ações humanas quando conflitos de interesses nacionais prevalecem, estou convencido de que a humanidade, embora não possua um Estado mundial que evite os "free riders", os caronas, está hoje suficientemente consciente de seus problemas para poder agir de forma coletiva.
    A sociedade global já dispõe de informações e de mecanismos que lhe permitem coordenar de forma imperfeita, mas aceitável, seus cinco objetivos políticos: segurança, liberdade, bem-estar, justiça social e proteção do ambiente. 
    Como era de esperar, os países ricos usam de sua hegemonia ideológica para impor seus pontos de vista, mas seu alarmismo -para uso mais externo do que interno- merece cada vez menos credibilidade.
    Os povos do Oriente Médio têm direito à autonomia nacional, os povos dos países pobres têm direito ao desenvolvimento e não há razão para impedir que alguns países se protejam nuclearmente se aqueles que os ameaçam não se desarmam.
    Por outro lado, a possibilidade de uma ação coletiva razoavelmente equilibrada aumenta todos os dias na medida em que aumentam as comunicações, e os homens e as mulheres, em todas as partes do mundo, aumentam a sua capacidade de se informar e de manifestar suas opiniões.
    Por isso, não estou pessimista. O medo é grande, o alarmismo é uma arma, mas a informação e a esperança são mais fortes.


 

    LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 72, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney) e da Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC), é autor de "As Revoluções Utópicas dos Anos 60" (Editora 34), entre outras obras.

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